15 de dez de 2008

DESCONSTRUINDO KLÉBER

Os poucos leitores que me restaram terão percebido que ando repetitivo. É verdade, e sou o primeiro a admitir. Desde aquele trágico 7 de maio de 2008 que ando cá com duas idéias fixas: que o Flamengo não voltará a ganhar nada importante enquanto tiver à frente o sr. Kléber Leite, o maior perdedor a administrar o clube em 113 anos de história; e que este time específico do Flamengo só fez agravar essa tendência porque era composto, em sua maioria, de atletas falhos de caráter, gente dada a tremer ou a perder o foco na hora das decisões.

Sobre o segundo tema, creio ter dito tudo o que eu tinha a dizer no meu comentário de 13 de outubro. Sobre o primeiro, para desalento de quem não me agüenta mais aqui, devo ter material para muitas colunas mais. Paciência.

Com o Brasileiro terminado, era de se esperar que o Flamengo não fosse mais motivo de chacota até pelo menos o começo do estadual. A incompetência e a fanfarronice do sr. Kléber Leite, no entanto, permitiram que fôssemos humilhados publicamente por um clube de segunda e por um ser humano de quinta. Mais adiante, na tentativa de criar-se um factóide que aplacasse a fúria da torcida, nossa sapiente diretoria acabou expondo ainda mais o atual desprestígio do Flamengo, esnobado agora pelo Parreira.

Essa patacoada convenceu-me de que todo rubro-negro esclarecido tem a obrigação de, sempre que puder, botar seu grãozinho de areia para enfraquecer o nosso atual Vice-Presidente de Futebol. Pode ser tarefa inglória, porque essa gente acha que, no final das contas, só deve satisfação à meia dúzia de sócios que os elegeu. Mas eu quero crer que a pressão das ruas e das arquibancadas, se perdurar no tempo, pode jogar o sr. Kléber Leite no mesmo ostracismo a que o condenaram os resultados de sua pífia gestão, em 1998.

Minha modesta contribuição de hoje é uma tentativa de desacreditar o argumento do ruim com ele, pior sem ele.

Em reação a minhas colunas anteriores, alguns leitores sustentaram que a eventual queda do sr. Kléber Leite traria de volta, imediatamente, o mesmo escrete de pesadelos que andou causando estragos na Gávea, em passado recente: um Anderson Barros, um Gérson Biscotto, um Walter Oaquim. Ou isso ou os usual suspects derrotados a cada eleição, uma lista cuja simples enumeração deveria ser suficiente para convencer-nos todos a deixar as coisas como estão na Gávea.

Isso tudo me parece, francamente, terrorismo psicológico do mais baixo. É claro que a perspectiva de ver o Flamengo entregue a essas alternativas me é tão desagradável quanto a qualquer outro rubro-negro em plena posse de suas faculdades mentais. Mas, se de algo nos servem as lições da História, fato é que, recentemente, quando defrontado com um vazio de poder -- após a cassação do sr. Edmundo dos Santos Silva --, o clube encontrou sabedoria suficiente para entregar seus destinos a um Hélio Ferraz. Não é santo de minha devoção, mas, diante das enormes vulnerabilidades do Flamengo de então, fez uma gestão muito melhor do que a encomenda.

Mas esse argumento não ataca a falha fundamental do ruim com ele, pior sem ele. Essa falha é a suposição de que o sr. Kléber Leite é tão patentemente melhor que essa gente que não é preciso nem começar a discutir.

A quem acredita nisso, desculpe lá: eu discuto.

Nos poucos círculos onde me era dado opinar sobre assuntos rubro-negros, eu mesmo cansei de bater nos tais Barros e Biscotto enquanto afundavam o Flamengo, no anterior mandato do sr. Márcio Braga. Achava-os e acho-os duas nulidades que só fizeram diminuir ainda mais o nosso prestígio minguante, enquanto o sr. Márcio Braga se dedicava a outras coisas. Também é fato que, depois deles, o Flamengo, que até então se limitava a brigar para não cair, passou a aspirar a coisas melhorzinhas.

