19 de mar de 2003

Tem dias em que falta ânimo para escrever. Tem sido assim desde sábado.

Há algo no mínimo curioso acontecendo quando um árbitro, sem ter influído diretamente no resultado do jogo, torna-se a estrela do espetáculo. Foi o que se viu no Fla-Flu. O Sr. Carlos Jorge Moreira protagonizou um dos espetáculos mais tristes de que se tem notícia na história do futebol carioca. Não influiu diretamente no resultado, não apitou nenhum pênalti inexistente, não validou nenhum gol ilegal e, assim mesmo, foi a grande atração da tarde.

É bom que se diga desde já: foi justíssima a vitória e a goleada do Fluminense. Não fez mais porque não quis. Os tricolores hão de se lembrar para sempre do show proporcionado por seus jogadores. Mas os demais torcedores hão de se lembrar de Carlos Jorge Moreira. De Carlos Jorge Moreira ouvindo, com o rabinho entre as pernas, os impropérios de Athirson ao longo dos noventa minutos. De Carlos Jorge Moreira tremendo de medo quando Alessandro, expulso, encarou-o e disse para o Brasil todo ouvir: "Você é um merda!"

Impossível imaginar tal espetáculo de pusilanimidade sem que Carlos Jorge Moreira tivesse alguma culpa no cartório. Como não beneficiou o Fluminense, como já foi encostado na parede e desrespeitado, sem tomar maiores providências, quando o jogo ainda estava 0 x 0, é de se imaginar que seus pecados sejam anteriores ao Fla-Flu. Com efeito, a covardia do Sr. Carlos Jorge Moreira, no sábado, é um atestado de culpa pela roubalheira da final da Taça Guanabara.

Não fosse assim, como poderia um homem que honra o que tem entre as pernas aceitar passivamente os urros de Athirson e as ofensas de Alessandro? Como poderia intimidar-se tanto a ponto de tentar flagrantemente apaziguar os jogadores do Flamengo, permitindo aos rubro-negros cobrar as faltas cometidas por eles próprios? Não foi o que se viu no final do jogo, quando Júlio César saiu driblando até a intermediária do Fluminense e, desarmado, jogou todo o seu peso contra um defensor tricolor?

A única resposta plausível para essas perguntas é que o Sr. Carlos Jorge Moreira tinha antigos pecados a expiar. Confrontado com um acusador tão veemente como Athirson, o larápio perdeu completamente a ascendência que torna praticável apitar.

Depois do que o Sr. Carlos Jorge Moreira fez no Flamengo x Vasco, tornar a escalá-lo para apitar um jogo do Flamengo seria uma temeridade que só se poderiam permitir os muito burros ou os muito calhordas. E o Sr. Eduardo Vianna obviamente não é burro.

Não é por burrice dele que o futebol carioca foi relegado a esse papel secundário a que se vê restrito hoje. Não é por burrice dele que, este fim de semana, um reles Curintcha x São Paulo (qualquer clássico paulista é reles, sem cor e sem charme) foi um deleite muito maior para os olhos do que -- of all matches! -- um Fla-Flu.

Fosse burro, não estaria há dezessete anos mandando e desmandando no cada vez menos empolgante futebol carioca.

Burros são os que o elegem e reelegem, fazendo definhar a nossa paixão, matando o futebol mais charmoso do mundo. Só que, a partir de um certo ponto, insistir na burrice passa a ser também canalhice.

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