10 de jun de 2004

“BANDEIRA BRANCA, NÃO POSSO MAIS”

Já que aquela gente esquisita do Blog de Primeira resolveu pedir arrego -- “bandeira branca!”, suplica o sr. Mendes Junior --, quero dizer umas palavras finais sobre a polêmica que me ocupou as horas vagas e deu sentido à vida vazia de muito escrevinhador paranaense nos últimos dias. Com isso, encerro a discussão e demonstro um pouco de magnanimidade com quem, no final das contas, perdeu a briga e resolveu apelar para o argumento batido de que “você é chato” e que “o assunto can-sou!”

(1) De produtivo, fica assentada apenas uma conclusão: que a crise afeta quase todos os grandes clubes do país, e que é preciso uma solução política para salvar a maior paixão nacional. O bem do futebol brasileiro está no bem dos grandes clubes brasileiros, e é imperativo que o Estado brasileiro ajude a aliviar sua situação de sobre-endividamento (e.g., por meio do perdão ou da renegociação de dívidas tributárias e previdenciárias).

(2) Devolver aos grandes clubes o lugar que lhes é de direito acabaria com um futebol nivelado por baixo, única conjuntura em que os clubes do Paraná podem aspirar a grandes coisas. Não é justo, os paranaenses hão de espernear, mas a vida nem sempre é justa. Não é qualquer fabricante de mobilete que pode aspirar à proteção que o Estado dá à Embraer, assim como não é qualquer Atlético Paranaense que pode aspirar a receber o mesmo tratamento que o Flamengo.

(3) Entrando, agora, nas considerações pessoais: na cabeça privilegiada do sr. Mendes Junior, um blog dedicado ao futebol carioca há de ser necessariamente obscuro. Que dizer, então, do Blog de Primeira? Salvo engano, aquele é um blog sobre futebol carioca, tamanha a obsessão deles com o assunto. Se um blog sobre futebol carioca escrito por cariocas é forçosamente obscuro, como qualificar um blog sobre futebol carioca escrito por paranaenses?

É natural que o centro desperte um interesse desproporcional na periferia. Mas as Cartas da Inglaterra do Eça de Queiroz jamais darão uma visão tão clara da realidade inglesa como uma leitura criteriosa do Times.

(4) Alguém lá no Blog de Primeira sugeriu, acho até que de boa fé, convidar o Tinhorão a publicar seus textos por lá. Agradeço, mas sou forçado a declinar do convite. Já fui convidado a publicar em espaço muito mais conceituado que aquele -- o que muito me honrou --, mas não pude aceitar por uma questão de liberdade editorial: faço questão de manter o tom belicoso, confrontativo, quando falo de assuntos que me são particularmente caros. Essa liberdade não casa bem com um espaço coletivo, com regras de conduta e restrições de tom e de linguagem subentendidas.

(5) Uma última palavra sobre “blogs desabitados”: após levar uma surra na discussão, o sr. Mendes Junior quis sair por cima acusando este blog de ser “obscuro e desabitado”, e este autor de nem atualizar o blog regularmente. Sobre a segunda acusação, simplesmente constato que eu tenho mais o que fazer do que ele. Sobre a primeira, mil vezes escrever para meus oito leitores, que têm domínio da língua portuguesa, a escrever para gente como o quadrúpede lá que me acusa de escrever com um dicionário do lado (e que parece ter uma tese de pós-doutorado sobre o feudalismo): se eu tivesse que fazer como os jornalistas da Folha de São Paulo e cortar todas as palavras “complicadas” e desconfiar das que tenham mais de três sílabas, eu simplesmente pararia de escrever.

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