O erro está em creditar essa perspectiva de algo melhorzinho -- se não ganhar o Brasileiro, ao menos classificar-se para a Libertadores -- à gestão do sr. Kléber Leite.

Kléber Leite assumiu o futebol do clube quando Márcio Braga estava em vias de implementar o grande projeto de sua administração: a Timemania. Para quem não entendeu o óbvio, o caça-níqueis tem pouquíssimo a ver com a possibilidade de gerar receita nova ao clube, e muito a ver com a nossa briga para derrubar as limitações legais e judiciais a continuarmos recebendo o que nos é devido, por força do contrato de patrocínio com a Petrobras.

Isso a Timemania resolveu e, uma vez assinado o acordo de adesão à loteria, e uma vez obtidas as correspondentes certidões negativas, o Flamengo pôde voltar a receber o dinheirinho da Petrobras, uma de nossas principais fontes de receitas. O resultado, que o torcedor desavisado não vê, é que coube ao sr. Kléber Leite administrar o futebol rubro-negro num aperto financeiro muito menor do que as alternativas tétricas de Barros e Biscotto.

Isto não torna o sr. Kléber Leite automaticamente pior do que os dois patetas que entregaram o futebol rubro-negro ao sr. Eduardo Uram, em 2004 e 2005. Mas quero crer que nos permite ao menos questionar o argumento de que é inquestionavelmente melhor. Se obteve resultados menos ruinzinhos, foi com recursos muito mais abundantes do que seus antecessores.

***

Enquanto o amigo leitor toma o tempo de concluir se concorda comigo ou não, aproveito a oportunidade para lançar as seguintes perguntas:

(1) O sr. Eduardo Uram continua exercendo, no Flamengo de Kléber Leite, tanta influência quanto exerceu no Flamengo de Anderson Barros e Gerson Biscotto? Quanto do nosso elenco atual é composto de jogadores seus?

(2) Se o contrato com a Petrobras revelou-se ruinoso para o clube, por que cazzo o Flamengo acaba de renovar com a companhia? Nossa sapiente diretoria acredita que esse arranjo capenga da Timemania durará para sempre? Não tiveram acesso às mesmas informações postadas há poucas horas pelo Hermínio Correa no FlamengoNet?

(3) Uma vez esgotado o prazo de carência da Timemania, a partir de janeiro próximo, teremos de complementar com receitas próprias a diferença entre a parcela devida ao Tesouro e os valores arracadados com a loteria. Como fará o sr. Kléber Leite para administrar o Flamengo a partir de então? Se, em temos de vacas um tanto mais gordinhas, os resultados de sua gestão foram pífios, como será em época de vacas magras?

Perguntar ofende?

8 de dez de 2008

J’ACCUSE

Muito bem, sr. Márcio Braga. A tragédia consumou-se ontem, e foi na sua gestão. Construir a hegemonia no Brasil custou doze anos, do golaço sem ângulo do João Danado ao Vovô-Garoto pulando enlouquecido, mais garoto que vovô. Destruí-la revelou-se tarefa muito mais difícil: levou dezesseis anos, e manda a justiça que se registrem aqui, com nome e sobrenome, os autores de tão bonita façanha: Luiz Augusto Velloso, Kléber Leite, Edmundo dos Santos Silva, Hélio Ferraz, Márcio Braga e de novo Kléber Leite -- passando ao largo de figurinhas menores como um Walter Oaquim, um Gilmar Rinaldi, um Anderson Barros, um Gerson Biscotto, um Michel Assef.

Como desgraça pouca é bobagem, a perda da hegemonia veio acompanhada da desclassificação do Flamengo para a Libertadores de 2009, após um ano marcado por alguns dos maiores vexames dos 113 anos de história flamenga. Não vou dar-me o trabalho de enumerá-los de novo. Basta-me registrar que, nos seis anos em que o Flamengo foi direta ou indiretamente administrado pelo sr. Kléber Leite, perdeu algo que fazia parte da sua essência: o mito do Maracanã como nossa bastilha inexpugnável.

