24 de mar de 2003

JUÍZES SEM APITO

Mais uma vez, os amigos hão de me perdoar se insisto no assunto penoso da arbitragem. É que, mais uma vez, as patuscadas da arbitragem (desta feita de responsabilidade do Sr. Samir Yarak) ofuscaram os acontecimentos puramente futebolísticos -- numa decisão! Ofuscaram até gol que começou com cruzamento de letra.

Pode ser dolorida, mas é instrutiva a comparação com a final paulista. Lá, como aqui, juiz também erra, ora, pois. No primeiro jogo da final, validou-se um gol do Curintcha em impedimento. A diferença está em que, lá, erros da arbitragem são encarados como decorrências naturais da humana condição dos homens de preto. No Rio, parte-se do pressuposto -- compreensível e provavelmente correto -- de que o homem de preto está de sacanagem. E, a cada gol mal anulado ou mal referendado, o que se vê é esse espetáculo deprimente de jogadores dando cabeçadas em juízes e falando com eles como não se deveria falar nem com filho adolescente.

O diabo é que as circunstâncias me impedem de censurar um Alex Oliveira que peita um bandeirinha ou um Athirson que passa noventa minutos com o dedo na cara do Sr. Carlos Jorge Moreira. Os jogadores, remunerados para ganhar com a bola nos pés, cansaram-se de ver seus esforços sistematicamente frustrados por juízes escolhidos a dedo pelo Sr. Eduardo Viana. Resultado: hoje já não é mais tão simples um juiz arranjar um resultado. Carlos Jorge Moreira conseguiu na final da Taça Guanabara, mas teve sua arbitragem inviabilizada pelos rubro-negros emputecidos na semifinal. Pode até ser escalado e entrar em campo, mas não apita mais jogo do Flamengo -- entendendo-se "apitar" por decidir e fazer respeitar suas decisões durante os noventa minutos.

Não sei se Samir Yarak entrou em campo com más intenções, ontem, se anulou de sacanagem o primeiro gol tricolor, mas o fato é que, a partir daquele lance, não teria mais autoridade para decidir a seu alvitre. Tanto foi questionado, tanto foi pressionado, tanto foi ofendido pelos tricolores, que passou a temer qualquer decisão que prejudicasse o Fluminense. Com esse estado de espítito, inverteu a mais bisonha das faltas, na defesa tricolor, e indispôs-se definitivamente com os vascaínos, a quem havia beneficiado no começo do jogo.

Não sei se é irremediável a cegueira que impede os cariocas de ver o que está acontecendo. Mesmo sem a torcida do Flamengo, o Maracanã estava lindo, ontem, com as duas torcidas cantando. Mas o resto do Brasil, senhores, está acompanhando com muito mais atenção um reles Curintcha x São Paulo. Corremos o risco palpável de ver as novas gerações viverem sob a influência dessa gente que pendura nas arquibancadas faixas de Tucuruvi ou que vem ao estádio em caravanas de Pindamonhangaba e Itaquaquecetuba. Dessa gente que pula ao ritmo de uma escola de samba que, no Rio, seria rebaixada do Grupo de Acesso.

São Paulo terá seu Farah, terá seus erros, terá dirigentes que multem em R$ 50 mil um jogador por exercer o sacrossanto direito à liberdade de expressão, direito que assiste até a um Vampeta. Mas, por aquelas bandas, não se constroem resultados com a mesma sem-cerimônia que no Rio.

E, por compreensível que seja o jogador cansar-se e emputecer-se, o torcedor não gosta de barraco. Prefere assistir a um reles Curintcha x São Paulo, com as faixas de Tucuruvi e Pindamonhangaba, a um Fluminense x Vasco com todo o charme de um domingo à tarde num Maracanã lindíssimo.

Tivessem um mínimo de visão, os cariocas teriam acordado para fatos tão graves. Mas o que se vê é o vascaíno bater palmas para um sacripanta, um dos maiores responsáveis por esse estado de coisas, arrotando méritos próprios ao conquistar um campeonato cujo charme ajudou a destruir.

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