05/12/2011

REFLEXÕES DE FIM DE TEMPORADA


Cavalheiros: atendendo a pedido, permito-me incomodá-los com três ou quatro reflexões de final de temporada:

(1) Ao contrário do que diz dona Patrícia, 2011 foi um ano ruim, porque o seu Flamengo abdicou de sua obrigação natural de vencer. Ganhou o carioquinha, é certo, mas o carioquinha não vale nada desde o dia 28 de maio de 2001, quando cumprimos a obrigação histórica de colocar o Vasco, de uma vez por todas, em seu devido lugar de coadjuvante.

Como o carioquinha há muito não é parâmetro para nada, feitas todas as contas, é negativo o saldo de Luxemburgo em sua terceira passagem malograda pelo clube (ou quarta, se considerarmos o período em que foi um lateral-esquerdo sofrível). Salvou-se aos peidos do rebaixamento em 2010 -- muito mais pelos resultados alheios do que pelos próprios --, mas em 2011 conseguiu a proeza de ser eliminado da Copa do Brasil por um time que termina o ano rebaixado com justiça, mais o grande feito de perder o Brasileiro mais fácil de todos os tempos. Aos que discordarão de minha última afirmação, repetindo as bobagens que escutam dos palpiteiros da Globo, lanço o seguinte desafio: quem aqui se lembrará de um jogador ou de uma jogada desse Curíntia medíocre daqui a dez anos?

(2) Porque o Flamenguinho de Patrícia e Luxemburgo não cumpriu sua missão doutrinadora, chegamos ao fim do ano forçados a escolher entre o pior de dois males, e não estou certo de que tenhamos feito a escolha certa. Recapitulo: fizemos a escolha certa porque não há de chegar o dia em que vagabundo vestido de Vasco, ou de qualquer outro trapo imundo, levantará um troféu nacional minutos depois de ganhar do Flamengo. E fizemos a escolha certa porque dela dependia estar na Libertadores, e aí contribuir mais uma vez para frustrar os planos da canalha incolor sem passaporte (lembrai-vos do Pacaembazo de 5 de maio de 2010). Mas testemunhar a alegria de pústulas do quilate de um Andrés Sánchez, um Ronaldo (com 130 quilos de gostos reprováveis), um “craque” Neto, para mim é quase tão ruim quanto ver a felicidade desses otários cujo sofrimento não pode parar.

(3) Dizer o quê desses otários? Houve tempo em que rangiam os dentes, esperneavam e se desfaziam em singulares ataques de pelanca a cada vice conquistado. Ontem bateram palminhas. Foram vice-campeões, terminaram na posição mais aviltante entre a segunda e a 16ª, e gritaram “é campeão”. Se dermos corda, acabam bordando mais uma estrelinha em sua camisa sem cores nem glórias.

(4) Luxemburgo passou o ano inteiro repetindo o discurso medíocre de que “a prioridade é a Libertadores”. O mínimo que se pode esperar dele, agora, é que aja de modo conseqüente. Que não me venha escalar titulares para as peladas sonolentas do carioquinha, sobretudo se forem às vésperas de compromissos pela Libertadores (como, aliás, fazia o perdedor Joel Santana, aquele do América do México). Podia era começar a temporada mandando os titulares todos aclimatarem-se no topo dos Andes, uns quinze dias antes do jogo contra o Potosí. Que deixe os juvenis jogarem contra Bacaxá, Entrerriense, Goytacaz ou Botafogo.

(5) Ia parar por aqui, mas não resisto. E u Galu? Que dizer du Galu? Os galináceos lá soltam plumas e falam em marmelada, como se alguém pudesse ser tão escancarado ao arquitetar uma armação em conluio com o maior rival. O que efetivamente aconteceu parece ter sido muito mais simples: a “massa” atleticana tratou como decisão o jogo em que podiam rebaixar o Cruzeiro. Aí não tem remédio: sendo decisão, u Galu indefectivelmente se fode de preto e branco.

21/02/2011

1987 NOS VOSSOS CORNOS


Por Deus, olhai a foto que ilustra este artigo. Ali está Leandro, o Peixe Frito, o maior lateral direito que o Brasil já viu, com o joelho em frangalhos mas, ainda assim, um paredão inexpugnável em nossa zaga. O Leandro que deixou sangue em campo no Mineirão, na semifinal, quando, confirmada a escrita, a freguesia das Alterosas entrou em desespero. A seu lado, novinho, Zé Carlos, Deus o tenha, o Zé Grandão que foi o primeiro substituto digno de Raul Plassmann nos meus times de botão e no meu coração. Está lá Andrade, prestes a desfilar sua classe gigantesca pelo gramado do Maraca. Prestes a fazer a maior exibição de sua carreira e ofuscar Zico, Renato, Bebeto. Prestes a coroar uma jogada coletiva de antologia com o passe magistral para Bebeto. Está lá Edinho, velho rival agora com as cores certas, as únicas cores certas, formando com Leandro uma daquelas zagas que deviam ser proibidas porque é sacanagem com o adversário. Está lá o Leonardo, menino ainda, 17 anos, o Léo que ainda era o Ratinho para os seus colegas do Instituto Abel de Niterói, que olhávamos para ele como quem olha assim para um semideus (“quantas mulheres é possível comer, jogando no Flamengo, aos 17 anos?”). Está lá Jorginho, atleta de Cristo dos de verdade, homem de bem, lateral fino e vigoroso, uma das cinco contribuições desse Flamengo para a seleção que finalmente traria de volta o caneco, em 1994.

Agachado está Bebeto, que um belo dia desistiu de ser o sucessor do Galinho em nossos corações, mas que a essa altura era idolatrado com justiça pela maior torcida da Terra. O Bebeto que um dia formaria, ao lado de Romário, a maior dupla de ataque da história do futebol. A seu lado está Renato Gaúcho, que rodou o Brasil inteiro mas nunca — nem no Grêmio, contra o Hamburgo — experimentou coisa comparável a ser o maior jogador do Brasil envergando o Manto Sagrado. O Renato que esse ano saldou contas pendentes com o inimigo Telê Santana e confirmou, pelos séculos dos séculos, a ancestral freguesia do odioso Galo mineiro diante do Flamengo. Ao lado dele Aílton, raçudo, voluntarioso, que um dia entrou para a história, jogando pelo Grêmio, definindo uma das finais mais emocionantes de todos os tempos. O Aílton que, reparai, foi o único desses onze a não ter vestido a camisa da seleção. Depois está Ele, Sua Majestade Arthur Antunes Coimbra, que em noventa minutos erguerá seu último troféu pelo Flamengo, e em dois anos deixará os gramados e nos fará órfãos para sempre. A seu lado, ainda mirrado, ainda moleque, Crizam César de Oliveira, Crizanzinho, Zinho. Os críticos um dia o chamarão de enceradeira, mas eram esse domínio e esse toque de bola refinados que permitiam àquele Flamengo ir cozinhando qualquer adversário do mundo até que, atordoado, não pudesse reagir quando finalmente déssemos o bote.