Isso, senhor Presidente, é incomensuravelmente mais grave do que o São Paulo nos ultrapassar em número de títulos, e muito mais difícil de consertar. Pelos séculos dos séculos, toda vez que tivermos de decidir o que quer que seja nos nossos domínios, não há de faltar, do lado inimigo, quem cite o passeio do Ameriquinha do México como prova de que o Maraca lotado não deve meter medo em ninguém. E isto, senhor Presidente, é obra sua também.

O que me embasbaca, senhor Presidente, é o seguinte: estando ambos, eu e o senhor, de acordo em que o que aconteceu foi uma tragédia, e tendo ela se consumado na sua gestão, por que é que o senhor não toma atitudes, já nem digo para minorá-la, mas ao menos para punir os principais responsáveis?

Nos últimos dois ou três anos nos acostumamos a esse arranjo extravagante pelo qual o senhor reina mas não governa, e todos os atributos concretos do mando estão concentrados nas mãos do sr. Kléber Leite. Por conta disso, submetemos o Flamengo de novo a todos os vícios que marcaram o período negro entre 1995 e 1998, e que em 2008 cobraram um tributo tão pesado sobre o nosso desempenho em campo.

Ao apelarmos, de novo, à “engenharia financeira” do sr. Kléber Leite para montar times mais-ou-menos, submetemo-nos de novo ao fenômeno que arruinou as nossas chances de ser campeões este ano: o desmonte de cada time a cada “janela de contratações” aberta (e o próprio sr. Kléber Leite parece concordar com isso, como se não fosse obra sua, no triste balanço que faz de um ano esquecível).

Ou o senhor acha que um Kléberson por € 1,5 milhão vem sem condicionantes ocultos? Acha que é um fenômeno que não guarda a menor relação com o parcelamento dos direitos federativos sobre um Renato Augusto? A cada mês, uma fração maior desses direitos termina nas mãos dos mesmos intermediários que possibilitaram a vinda do Kléberson por € 1,5 milhão.

O senhor disse que o Flamengo só é forte quando monta times com maioria de jogadores made in Gávea. Não se trata aqui de concordar ou discordar do senhor. Trata-se de perguntar-lhe por que cazzo permite que seu Vice de Futebol persiga uma estratégia que vai contra tudo em que o senhor acredita. O Renato Augusto de hoje é o Sávio de ontem (que foi embora, recordemo-nos, na “engenharia financeira” que nos permitiu trazer o Romário pela enésima vez, mais um Rodrigo Fabbri e outros perebas que, juntos, não ganharam nada digno de registro no Flamengo). E, a menos que o senhor faça algo, o Renato Augusto de hoje será o Kaike de amanhã.

Que Flamengo made in Gávea, senhor Presidente, resiste à “engenharia financeira” do sr. Kléber Leite?

É esse Flamengo, de times que duram seis meses, de times sem empatia com a torcida, montados para ganhar campeonatinho carioca em cima dos fregueses de sempre, é esse Flamengo que o senhor pretende deixar a seu sucessor?

Pior: o senhor pretende mesmo fazer seu sucessor o sujeito que idealizou esse Flamenguinho movido a muita “engenharia financeira” e títulos nenhuns? Pretende mesmo aviltar ainda mais, com esse gesto, o belo legado que tinha construído entre 1977 e 1992?

O seu herdeiro-aparente já anda anunciando por aí que a prioridade, para 2009, é o campeonatinho carioca, e que para conquistá-lo “temos algumas coisas interessantes engatilhadas, mas com prazos curtos”. Não é que eu seja contra ganhar o carioca, muito menos contra reforçar um time que, por todos os parâmetros, se revelou um time de merda. O que me pergunto é se essa nova “engenharia financeira” não nos deixará ao deus-dará novamente em agosto ou setembro, passada a conquista de um estadual que cada vez acrescenta menos à nossa grandeza minguante.

