7 de mai de 2003

AS SANDICES DUM TAL ALEC DUARTE

Que a Folha de São Paulo é um jornal para débil mental é coisa que ninguém em sã consciência questiona. Desde que me entendo por gente, o pasquim paulistano sempre se pautou pela regra do mínimo denominador comum: para ser o “maior jornal do país”, é preciso atingir o maior número de leitores; para atingir o maior número de leitores, tudo o que se escrevinha na Folha deve ser acessível à inteligência mediana -- na nossa como em qualquer sociedade, um mero eufemismo para ignorância mediana.

Essa política da Folha traduz-se, no conteúdo do pasquim, numa infinidade de idiossincrasias bastante irritantes para quem estiver um pouquinho acima do mínimo denominador comum. É a determinação cretina de que não conste da primeira página um único período composto; são os gráficos imbecis que pretendem reduzir todos os aspectos de realidades complexas a factóides facilmente absorvíveis pela massa ignara; são as abundantes referências a cifras e estatísticas que, na cabeça simplória do leitor da Folha, sacramentam qualquer estultice decretada pela antipática equipe do Sr. Otávio Frias Filho. (O leitor da Folha sente temor reverencial por qualquer coisa expressa em algarismos arábicos e ignora a advertência de Delfim Netto: “estatísticas são como o biquíni: o que mostram é interessante, mas o que escondem é fundamental”.)

Que um jornal tão porcamente redigido e editado ainda abra espaço a alguns dos mais opiniáticos, self-righteous (o português não me basta para descrever essa choldra) e viadinhos colunistas da imprensa brasileira é fato que só vem tornar mais grave o estado de coisas descrito acima.

Não é de se estranhar, portanto, que, com o escrete que a Folha abriga e remunera, o jornal acolha de braços abertos um Alec Duarte. Para mim, um ilustre desconhecido até hoje, quando me chegou às mãos um texto perpetrado por esse cavalheiro (“Afinal, Zico era ou não era?”). Nesta singela maravilha da arte do palpite azedo, o Sr. Duarte esmera-se naquilo que Nelson Rodrigues chamou de “opinião de torcedor do Bonsucesso” -- opiniões que ninguém provido de um mínimo de sentido comum levaria em consideração, e que uma sociedade sadia jamais permitiria serem impressas no “maior jornal do país”.

To cut a long story short... o Sr. Duarte pretende ressuscitar a polêmica -- outrora tão alimentada pela paroquial imprensa paulistana, e enterrada lá se vão uns vinte anos -- sobre se Zico era ou não “jogador de Maracanã”. E, para fundamentar a opinião cretina que ele deixa patente com a simples escolha de tema tão anacrônico para sua coluna, o Sr. Duarte saiu-se com a seguinte -- e, no caso da Folha, indefectível -- estatística. Zico marcou 49,85% dos seus gols no Maracanã (com casas decimais e tudo!). Ergo, é jogador de Maracanã.

Deixando de lado a constatação óbvia de que, se 49,85% dos gols foram marcados no Maior do Mundo, 50,15% (a maioria absoluta) não o foram (ora, pois!), fico cá imaginando que, se alguém se dispusesse a fazer semelhante levantamento estéril sobre os gols de, digamos, Garrincha, chegaria a conclusão muito parecida sobre o Mané: que era jogador de Maracanã. Faça-se o mesmo com qualquer jogador de um clube só (ou predominantemente de um clube) e, por uma fatalidade matemática, chega-se a conclusões semelhantes: Eusébio é jogador do Estádio da Luz, George Best é jogador de Old Trafford, Obdulio Varela foi jogador de Centenario, Arsenio Érico e Bochini são jogadores de Doble Visera, Labruna é jogador de Monumental e assim por diante. Por quanto tempo é preciso prosseguir para que o Sr. Duarte se convença da sandice que publicou?

Eu disse, alhures, que, para mim, a liberdade de opinião é um direito sacrossanto. Não me escandaliza que o Sr. Duarte tenha as opiniões que tem. O que me escandaliza, sim, é que o “maior jornal do país” tenha a desfaçatez de publicar esse arrazoado incongruente como se de bom jornalismo se tratasse.

Um comentário:

Augustinian disse...

Não é só isso. A estística se refere apenas à gols que Zico fez no Brasil. Ora, no Brasil só esteve no Flamengo, que mandava todos os seus jogos no Maracanã - de forma que a princípio metade das partidas de Zico teriam sido nesse estádio. Mas há outro detalhe: os outros clubes grandes do Rio TAMBÉM mandavam seus jogos no Maracanã, de forma que os clássicos cariocas que Zico jogou foram quase sempre naquele estádio, mesmo quando o Flamengo não era mandante. Dessa forma, é bastante surpreendente que mais da metade dos gols do Galo tenham sido feitos em outros estádios.