Olhai a foto e lembrai que, por 23 anos, dois meses e oito dias, os canalhas e os recalcados negaram que esse time tenha sido tetracampeão do Brasil. Olhai e lembrai de todos os filhos da puta que, ao longo de um quarto de século, vos falavam em sports e asteriscos, ainda que fossem incapazes de lembrar o nome de um, apenas um jogador do irrelevante Sport Club Recife. Ainda que não tenham visto, porque ninguém viu, o Sport derrotar o Guarani no mais completo anonimato, longe dos olhos e dos corações dos brasileiros.

Olhai e lembrai do mais reprovável entre todos os adversários, o São Paulo Futebol Clube, ostentando por aí a fama imerecida de Penta Único, depois de Hexa Único. Lembrai do São Paulo que esqueceu que um dia foi presidido por homens em vez de canalhas, que ignorou a palavra empenhada há um quarto de século, que não hesitou em bater a carteira do parceiro que, em 1987, junto com ele arriscou tudo para dar aos grandes clubes do Brasil o que era deles por direito.

Olhai e lembrai dos biltres de todas as cores e procedências, de Muzambinho ao Recife, ignorando todas as obviedades e perpetuando a mentira risível de que um time que ninguém viu era o legítimo campeão do Brasil de 1987. Olhai e lembrai dos que negavam ao Flamengo a glória conquistada em campo, naquele 13 de dezembro chuvoso, mas que, desatentos, repetiam sem pensar que esse Andrade e esse Zinho foram os maiores campeões do Brasil, porque conquistaram o Brasileiro em cinco oportunidades (o que forçosamente inclui 1987).

Olhai e lembrai de Leão, freguês eterno, bostejando sandices sobre o Flamengo ter amarelado para os onze perebas inapeláveis que ele dirigia em 1987. Olhai e lembrai de Milton Neves, do pulha Milton Neves, alienando a maior torcida da Terra para fazer graça com duas kombis de pernambucanos. Olhai e lembrai do mau caráter Juvenal Juvêncio, agora condenado a perder o único brinquedo capaz de satisfazê-lo na velhice decrépita. Lembrai do irrelevante Homero Lacerda e de suas ameaças tresloucadas de processar a Deus e o mundo por proclamarem o óbvio, em 6 de dezembro de 2009. Lembrai dos outdoors rastejantes de pernambucanos subservientes, que em 2007 viam na glória do São Paulo o único caminho para que o Brasil se lembrasse da gloríola do Sport, em 1987.

Olhai para a foto, irmãos, lembrai de toda essa gente, e de quantos mais vos torraram os bagos em 23 anos, dois meses e oito dias. Lembrai agora que sois hexa desta porra, que aqui não há nem haverá nunca clube maior do que o nosso. Olhai de cima as legiões de recalcados, arquejantes de ódio e de inveja, enchei os pulmões e repeti comigo, para Deus e o mundo ouvirem:

VASCO, BOTAFOGO
AMÉRICA, BANGU
QUEM NÃO FOR FLAMENGO
VÁ TOMAR NO CU.

03/02/2011

RONALDO NÃO!

Depois do 2010 horroroso que tivemos, todo rubro-negro -- até os que, como eu, têm enormes prevenções à Patrícia Amorim -- anda esperançoso com este princípio de ano muito melhor que a encomenda. Mas eis que, quando tudo ameaça dar certo, algum gênio plantou a idéia de jerico na cabecinha da presidente: e se trouxéssemos também o Ronaldo gordo, aquele dos travestis? Era ou não era um grande golpe de marketing?

Isso a acreditar na fofoca que nos conta um tal Cosme Rímoli, que eu não sei que crédito merece, mas bate com rumores que há algumas semanas lemos na imprensa.

Não há muito o que dizer a respeito: Ronaldo é hoje motivo de chacota entre todos os torcedores brasileiros. Há muito que não joga nada e, não se tratasse de figurinha tão desprezível, sua forma de barril hoje despertaria a mesma pena que o Garrincha despertou no final da vida. Talvez até mais, que os desvios de conduta do Mané se limitaram ao alcoolismo. De resto, o Mané cansou de bater no Flamengo, mas, quando teve a ocasião de jogar pelo clube do coração, abraçou-a e não a deixou escapar. Não jogou nada, mas ao menos devolveu o carinho da torcida que o amava e admirava apesar de ele nos ter feito sofrer tanto, com a camisa do Botafogo.

Bem diferente desse gordo escroto, que, no momento mais vergonhoso de sua vida, quando desceu mais baixo do que qualquer jogador jamais desceu, só teve o apoio da torcida do Flamengo, contra o escárnio unânime de toda a torcida brasileira. E nos pagou como pagou, negociando em nossas costas com nosso maior inimigo, com o clube que vive com uma única obsessão (além de um dia, quem sabe, ganhar a Libertadores): a de desbancar o Flamengo do posto de Mais Querido do Brasil.

Até aqui falou o torcedor passional, o que teve orgasmos com a coletiva chorosa do gordo traíra depois de ele ser brutalmente sodomizado (e, uma vez na vida, não gostar) pelo Flamengo de Vágner Love. Falou o rubro-negro que chegou ao cúmulo de torcer pelo Fluminense no Brasileiro passado, só para negar a esse sujeitinho sem caráter o gostinho de ser campeão brasileiro. Acredito que haja alguns milhões de rubro-negros como eu, prontos a receber Ronaldo com cinco pedras em cada mão.

Mas a recomendação que faço é também como torcedor racional: Patrícia Amorim, cuidado com o marketing. Depois do 2010 horroroso, a senhora está acertando, para a agradável surpresa de muitos (eu inclusive). Não vá pôr tudo a perder por confundir as prioridades. Marketing é muito bom e bonito como meio para um fim. Ganhar R$ 900 mil de patrocínio por um único jogo é excelente se for para tornar o Flamengo mais forte e vencedor.

Nós tivemos, num passado não tão distante assim, um Presidente que começou com uma senhora jogada de marketing, ainda mais impressionante que trazer o Ronaldinho: trouxe o Romário, em plena forma, maior jogador do mundo. Gostou tanto do efeito que, por quatro anos, só fez golpes de marketing, e o Flamengo andou de vexame em vexame. Converse com o Luxemburgo. Ele estava lá. Ele viu tudo. Ele viu como um projeto promissor acabou transformando o Flamengo em chacota nacional.