O sr. Kléber Leite, eu sei, foi regularmente eleito junto com o senhor. Mas eu quero crer que, sendo o senhor Presidente e ele apenas Vice de Futebol, o senhor ainda guarda para si a autoridade suprema que lhe foi conferida pelos sócios. Autoridade bastante para cortar as asinhas de seu Vice de Futebol e desviar o Flamengo de uma anunciada rota de fracassos, em tudo semelhante à que o clube percorreu entre 1995 e 1998, sob a nefasta direção desse senhor.

Por último, eu quero crer que o senhor ainda guarda lucidez suficiente para, ao longo deste ano, apresentar-nos uma alternativa melhorzinha para gerir o Flamengo a partir de 2010. Eu cá achava, até recentemente, que o Flamengo era uma força da natureza. Hoje, eu não sei se resiste a uma terceira administração Kléber Leite.

13 de out de 2008

KARAKTER

Não pretendo pôr em discussão minha conclusão, que me parece óbvia, de que falta caráter a este time que hoje avilta o Manto Sagrado de Rondinelli, Dequinha, Valido, Almir, Beto Cachaça e Anselmo (enumeração que, para mim, é tão representativa das virtudes flamengas quanto uma que elenque Zico, Zizinho, Leônidas, Da Guia e Júnior). Aos bons rapazes que espernearam quando bati nessa tecla, alguns meses atrás, sugiro a leitura do seguinte artigo como pré-requisito para qualquer conversa. Os que concordarem comigo que é inaceitável ser goleado em casa, numa única temporada, pelo Ameriquinha do México, o São Paulo e o pavoroso Atlético Mineiro podem pular a leitura da bibliografia recomendada.

Reitero: mais que futebol, anda faltando caráter aos jogadores do Flamengo. Anda faltando aquele mínimo de orgulho e compostura que os da minha geração crescemos julgando indispensável para jogar na Gávea. Jogador nosso podia nem sempre ter a habilidade dum Adílio, dum Carlinhos ou dum Petkovic. O que não podia era, quando a chapa esquenta y las papas queman, dobrar-se diante da pressão que vem das arquibancadas. Podiam até perder, mas perdiam como os valentes que, em 1993, esfregaram nosso amor-próprio nos cornos de 60 mil são-paulinos em pleno Morumbi, com o golaço do Marquinhos.

Foi essa valentia, esse amor-próprio desmedido, mais do que a qualidade dos nossos atletas, que fez de nós um clube historicamente vencedor. Aquele do deixou chegar, fodeu. Aquele que, mais que craques, se orgulhava de formar campeões.

Contrastemos, agora, esse atributo dos ídolos rubro-negros -- o de vencedor -- com o currículo dos pilares do time de hoje do Flamengo.

Ibson vai a caminho dos 25 anos. Fora uns campeonatinhos cariocas e portugueses (na reserva), somados a uma Copa do Brasil (glória de que também se pavoneiam Criciúma, Juventude, Santo André, Paulista de Jundiaí e Sport Recife), Ibson não tem na carreira nenhum título digno de nota. Além disso, foi o único bípede a estar em campo nas duas maiores humilhações da história do Flamengo: o jogo contra o Santo André, em 2004, e o jogo contra o Ameriquinha do México. Não fosse pela idade, era capaz de ter jogado também contra o Bonsucesso, em 1968.

Léo Moura tem 30, e joga profissionalmente há 12 anos. Além do Flamengo, defendeu times da expressão do São Paulo, do Palmeiras, do Fluminense e do Vasco. Seu palmarès: dois campeonatinhos cariocas, uma Copa do Brasil.

Juan tem quase 27 anos. A distingui-lo dos anteriores, tem no currículo uma Copa da Inglaterra, pelo Arsenal, um charmoso prêmio de consolação para quem não ganhou nem a Premiership, nem a Liga dos Campeões. De resto, a mesma enganação de carioquinhas e Copas do Brasil.