Patrícia Amorim, a senhora está acertando. Não vá desviar-se desse caminho agora, contratando um ex-centroavante que não só não agrega nada, tecnicamente, como é desprezado pela torcida.

Quero crer que a fofoca do Cosme Rímoli é só isso: fofoca. Mas, se for verdade, fico aqui com a dúvida: por que dar ao desprezível Ronaldo a saída honrosa que a senhora se recusa a dar ao herói rubro-negro Petkovic?

06/05/2010

05.05.2010. PACAEMBAZO.



Eu queria estar em São Paulo. Basta essa confissão bizarra para que os senhores tenham uma idéia do meu estado de ânimo desde que, ontem, em terra estrangeira, na casa do inimigo e com tudo contra, o gigantesco, o cósmico, o imortal Clube de Regatas do Flamengo jogou o maior segundo tempo de seus 115 anos de existência e mandou todas as pretensões e todo o amor-próprio corintianos aí para onde residem os projetos megalômanos de quem nunca teve intimidade com a grandeza.

Desculpem a grandiloqüência. Nelson Rodrigues, Deus o tenha, diria que é hora de escrever mal, de ter o mau gosto de um orador de gafieira, de falar em bandeiras drapejando e o caralho a quatro. Não diria “o caralho a quatro”, acho, mas vocês entendem.

Dir-se-á que exagero e que o Flamengo do Zico terá jogado melhores segundos tempos do que este em que Bruno, Leo Moura, David, Angelim, Juan, Maldonado, Rômulo, Willians, Kléberson, Adriano e Vagner Love (e Toró, e Fierro, e cada um de nós) precisaram de escassos cinco minutos para calar a histérica torcida corintiana, e outros 40 de puro sadismo para esticar-lhe o desespero até quase o ponto de ruptura. Podíamos ter feito três, quatro, cinco. Não fizemos: não teria a mesma graça. Não teria a mesma graça matar o jogo aos 20 do segundo tempo e ver a canalha incolor voltar para casa com as insossas bandeirinhas alvinegras enroladas, para quem sabe fazer delas melhor uso, ou invadir o campo e assumir o comportamento delinqüente que nos acostumamos a esperar dela. Bom mesmo era deixá-la acalentar ilusões até o finzinho -- ilusões de ser time grande, de estar à altura da Libertadores, de estar à altura da eternidade --, e até o finzinho mostrarmos em campo, com técnica e valentia superiores, quem é o fodão deste imenso Bairro Peixoto a que chamam Brasil.

Amigos, estou divagando e me desculpo. Junto com a paixão, o entusiasmo e a alegria de ser rubro-negro, tenho também uma imensa ressaca do Jack Daniel’s que tomei para anestesiar minha garganta cansada (cansada de mandar paulista se foder). Hoje não hei de conseguir ligar duas idéias sem parecer idiota. Paciência. Só queria dizer uma coisa: não sei se percebem que o que aconteceu ontem é para sempre, é eterno. É como o Brasil x Itália de 1982, uma chaga aberta no peito que nem o tempo, nem as vitórias, nem os troféus jamais poderão apagar. Em 5 de maio de 2010, o Flamengo impediu, em pleno Pacaembu, e no ano do centenário do Curíntia, a realização do maior sonho dos cem anos de existência infeliz dessa raça. Para eles, é uma ferida pior, muito pior, do que a tarde em que Ademir da Guia e Dudu decretaram os 20 anos de fila para o alvinegrinho do Parque São Jorge.

Diante disso, nada mais tem importância. O Curíntia pode encomendar quantas pesquisas quiser demonstrando empate técnico (empate técnico de 5 milhões) entre as duas torcidas; pode ser penta, hexa, decacampeão brasileiro com os juízes comprados que lhe garantiram seus títulos passados; pode incensar como se semi-deuses fossem os perebas que lá no Parque São Jorge gozam de status de craques (essa sucessão de Biro-Biros e Vladimires e Netos que são, hoje e sempre, a cara do Curíntia); pode comprar pelos proverbiais trinta dinheiros quantos Ronaldos houver, gordos e decadentes e com gostos reprováveis.

Pode fazer tudo isso que, de hoje em diante, pelos séculos dos séculos, sempre que um corintiano vier cantar de galo para o meu lado, eu lembrarei que, na noite de 5 de maio de 2010, no ano do centenário do Curíntia, o Flamengo mandou os delírios de grandeza corintianos para a casa do caralho.

E isso, amigos, não se esquece nem se vinga jamais.

26/04/2010

RECORDAÇÕES DE OUTRO FLAMENGO x CURÍNTIA

O ano era 1991, e o abominável Sport Club Curíntia Paulista iniciava sua epopéia de não conquistar a Libertadores da América. Houve outra tentativa antes, suponho, em 1977, em razão do vice-campeonato brasileiro de 1976, mas foi a partir de 1991 que a presença do Curíntia no torneio continental se tornou mais freqüente e, por conseguinte, mais gratificante. A partir de 1991, a incolor agremiação interiorana se fodeu de preto e branco em 1995, 1996, 1999, 2000, 2003 e 2006.

E se fodeu em 1991.

Como mandava o regulamento dos bons tempos, os dois (e não mais que dois) representantes brasileiros, Flamengo e Curíntia, caíram no mesmo grupo 3, junto com os uruguaios Nacional e Bella Vista.

O detestável Curíntia vinha de ganhar o campeonato brasileiro em 1990, numa campanha em que seus principais jogadores foram o gordo escroto Neto e o juiz escalado para beneficiá-lo a cada rodada. (Em 4 de outubro de 1990, um juizinho de nome Edson garfou escandalosamente o Flamengo, em pleno Maracanã, num jogo que os do arraial venceram por 2 x 1; nas semi-finais, contra o Bahia, um tal Joaquim foi ainda mais desavergonhado, chegando a apitar lateral quando um atacante tricolor avançava livre pela ponta direita, com a bola uns dois metros para aquém da risca lateral.)

Pois Flamengo e Curíntia voltavam a duelar pela Libertadores da América de 1991. Estreamos com um empate meio chocho, 1 x 1, contra os arraialinos, numa partida disputada em Cuiabá por conta das reformas no Maracanã. Daí em diante o Flamengo empatou com o Bella Vista, em Montevidéu (2 x 2), e ganhou do ainda respeitável Nacional em pleno Centenário (1 x 0). O Curíntia conseguiu dois empatezinhos sem-vergonha contra os mesmos adversários, ambos por 1 x 1, ambos fora de casa.