O próprio Fábio Luciano, provectos 33 anos bem vividos, tido e havido por aí como grande vencedor, não tem lá no currículo muito mais do que os outros, não. Um campeonato nacional, sim, mas da Turquia. Carioquinhas, paulistinhas e duas Copas do Brasil. E o caça-níqueis de verão da FIFA de janeiro de 2000. Brasileiros, Libertadores e Mundiais, zero.

Reconheçamos o mérito de Kléberson, titular da seleção pentacampeã e campeão brasileiro pelo Atlético Paranaense. Passemos ao largo de Jaílton, de quem não se espera mesmo grande coisa, do esforçado Angelim e de Toró, que só tem 22 anos (mas costuma perder a cabeça nos momentos decisivos). Passemos ao largo de Obina, que andou garantindo o pouco que andamos conquistando, e do recém chegado Marcelinho Paraíba, que tampouco tem lá uma sala de troféus digna de nota. E farei todo o esforço do mundo para não falar do frangueiro Bruno, 23 anos, que um dia recrimina o Márcio Braga por acreditar no time, no outro debocha da nossa inteligência dizendo que “temos de continuar acreditando no título”.

Registrando essa única e honrosa exceção do Kléberson, limitemo-nos aos demais pilares do time -- Ibson, Léo Moura, Juan e Fábio Luciano -- e constatemos que ali não tem nenhum grande vencedor. Não digo que seja a hora de botar os quatro para fora a pontapés, mas talvez tenha chegado o momento, sim, de avaliar quão importantes eles realmente são para o time. Na hora de mostrar coragem e caráter, nenhum dos quatro jamais acrescentou muita coisa. Foram tão úteis quanto o instável Toró, a dar patadas em gandulas quando o que precisávamos era de cabeça fria.

E com líderes como esses, que falharam toda e cada vez que a torcida sentiu que o jogo era decisivo, era previsível que a participação do Flamengo no Brasileiro de 2008 terminasse de forma melancólica, como foram todas as nossas participações de 1993 para cá, exceção feita, talvez, a 2007.

Com o caráter dessa gente, temo que não comemoremos nem mesmo o prêmio de consolação da vaga na Libertadores, que eles jamais fizeram por merecer.

***

Claro, o meu mau humor com essa mulambada não há de ser pretexto para eu esquecer que, entre tantos perdedores a vestir o Manto, há um que se sobressai por cima de todos os demais. Dirigiu o futebol do Flamengo por sete longos anos e nunca conquistou nada digno de nota. Fora o jogo contra o Santo André, sua presença nefasta terá contribuído para a maior parte das tragédias que se abateram sobre nós de 1995 para cá: o gol de barriga do Renato e a conseqüente demissão do futuro campeão brasileiro de 2008, Vanderlei Luxemburgo (e de 1993, 1994, 1998, 2003 e 2004); o pior ataque do mundo e o sem-ter-nada no mesmo ano; a devolução dos ingressos contra a Portuguesa e a volta olímpica gremista debaixo das nossas barbas, em 1997; a humilhação da carreata vascaína em frente da nossa sede, em 1998, sem que tivéssemos força sequer para reagir (não na sua gestão); os chocolates uruguaios do Nacional e do inexpressivo Defensor, a suprema humilhação diante do Ameriquinha do México, as goleadas em casa diante do São Paulo e do pavoroso Atlético Mineiro, em 2008.

Em todos esses episódios funestos houve o dedo do sr. Kléber Leite. Sete anos à frente do Flamengo e nenhum título expressivo. Nos últimos três, é certo, com apertos financeiros para os quais a sua própria gestão imprevidente, entre 1995 e 1998, terá contribuído enormemente. Mas, por grandes que sejam as nossas dificuldades de caixa, não concebo que sejam maiores que as de times que ontem mesmo estavam na segunda divisão, como o Palmeiras e o Grêmio, hoje aí lutando pelo título brasileiro.

Coisa que o Flamengo de Kléber Leite -- qualquer Flamengo de Kléber Leite -- foi sempre incapaz de fazer.

11 de ago de 2008

TEM CULPA NÓS?
OU “DA NECESSIDADE DE SER XIITAS”.


Compromissos profissionais impediram-me de voltar a pronunciar-me sobre o Flamengo desde o meu último palpite azedo, datado de 22 de junho, há quase dois meses. De lá para cá, as tribulações do nosso time e as trapalhadas do sr. Kléber Leite bem demonstraram que o meu mau humor tinha razão de ser.

Seguiram-se três vitórias, é verdade, que deixaram o Flamengo bem posicionado para cumprir a sua obrigação, que é ser campeão brasileiro. Depois disso, no entanto, enquanto o nosso sapiente Vice de Futebol desmontava o time e deixava o pobre Caio Júnior sem um único meia-armador, desandamos a perder e a empatar, despencando da primeira para a sétima posição e praticamente jogando no lixo as chances de levantar o caneco.

Depois dessa seqüência, 2008 passa a ser um anozinho mais-ou-menos como outro qualquer, com a perspectiva, quando muito, de voltarmos à Libertadores no ano que vem. É preciso ir muito longe no tempo, talvez a 1979, para encontrar outra ocasião em que desperdiçamos de maneira tão flagrante um título que parecia tão bem encaminhado. Só que, ao contrário do elenco atual, o de 1979 acabou demonstrando que tinha caráter e estava em condições de vestir o Manto Sagrado. O time de hoje, até prova em contrário, é só o time que foi eliminado em casa pelo Ameriquinha do México.

Por tudo isso me parece inadmissível que, depois do Bruno, agora me venha o sr. Ibson Barreto da Silva apontar o dedinho para a torcida, em sinal de cobrança. Cobrar o quê de nós? O cidadão Ibson tem dito, para quem quiser ouvir, que acha “brincadeira” o comportamento da torcida, e que, “quando a gente mais precisa da torcida, em vez de nos apoiar, ela nos critica”.

Que tal invertermos os termos da equação e perguntarmos ao cidadão Ibson o que ele e seus companheiros fizeram quando nós, a torcida, mais precisamos deles? Quando acalentávamos o sonho de conquistar a Libertadores, enchemos o Maraca e não deixamos de apoiar, o que foi que Ibson e seus companheiros fizeram? Quando os perdoamos (a meu ver, prematuramente) pela trapalhada de 7 de maio e voltamos a empurrar o time, sonhando com um título brasileiro, o que foi que Ibson e seus companheiros fizeram?

A torcida do Flamengo acostumou mal demais esse bando. Fazem o que fizeram -- ou o que não fizeram -- contra o América e se acham no direito de esperar o mesmo tratamento do time de 1981. Jogam no lixo o título brasileiro de 2008 e querem ser recebidos com carreatas e discurso no aeroporto, qual a seleção de 1958.

Não quero ser injusto e deixar de apontar à execração pública o principal responsável pela débâcle, o sr. Kléber Leite. É dele, mais do que do time que nos restou, a culpa pela perda do título, e não há Marcelinho Paraíba ou Leandro Gracián capaz de reverter a tragédia a esta altura do campeonato, com o Flamengo em sétimo.

Mas é preciso dar o tratamento que corresponde também a esse bando que maltrata a bola com a camisa que foi do Zico, do Júnior, do Leônidas, do Dida. Muito bem, ganharam do poderoso, do multicampeão, do mundialmente festejado Atlético Paranaense e acham que esfregaram seu valor na cara da torcida. Na boa: ou somos todos mulher de malandro ou não é essa exibiçãozinha de sábado que nos fará voltar ao Maraca e apoiar essa gente como se nada tivesse acontecido, de 7 de maio para cá. A torcida do Flamengo precisa tratá-los com indiferença e hostilidade até provarem que são homens, que têm caráter, e possam reconquistar o nosso respeito com títulos.