A 20 de março de 1991, o Mais Querido do Brasil ia ao arraial de São Paulo de Piratininga enfrentar o mais querido da província, no Pacaembu. Do nosso lado estreava o goleiro Gilmar Rinaldi, que formava a defesa com Aílton, Adílson, o becão Rogério (hoje nosso técnico) e Piá; um meio-campo respeitabilíssimo com Charles Guerreiro, o Maestro Júnior e a dupla Marquinhos e Marcelinho; no ataque, Alcindo fazia dupla com o artilheiro Gaúcho, mas houve espaço para que jogassem, no segundo tempo, as jovens promessas Paulo Nunes e Nélio, o mais rubro-negro de todos os atletas rubro-negros.

O Curíntia vinha com a escalação habitual de Ronaldos, Marcelos, Tupãs, Netos e merdas quejandas.

O jogo nem era, em si, tão decisivo, eis que tanto Flamengo como Curíntia voltariam a enfrentar os uruguaios em casa, num torneio em que se classificavam os três primeiros. Mas a neurótica torcida corintiana estava de mau humor e pronunciava ultimatos contra o time: contra o Flamengo, não se admitia outro resultado que não a vitória. O clima no acanhado Pacaembu era tenso, de decisão.

Mas o Flamengo, onde começava a estruturar-se o time pentacampeão de 1992, não tomou conhecimento das neuroses corintianas, e soube, com muita tranqüilidade, transformar em gols (Rogério e Gaúcho) a sua flagrante superioridade sobre a overrated mulambada corintiana. Feito o segundo gol, a mediana torcida do Curíntia perdeu a paciência e fez o que se espera dela: barraco. Começaram a chover garrafas em campo, numa época em que já não se vendia bebida em garrafa em estádio, e logo vieram as ameaças de invasão. O apitador apitou o fim do jogo e deu por vencedor o Flamengo, que voltou para o Rio com os dois pontos.

(Coisa muito parecida com o que se veria, em 2006, quando o River Plate não tomou conhecimento de Tévez & cia. e soube impor-se à paulistada asquerosa em pleno Pacaembu.)

Ambos os times prosseguiram na Copa. O Flamengo bateu o inofensivo Deportivo Táchira nas oitavas (3 x 2 na Venezuela, 5 x 0 no Maraca) e depois acabou eliminado pelo Boca Juniors nas quartas (2 x 1 para nós no Maraca, 3 x 0 para eles na Bombonera, com participação especial do juiz uruguaio Ernesto Filippi). O mesmo Boca eliminara o Curíntia nas oitavas, 3 x 1 em Buenos Aires, 1 x 1 no arraial.

Na quarta-feira Flamengo e Curíntia voltam a encontrar-se, pela primeira vez, pela Libertadores. Hoje quem anda de mau humor com o time somos nós, e com alguma razão. Não pela perda do Torneio Início, sublinhe-se, mas pelo futebol pífio que o time anda apresentando (e, no caso deste cronista, pelas palhaçadas extra-campo protagonizadas por dona Patrícia Amorim, que demitiu Andrade pelas razões erradas e foi de uma burrice atroz no episódio da Taça de Bolinhas).

Apesar de tudo isso, apesar do futebol ruim e da presidenta pior, faço fé na vitória rubro-negra. Acredito que vencemos, porque o elenco precisa dar alguma satisfação à torcida, depois dos tropeços recentes. Desambientado sempre que jogou no estrangeiro, este ano, o Flamengo tem no Curíntia -- freguês doméstico e velho conhecido -- um adversário ideal para demonstrar que não esqueceu o futebol que vinha jogando, desde a arrancada ao Hexa até mais ou menos o Fla-Flu do carioquinha.

E eu cá suspeito que, no Curíntia, a tranqüilidade de quem fez a melhor campanha é apenas aparente. Não ter a Libertadores, para essa corja, é uma capitis diminutio maxima, diante das glórias já alcançadas pelo Santos, o São Paulo e o Palmeiras (e pelo Flamengo, que é tudo o que eles querem ser quando crescerem).

No Maraca lotado, cada corintiano há de se lembrar dessa sua carência. E perceberão que ganhar a Libertadores não é tarefa simples. Não é para qualquer Curíntia.

Vai pra cima deles, Mengo.

16/03/2010

O PAPELÃO DOS NOSSOS E A HISTERIA DOS RECALCADOS

Há muita viadagenzinha em torno dos dois episódios -- lamentáveis em si, diga-se de início -- envolvendo os rubro-negros Adriano e Vagner Love. Deixemos já assentado que eu não acho a menor graça em ver jogador do meu time confraternizando com bandido, que sou dos que subscrevem a tese de que bandido bom é, se não bandido morto, ao menos bandido preso, sem progressão de regime por bom comportamento e outras benesses que o constituinte canalha de 1988 consagrou, e que, no meu mundo ideal, a vida privada de jogador do Flamengo só seria objeto do noticiário para sabermos exatamente que vagabunda famosa ele anda furando. É deselegante, mas tem o efeito educativo de distinguir bem, aos olhos do público, o atleta do Flamengo de atletas do São Paulo e do Curíntia, mais chegados a ser furados (ou, com muito boa vontade, a furar o que não merece ser furado, no segundo caso).

Deixemos tudo isso assentado para que se não me acuse de estar defendendo o que não defendo. Como cidadão privado, torcedor do Clube de Regatas do Flamengo que sinceramente quer bem aos srs. Adriano Leite Ribeiro e Vagner Silva de Souza, fico triste e envergonhado pelo papelão que nos proporcionaram. E entendo e subscrevo as preocupações dos que acham que esse comportamento pode prejudicar o futebol do Flamengo -- pelo risco de rachar o elenco ou de os excessos comprometerem a boa forma física e mental de nossos atletas.

Dito tudo isso, permito-me voltar ao meu ponto inicial: há muita viadagenzinha em torno dos episódios envolvendo Adriano e Vagner Love. Não por parte de nossa torcida, que, como demonstrei, tem legitimidade para preocupar-se com os efeitos desse comportamento; nem por parte dos que, rubro-negros ou não, assumem o comportamento legítimo de lamentar que figuras públicas, admiradas por crianças e jovens, dêem o mau exemplo que estão dando.

Ultrapassados esses limites, no entanto, tudo o mais que se disse sobre esses dois casos foram manifestações mais ou menos explícitas de ódio e recalque pelo que o Flamengo e o Rio de Janeiro representam. Alguns foram muito mais inábeis (e muito mais engraçados) do que outros. É ler, por exemplo, o desabafo histérico do sr. Marco Aurélio d’Eça (que eu, até então, jamais vira mais gordo), intitulado O Flamengo parece um antro de marginais. Como expliquei, não conheço e nem pretendo conhecer o palpiteiro do site Imirante.com (patrocinado -- uma visita rápida à homepage o revela -- pelo governo da srª. Roseana Sarney), mas os que comentam a coluna dão conta de que se trata de vascaíno militante, como tal com a cabeça inchada desde domingo (ou desde Petkovic em 2001, ou desde Rodrigo Mendes em 1999, ou desde Rondinelli em 1978, de Valido em 1944, desde a inauguração da freguesia em 1923).