Outros clubes aí têm feito muito mais do que o nosso sem a exuberância da nossa torcida, com uma torcida às vezes gélida, às vezes hostil. Se alguma culpa cabe a nós, torcedores, pela presente irrelevância do Flamengo (como, aliás, andou bostejando o sr. Kléber Leite logo depois do 7 de maio), é por perdoarmos fácil demais. Sejamos intransigentes, sejamos xiitas na nossa obstinação, e só voltemos a tratar os nossos atletas com carinho quando eles voltarem a conquistar o Brasileiro.

Que, nunca é demais lembrar, é obrigação.




22 de jun de 2008

ADVERTÊNCIA DE QUEM NÃO DEVE NADA A NINGUÉM

Escrevo estas linhas antes do Flamengo x Ipatinga desta tarde. Pode ser que o resultado do jogo sirva para diminuir um pouco meu mau-humor e, conseqüentemente, a tornar meio descabida esta minha coluna. Oxalá.

Não sei como essas coisas são decididas, se há uma terapia de grupo comandada pelo sr. Caio Júnior ou se simplesmente o inefável Kléber Leite (homem de imprensa, no final das contas) baixa uma instrução e todo o grupo passa a repeti-la. Mas, de umas semanas para cá, fato é que todo o mundo, na Gávea, passou a repetir que a hecatombe de 7 de maio de 2008 “já é passado”, “é página virada”, “nós já até esquecemos”, e que o negócio agora é o Brasileiro.

Essa auto-complacência dos que foram os autores de um dos maiores vexames da história rubro-negra engendra situações insólitas. Como o atrevimento do goleiro Bruno ao criticar a torcida do Flamengo por pegar no pé do Jaílton. Em reportagem recente, o camisa um adverte, em tom de ameaça, que “se a torcida continuar desse jeito, não vamos conquistar o Brasileiro”. E ainda se acha no direito de dar lições a quem carrega, no inconsciente, a lembrança de um Andrade, um Uidemar ou um Biguá na mesma posição que o limitado peixe do Ney Franco: “ele é muito importante para o time, não é possível que [a torcida] não consiga entender isso”.

Perdão. Deve ter alguma coisa no meio do caminho que eu não entendi. Mas a torcida fez a parte dela naquela noite trágica de 7 de maio -- coisa que Bruno e seus companheiros não fizeram. O mesmo se diga do sábado passado, quando finalmente parecia que tinha chegado o momento de voltar a apoiar o time: nós voltamos a comparecer, e Bruno e seus colegas voltaram a ser goleados dentro de casa, por time estrangeiro, diante das barbas perplexas de 50 mil rubro-negros.

Portanto, se alguém está em condições de dar advertências aqui, não é nem Bruno nem qualquer um dos membros do atual elenco. A torcida do Flamengo nunca deixou de comparecer e de apoiar quando se precisou dela. Os jogadores, sim, falharam quando precisaram provar que não eram apenas um time à altura do Campeonato Carioca. Ao contrário de Bruno, ninguém aqui na torcida esqueceu disso, e eu próprio não posso deixar de concluir que as tribulações pessoais do goleiro -- que agora se compraz em bater boca com tricolores -- não se devem a outra coisa senão à incompetência, sua e de seus companheiros, em seguir adiante na Libertadores e impedir que o Fluminense chegasse aonde chegou.

Até admito que não deve ser saudável os jogadores ficarem remoendo eternamente o que aconteceu contra o América. Bola para a frente, que o Brasileiro é obrigação. Mas simplesmente esquecer, como neguinho anda dizendo que esqueceu, tampouco me parece produtivo. Acaba dando nisso aí: nos responsáveis por um dos maiores vexames da história rubro-negra agindo como se não tivessem nada a provar à torcida.