Trata-se, como se vê, de um pobre coitado, cujas sandices podem e devem ser relevadas por virem de quem vêm (um palpiteiro de um site absolutamente periférico, e ainda por cima vascaíno) e por estarem tão patentemente inspiradas pelo ódio e pelo recalque. É ler essa bobajada (e.g., “Adriano é um cachaceiro marginal e descontrolado”) e morrer de rir, pelo quanto o Flamengo continua incomodando um ex-rival diminuto a quem nós há muito não damos a menor pelota.

Noutra categoria se enquadra, no entanto, o sr. Reinaldo Azevedo. É inegável que se trata (façamos-lhe essa concessão) de formador de opinião, e de cujas opiniões, no mais das vezes, eu não discordo. Mas é paulista, e diria mais: trata-se do paulista quintessencial, o arquétipo do paulista, quase um Idealtypus -- um sujeito tão babaca que, no ano da Graça de 2010, ainda usa chapéu. Um sujeito tão acostumado a uma visão paulistocêntrica do mundo que é incapaz de enxergar as razões do ressentimento que o país nutre pelo arraial de São Paulo de Piratininga. Não é que discorde delas: ele simplesmente não as enxerga, e quando confrontado com elas sai-se com bobagens do gênero “a participação de São Paulo no PIB caiu na última década” (ignorando o fenômeno do boom das commodities, que aumentou a participação no PIB de estados como Goiás e Mato Grosso, de modo inteiramente alheio à vontade dos sucessivos governos chefiados por paulistas). Um sujeito que se pretende comentarista de política nacional, mas se permitiu ignorar quase por completo o grande assunto político, não diria da semana, mas do semestre, que é o roubo que o Deputado cassado Ibsen Pinheiro pretende perpetrar contra o Rio de Janeiro (Azevedo tratou do tema numa única coluna protocolar, que versava muito mais sobre o choro do Governador Sérgio Cabral do que sobre o assalto a unidade da Federação).

Não sei que preferências futebolísticas tem o sr. Reinaldo Azevedo, mas fico cá com a impressão de que se trata dessas figuras que não sabem quem é a bola, para usar uma imagem de Nelson Rodrigues. E, por se tratar do paulista quintessencial, o desprezo que mostra pelo Flamengo há de ser o desprezo que deve ter pelo Rio de Janeiro, que teima em constituir obstáculo à plena babaquização do Brasil sob a regência ilustrada de São Paulo. E o Flamengo é o Rio de Janeiro por metonímia.

Vejam a enormidade do que diz o sr. Azevedo: ele contesta a afirmação do Dr. Michel Asseff Filho segundo a qual Vagner Love é homem barbado e, portanto, livre para freqüentar o ambiente que bem entender, inclusive a Rocinha; contesta a opinião do advogado de que o Flamengo nada tem com as escolhas pessoais do atleta e opina que o jogador “desfilar em companhia de bandidos [...] é, sim, um problema [...] do Flamengo”.

Não sei que mecanismos lógicos o sr. Azevedo utilizou para chegar a essa conclusão, e a verdade é que já fiz suposições demais sobre o que o motiva neste caso. Fato é que ele não explica, além da platitude habitual segundo a qual é problema do Flamengo porque “o artilheiro do time mais popular do Brasil carrega a força da representação e do exemplo”. Não sei se acha que é problema do Flamengo porque acha que o Flamengo é time de bandido. Há 115 anos carregamos esse destino de ser o time mais popular em todas as camadas da população, dos santos aos bandidos. Mas Reinaldo Azevedo dixit, é problema do Flamengo, sim, e estamos conversados.

Sendo problema nosso, pergunto-me exatamente que medidas o sr. Reinaldo Azevedo pretende que tomemos. Que apliquemos uma multa ao Vagner Love por não cumprir a contento o papel de role model que esperamos dele, apesar de essa obrigação não estar prevista em contrato? Melhor: que rescindamos o contrato por isso? Que juiz trabalhista deste país o sr. Reinaldo Azevedo imagina que nos daria ganho de causa numa ou noutra hipótese, no inevitável processo que se seguiria?

Isso no que diz respeito ao Flamengo. Quanto ao Vagner Love, como bem observou o Dr. Asseff, trata-se de homem barbado capaz de fazer suas próprias escolhas. Ainda não nasceu, acho eu, o delegado ou promotor capaz de indiciá-lo ou processá-lo por gostar da companhia de bandidos armados. Que me conste, a conduta do Vagner Love não se enquadra em tipo penal algum, por mais desgosto que nos cause (e me causa particular desgosto, reitero). O sr. Marco Aurélio D’Eça há de discordar. Do alto de sua sabedoria jurídica, ele a qualifica ligeiramente como “associação para o tráfico”, ignorando que o tipo penal enquadra apenas e tão-somente a conduta nele descrita: “associarem-se duas ou mais pessoas para o fim de praticar, reiteradamente ou não, qualquer dos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1º, e 34” da Lei nº 11.343 de 2006 (o que, naturalmente, não abrange o ato de andar em companhia de, ou interagir amistosamente com bandidos armados). Mas quem é que dá a menor pelota para o que pensa o sr. Marco Aurélio D’Eça?

Com o sr. Reinaldo Azevedo o negócio é diferente. Justa ou injustamente, dão-se-lhe ouvidos, e, se não me importo com o que ele pensa ou deixa de pensar do Adriano e do Vagner Love, naturalmente não acho a menor graça em vê-lo criticar o Clube de Regatas do Flamengo por algo de que o clube não tem culpa no cartório. Ainda mais por ser paulista. Ainda mais por ser o paulista quintessencial.

Nada disto há de ser interpretado como contemporização minha com o comportamento, que acho reprovável, do Adriano como do Vagner Love. Mas os que bradam histericamente, como parece fazer o sr. Reinaldo Azevedo, por alguma medida drástica do clube contra seus atletas parecem ignorar que jogador de futebol, no Brasil, costuma vir de ambientes os mais difíceis. Que o fato de ganharem fortunas não necessariamente há de alterar, em essência, quem são, de onde vêm e com quem preferem interagir. E que quem pretender administrar futebol, no Brasil, ignorando essas verdades fundamentais estará flertando com o fracasso e a irrelevância. Dois pecados que não estão no DNA do Flamengo.

15/03/2010

TINHORÃO EDUCATIVO

Esta tarde, enquanto ouvia o Flamengo bater mais uma vez o Vasquinho, eu me perguntava, entre um bocejo e outro, se ainda posso ser relevante. A pergunta, se revela uma modéstia inesperada neste cronista, ao menos tem lá sua razão de ser. Estou, afinal de contas, afastado do Brasil há vários anos, com acesso irregular às cousas do Mais Querido, e neste tempo todo surgiu gente de muito talento para defender as nossas cores nestas trincheiras da Internet.

Mais: meus últimos escritos não trataram propriamente de futebol. Representaram, antes, minha pequena contribuição no que eu julgava ser a batalha mais meritória em que um rubro-negro podia engajar-se, àquela altura: expor às mazelas da administração Kléber Leite e, com isso, fazer a minha parte para ajudar a extirpar da Gávea o maior câncer a acometer o Flamengo, em 115 anos de história.

O fato de, poucos meses depois de chutarmos de lá esse pulha, termos alcançado o mais improvável de nossos títulos prova que alguma razão me assistia. Se minha pequena contribuição ajudou ou não são outros quinhentos. Eu até acho que, pela importância do veículo onde eu escrevia, pelo grande público que atinge, algum bem terá feito. Eram argumentos sólidos que, nas mãos certas, podem ter contribuído para pôr as coisas em perspectiva.

Mas passou-se um ano desde então, o sr. Kléber Leite foi escorraçado para, Deus esteja, nunca mais voltar, o Flamengo é hoje hexacampeão do Brasil e parece ter tomado gosto de se medir com os inimigos que nos convém cultivar: a paulistada ignóbil, a freguesia recalcada de outras comarcas caipiras e, agora sim, os rivais latino-americanos, contra quem ainda temos muitas contas para acertar. Essa retomada da missão histórica do Flamengo parece ser comprovada, com sobras, com o choro do vascaíno que destaco para vosso deleite (ver o comentário n° 5).

Pois muito bem: em um ano as coisas mudaram para muito melhor, e há rubro-negros dos melhores, na Internet, esfregando a nossa grandeza irritante nos cornos da freguesia. Diante disso, tem alguma valia eu continuar a dar meus pitacos?

Pois eu suspeito que tem, pelo seguinte: eu tive a glória de estar no Maracanã na tarde de 6 de dezembro de 2009, e o que eu lá vi me emocionou em mais de um sentido. Não só pelo título que aguardávamos há dezessete anos, mas por tropeçar, a cada passo que dava, em pencas de rubro-negros que tinham menos de dezessete anos. Gente para quem um Júnior pulando feito criança, depois de decretar o Penta, há de ser uma referência quase tão distante quanto é, para mim, a de um Valido febril decretando um tri em cima das costas de um Argemiro.

Fato é que, naquela tarde memorável no Maracanã, eu de repente me senti velho. Nos meses que se seguiram, acompanhei, à distância, os debates que se instalaram sobre o nosso Hexa, e me dei conta de como grande parte dos inimigos também é composta de moleques. Moleques que cresceram sob a influência perniciosa da mídia paulista, que repetem as babaquices que aprenderam com um Milton Neves, um Neto, um Godoy, e que não têm a mais remota idéia de como eram as coisas antes desse hiato de dezessete anos.

E me dei conta de que, se alguma função meus escritos ainda podem ter, há de ser uma função educativa. Educativa para os nossos, que cresceram achando normal aspirar a, no máximo, um carioquinha em cima de Botafogo ou Vasco, e educativa para os outros, que repetem impunemente as bobagens que ouvem dos caipiras ascendidos a formadores de opinião.

Se o Flamengo de fato voltou às grandes ligas, nossa torcida precisa ajustar suas expectativas a essa realidade, abandonar os maus hábitos adquiridos em dezessete anos e ter sempre em vista o tamanho que o Flamengo pode ter. Graças a Deus não estou sozinho nessa empreitada. A bendita faixa que sentenciava que “o Brasileiro é obrigação” bem demonstra que quem viu o Flamengo grande não está disposto a deixar a molecada esquecer.

De modo que estou muito bem acompanhado nesta função de educador. E, se algo de novo eu posso trazer, há de ser uma intransigência incomum ao lidar com quem, hoje, é o nosso maior inimigo: a paulistada recalcada (tricoloucas sobretudo), que passou dezessete anos tripudiando do Flamengo mas, com um título apenas do Mais Querido, volta a encarar-nos com pânico.

Sinal de que toda a auto-estima que construíram, em dezessete anos, não é capaz de resistir ao menor triunfo rubro-negro.

13/11/2009

O BOM FILHO A CASA TORNA

Eu sei, todos nós temos preocupações mais nobres com que nos ocupar, e nos dias que correm o Brasil inteiro acompanha, fascinado, a epopéia rubro-negra lá no alto da tabela. Mas os amigos hão de perdoar esta minha frescura de não falar no assunto, para não atrapalhar a sorte, e dirigir minha atenção por um momento ao fundo da tabela.

Amigos, parece que agora é oficial: o pavoroso tricolor pernambucano (preto, vermelho, amarelo, combinação de inexcedível mau gosto), o lamentável Sport Club do Recife acaba de conquistar um lugarzinho em seu habitat natural, em 2010: a segunda divisão. Antes que me acusem de diminuir indevidamente o antipático Ixpó, só me permitam assinalar que são eles mesmos que o confessam, ao bordar duas estrelinhas douradas e uma prateada em cima de seu escudo: a prateada para a Copa do Brasil de 2008, as outras duas para 1987 e 1990.

Digam o que quiserem de 1987, a mim me parece que festejar essa conquista com uma estrela igualzinha à que recorda a segunda divisão de 1990 é gesto dos mais eloqüentes: denuncia que, no fundo, eles lá sabem a real importância do “título” de que ainda hoje se pavoneia o irrelevante Homero Lacerda. A confissão de parte, relevo de prova.

Pois muito bem. Caiu o Sport, e em vez de fazer passeatinhas histéricas a sua minúscula torcida devia era regozijar-se pela chance de bordar outra estrelinha na camisa, que são as únicas a seu alcance: as da segunda divisão. (Essas e as da Copa do Brasil, um torneio tão irrelevante que andou sendo vencido por agremiações do quilate do Criciúma, Juventude, Paulista de Jundiaí e Santo André. E do Sport, claro.)

Dirão os senhores que estou sendo muito duro com quem nunca pôde aspirar seriamente rivalizar com o Flamengo, e que só existe no mapa como nota de rodapé a recordar a esculhambação que era a CBF de Nabi Abi Chedid e Otávio Pinto Guimarães. É possível, e eu mesmo admito que a melhor receita para lidar com essa gente exótica é a que o meu amigo Arthur Muhlenberg batizou de o maluco do ônibus: o torcedor do Sport é como o bêbado ou o doido que se senta ao nosso lado no ônibus, e em seguida começa a pronunciar incongruências sobre o clima, o crime, la vie, l’amour et la mort. É fingir que não é com a gente e vamos embora.