E vocês, ó Bruno, ainda têm muito o que provar a esta torcida, que não precisa provar nada a ninguém.

15 de jun de 2008

DUAS DÉCADAS DE FREGUESIA

Foi no ano da Graça de 1988, há duas décadas completas. O Presidente da República atendia pelo nome de José Ribamar Sarney, mas ninguém tinha votado nele: não se votava para Presidente havia exatos 28 anos. A União Soviética estava viva e bulindo, e o Muro de Berlim era um impávido colosso. Em Roma, para se ter uma idéia de quanto tempo faz, Sua Santidade, o Papa João Paulo II, ainda se fazia chamar "o Papa-Atleta". O aiatolá Khomeini era figurinha fácil nos noticiários, e seus cornos furibundos estampavam uma bandeira insólita da Torcida Jovem do Flamengo ("a bênção, aiatolá / nosso povo te abraça").

Cá no Brasil, a moeda da semana era o cruzado, mas não ia demorar a ser substituída pelo cruzado novo. Em Brasília, 559 ilustrados cavalheiros (entre eles o sr. Márcio Braga) elaboravam uma Constituição que legislou até sobre o Colégio Pedro II, e que estabelecia bases tão sólidas para o desenvolvimento nacional que teve de ser emendada 62 vezes em vinte anos. O Prefeito da mui leal e heróica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro era o sr. Roberto Saturnino Braga, que um belo dia, com a cara mais lavada deste mundo, decretou a falência do município que ele próprio administrava.

Por esses dias, assunto de mulher era a novela Mandala, com uma Vera Fischer inteiraça a merecer as melhores homenagens dos que andávamos pela casa dos doze, treze anos. Ouviam-se coisas esquisitas no rádio, do gênero A-Ha, RPM ou Suzanne Vega -- que cantava, segundo consta, sobre uma moça a quem apetecia levar porradas do namorado. Havia também The Killing Moon, do Echo and the Bunnymen, e o excelente The Joshua Tree, do U2, para equilibrar um pouco a coisa.

No esporte, fora do futebol, o grande ídolo pátrio era Ayrton Senna da Silva, que muito em breve conquistaria seu primeiro campeonato mundial. Houve também espaço para os quinze minutos de Aurélio Miguel Fernández, o único brasileiro a voltar da Coréia com uma medalha de ouro no pescoço.

No futebol, Diego Maradona e Ruud Gullit disputavam o posto de melhor do mundo, e aqui ainda reinava soberano, apesar do joelho, Sua Majestade, o Rei Arthur Antunes Coimbra. O técnico da seleção brasileira era Carlos Alberto Silva, cujas grandes façanhas foram empatar com a Noruega e voltar de Seul com uma medalha de prata, pequeno consolo para o esforço de jovens promessas como Taffarel, Bebeto e Romário.

E foi nesse mundo distante e esquisito que, pela última vez, em 22 de junho de 1988, faz duas décadas, o Club de Regatas Vasco da Gama conquistou seu último título em cima do Flamengo.

De lá para cá, foram derrotados pelo Flamengo em quatro finais cariocas, mais uma final de turno que nos valeu o estadual (e mais um vice para eles), além de uma decisão da Copa do Brasil que, para eles, era o jogo de todos os tempos, a mãe de todas as batalhas, e que nós vencemos sem muito esforço. Em muitas dessas ocasiões, o pândego dirigente deles garantia que o título estava no papo e que o chope já estava comprado (deve ter azedado, depois de tanto tempo).

Este dia há de ser a data nacional do Vasco da Gama. É o Grito do Ipiranga deles, a Tomada da Bastilha, está para sua história assim como os 3 x 0 sobre o Liverpool estão para a nossa.
Nessas condições, manda a educação e a boa vizinhança que os cumprimentemos por façanha tão maiúscula, que ora completa seu jubileu de porcelana.

Quem quiser, que fique à vontade para encaminhar estes meus cumprimentos a todos os vascaínos de suas relações.