Mas eu sou um escroto, e teimo em achar que quem, com onze perebas inapeláveis, pretende usurpar a glória de Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho, Leonardo, Andrade, Aílton, ZICO, Renato, Bebeto e Zinho (dez jogadores de seleção, contra nenhum deles) -- quem tem essa pachorra precisa que lhe esfreguem na cara, vez por outra, a sua própria insignificância. E que ocasião melhor que esta?

Além dos motivos propriamente futebolísticos, há os outros, cívicos. Sem jamais ter alcançado um único feito de que o Nordeste possa orgulhar-se, essa malta resolve tratar-nos de “vergonha do Nordeste”. Em seu provincianismo míope, não lhes ocorre que um pernambucano, cearense ou potiguar possa sentir-se acima de tudo brasileiro, e expressar sua brasilidade na mais nacional de todas as instituições, que é o Clube de Regatas do Flamengo. Flamengo onde o Nordeste sempre encontrou motivos para orgulhar-se de si mesmo e de suas contribuições à grandeza pátria, na figura de um Júnior (paraibano), um Dida ou um Zagallo (alagoanos), um Nunes, Aldair, Toninho, Bebeto ou Obina (baianos), um Ronaldo Angelim (cearense), um Dequinha (potiguar), um Iranildo ou Almir (pernambucanos).

Desafio o Sport escalar seleção nordestina semelhante!

Fato é que, descontada a ignorância sobre os méritos alheios, só pode considerar os demais como “vergonha do Nordeste” quem se arroga condições de orgulhar a toda a região. Está longe de ser o caso do pavoroso Sport Club do Recife, que só pôde pretender comparar-se aos grandes quando quis levar na mão grande um título que tem dono, e é do Flamengo. Dirão os paranóicos e os ressentidos que há muito de preconceito nessa indiferença unânime de todo o Brasil à gloríola do Sport em 1987. Essa gente existe às pencas na Ilha do Retiro, e atinge orgasmos cívicos ao som de “Nordeste Independente”. Fosse verdade, no entanto, e o Brasil inteiro não se lembraria com carinho da epopéia do Bahia em 1988, o Bahia de Bobô, Charles e Zé Carlos, o primeiro clube nordestino a sagrar-se campeão brasileiro, passando pelo Fluminense e pelo Internacional. E pelo Sport.

Mas hoje nem é preciso lembrar 1987 para negar ao Sport qualquer pretensão de orgulhar a Pernambuco ou ao Nordeste. Basta lembrar que, nos delírios de grandeza dessa choldra, 2009 era o ano de ouro, o annus mirabilis do Sport. O ano em que, vestido de camisa dourada, o valoroso Leão do Norte avançaria, irresistível, pela Libertadores e plantaria a bandeira pernambucana no centro do gramado de Tóquio (ou dos Emirados Árabes, onde seja).

Calhou que, se algum simbolismo tinha a camisa dourada, era apenas a lembrança do Módulo Amarelo, da segunda divisão, onde o Sport se sente em casa e aonde agora regressa, bom filho que é. Para, quem sabe, bordar mais uma estrelinha amarela no peito, em dezembro de 2010.

17/06/2009

GUERRA À MEDIOCRIDADE

Pode-se extrair algo de positivo da recente seqüência de catástrofes (que ninguém sabe dizer se já acabou)? De positivo, nada, que ninguém aqui há de ficar contente quando o Flamengo nos envergonha. Nem mesmo os que, como eu ou o Lucas Dantas, tivemos de arcar com as acusações mais injustas -- de “corneteiros” a “antiflamengos” -- por assinalar as carências evidentes desse Flamengo. De mais a mais, não há figura mais irritante, nas derrotas, do que o pessimista que desanda a falar “eu-te-disse”.

Mas, se prazer não nos dá, ao menos permite desacreditar alguns mitos que há anos a gente vê repetidos por aí, às vezes por rubro-negros da melhor cepa (outras, nem tanto). O principal deles é a conversa mole de que, aconteça o que acontecer, estamos “melhor que em 2005” -- a data mágica em que o sr. Kléber Leite ressurgiu do ostracismo para, segundo a versão, salvar o Flamengo do rebaixamento, montar times competitivos e fazer-nos aspirar a coisa melhorzinha do que escapar da segundona.

Para quem tinha olhos de ver, a falsidade desse argumento já devia ser evidente ao final da temporada passada. Não só pela maneira vergonhosa como ficamos de fora das brigas pelo título e pela Libertadores -- indícios de que o time tinha estacionado num patamar indigno do Flamengo --, mas sobretudo pela declaração inacreditável, para quem não compactua com a mediocridade, de que a “prioridade” para 2009 era o campeonatinho carioca. Discrepâncias à parte sobre o valor do carioquinha, elegê-lo como prioridade não é comportamento de quem aspira à grandeza.

Fato é que, com apenas seis jogos disputados, eu conheço rubro-negro que já anda fazendo conta de quanto falta para escaparmos do rebaixamento (para quem quiser manter o cômputo, faltam 38 pontos em 32 jogos). Queira Deus que essa precaução não seja necessária e que, ao final do primeiro turno, estejamos aí mais ou menos onde estamos, graças ao Patético Paranaense e ao todo-poderoso Santo André. Mas mesmo esse cenário desacredita a tese furada de que o sr. Kléber Leite fez deste um Flamengo protagonista.

Outro mito que cai é o do valor do nosso elenco. Esqueçamos os que argumentam, com a cara mais lavada deste mundo, que até o jogo contra o Sport tudo vinha bem, porque “jogamos melhor” que o Internacional e o Cruzeiro (quando a única definição válida de “melhor”, em futebol, é fazer mais gols que o adversário). Concentremo-nos nos não-piadistas que viam esse time bater (aliás, empatar) no Botafoguinho e viam aí material humano bastante para bater no São Paulo ou no Inter. Quantos destes já começaram a rever seus conceitos? Mais importante: quantos destes já põem em questão a sabedoria da decisão (de quem? de quem?) de “manter a base” que tanto desgosto nos deu, em 2008, assim como se falasse dos juniores de 1990?

Senhores, estive lendo os comentários aos últimos posts. Mais do que a insistência de alguns em ainda defender o sr. Kléber Leite, chama a atenção a freqüência com que os esclarecidos se rendem à resignação: sim, o Flamengo de hoje é uma zona, e o principal culpado é o Kléber Leite, mas de que me adianta ter certeza disso se, no fim do ano, uma centena de sócios vai reconduzi-lo ao mando ou eleger coisa igualmente ruim?

Eu queria poder oferecer uma palavra de alento a esses torcedores, mas hesito. Tenho a mesma confiança que eles na sabedoria de um sócio do Flamengo diante de uma urna. Ainda assim, não posso deixar de ter uma pontinha de esperança ao ver um rubro-negro dos melhores como o meu querido Arthur Muhlenberg subscrever, no espaço exíguo de uma semana, duas das teses que eu vinha defendendo aqui, de maneira inglória: (1) que, com Bruno, Leo Moura e Juan (eu ainda acrescentei o Ibson), este Flamengo tem uma espinha dorsal de perdedores, de atletas falhos de caráter, e é preciso escorraçá-los da Gávea o quanto antes; e (2) que, mais que derrubar treinador, é chegada a hora de botar na rua quem escolhe treinador e compra e vende jogador (o Arthur, muito mais elegante que eu, prefere não dar nome aos bois, mas eu aponto à execração pública os srs. Kléber Leite e Plínio Serpa Pinto).

Assim como o Arthur, vejo muita gente boa, aqui mesmo neste espaço, gente que antes discordava de mim (às vezes enfaticamente), hoje defender as mesmas coisas que eu venho defendendo há pelo menos um ano.

Se essa consciência crescente é capaz de influenciar o torcedor que vota, eu não sei. Eu às vezes desconfio de que o sócio do Flamengo é impérvio à argumentação racional. Mas talvez, antes de perdermos de vez a esperança e deixarmos o Flamengo apequenar-se dia a dia nas mãos de Kléber Leites e quetais, talvez valha a pena um último esforço. É preciso ser implacável ao assinalar a culpa central do sr. Kléber Leite no apequenamento do Flamengo, de 1995 para cá. Recordar aos indecisos, sempre que possível, a seqüência de vexames que começou lá com o pior ataque do mundo e não terminou nunca mais. Desmontar cada um dos mitos em que essa gente se escora -- “melhor que 2005”, “melhor que o Edmundo”, “melhor que Barros e Biscotto” -- e assegurar que o Flamengo pode ter um futuro melhorzinho do que isso. E, sobretudo, nunca, jamais compactuar com a mediocridade.

Hoje, muito mais gente está convencida disso do que ontem. Se conseguirmos a adesão de alguma organizada, tanto melhor, mas não alimentemos ilusões. Se cada um fizer a sua parte, se for intransigente e explícito em seu ódio, só a força das nossas convicções há de ser irresistível até mesmo para o mais alienado dos sócios-eleitores.

Fora, Kléber Leite!

05/05/2009

TRAGAM DE VOLTA A FAIXA

Os Virgílios e Homeros do carioquinha hão de me dar licença para falar do tema fastidioso dos oito meses que nos restam de temporada. Muito bem, ganhamos o pentatri e até eu, descrente que sou do valor desses certames municipais, me emociono com a nossa torcida se emocionando. Celebro a nossa torcida celebrando, e não há reação mais rubro-negra que esta.

Passado, no entanto, o deslumbramento com a nossa festa, sou tomado pelo impulso sádico de ir aos blogs botafoguenses para vê-los espernear. E constato, mortificado, aquilo que eu já sabia: bater nessa gente é covardia, tripudiar deles depois deve ser até pecado, e me desculpem se eu não me sinto bem vendo o Flamengo comportar-se como o peso-pesado que se compraz em trocar sopapos com pesos-pluma. Mengão has been boxing way below its weight, se me permitem.

Polêmicas à parte sobre o valor atual do carioquinha, o que não devia ser objeto de debate é que, valioso ou não, o estadual é menos que suficiente para as aspirações e tradições de um time do tamanho do Flamengo. Digo isso porque, infelizmente, os sinais que recebemos da Gávea, passados dois dias da conquista, são no mínimo equívocos.

Muito bem, o Cuca pôs a putada para treinar já na segunda-feira, e, ainda que tenha sido só um recreativo, não poderia haver sinal melhor do que este de que o time do Cuca não quer repetir a experiência amarga do time do Joel, na quarta-feira seguinte ao título.

Ou poderia? No dia seguinte, eis que o goleiro Bruno vem a público dizer que aprendeu a valorizar o carioquinha, “ainda mais um tri”. O grave, no caso, não é o que ele disse, mas o contraste com sua declaração anterior de que “acho que o estadual é muito pouco [...] pelo que a gente faz e pelo que é cobrado durante o ano: quero algo mais”. Difícil evitar a impressão de que o porta-voz e agora líder do time está conformado com o carioquinha, e espera que a torcida esteja igualmente conformada. A impressão sai fortalecida pelo fato de ele estar pagando agora todas as promessas acumuladas ao longo dos vexames de 2008, a ser honradas quando ganhássemos “um título importante”.

Além do Bruno, também o nefasto Kléber Leite teria vindo a público (não achei a fonte) afirmar que “a prioridade, agora, é o tetra”, assim como afirmara em dezembro que “a prioridade, agora, é o tri”. Como assim, sr. Vice-Presidente? E esse intervalo de oito, nove meses entre hoje e o começo do carioquinha 2010?

Vindo de quem tem a chave do cofre, a declaração é muito mais grave do que a de quem só aspira a, de vez em quando, fechar o gol. Porque deixa a suspeita de que, se planejamento há na Gávea (uma hipótese, admito, generosa), todos os outros objetivos ficam subordinados à prioridade maior de ser tetracampeão estadual, contra botafogos e fluminenses. Admitido isso, está justificado desfigurarem o time na primeira janela de transferências, igualzinho em 2008, para montarem um novo time para frutificar dali a seis meses -- com resultados iguaizinhos aos de 2008.

Aos que enxergam em tri ou tetracarioquinhas o supra-sumo da glória, me desculpem, mas esse não é o Flamengo que eu cresci reverenciando. E se há mais gente em nossa torcida que pensa como eu (e eu suspeito que haja muita), fica aqui o apelo a quem de direito: tirem do armário, imediatamente, aquela faixa do “Brasileiro é obrigação”.

A faixa, é verdade, foi confeccionada num momento de supremo emputecimento com o time, logo depois de um estadual desses que hoje neguinho trata como a consagração definitiva. Mas ressuscitá-la hoje não tem por que ser interpretado como um ato hostil aos jogadores que, até aqui, no que vai de 2009, estão com crédito. É ato meramente preventivo, só um lembrete ao Bruno e aos seus futuros comandados de que, gratidão à parte pelo pentatri, nós esperamos mais deles.

Se possível, ressuscitem a faixa já para o jogo de amanhã, contra o Fortaleza. Eu cá suspeito que o que nós virmos em campo, no Ceará, há de ser um aperitivo do que o time nos reserva no que resta de 2009. E resta uma eternidade.