2 de fev de 2004

CONFISSÕES APÓS UM FLA-FLU ETERNO



As gerações mais jovens -- essa gente esquisita que acha que Curintcha x Parmera é clássico, que o Cruzeiro é um clube vencedor e que referência de ídolo rubro-negro é um certo anão de língua presa -- tiveram ontem uma oportunidade única de se instruir sobre o que é futebol brasileiro. Num Maracanã lotado (lotado para os padrões de hoje, quando essa gente esquisita acha que 60 mil é um público estupendo), os dois únicos clubes eternos do futebol brasileiro travaram um duelo digno das melhores tradições do Fla-Flu.

Na euforia pós-clássico, acho até que foi um dos maiores Fla-Flus de todos os tempos -- na companhia daquele poema que foi a final de 1995, com gol de barriga do Renato, dos 5 x 0 do último gol de Zico (que ele guardou para um Fla-Flu), dos 4 x 2 de 1973 (deles) e de 1991 (nosso), do Fla-Flu da Lagoa de 1941, do 0 x 0 de São Marcial em 1963, do golaço-aço-aço do maior camisa 2 de todos os tempos, em 1985, de Assis decidindo um clássico que parou o Brasil em 1984.

Dado eloqüente da breve retrospectiva acima: são quatro vitórias tricolores, quatro rubro-negras (com a de ontem, cinco). Além de demonstrar cabalmente -- aliás mais uma vez -- a imparcialidade deste cronista, o dado comprova o amor que sentimos pelo Fla-Flu todos os que somos genuinamente apaixonados pelo futebol: gosto tanto desse clássico que lembro com carinho até algumas de nossas derrotas mais sofridas.

(Exemplo: se me deixou sem dormir naquela noite lá se vão quase dez anos, hoje lembro com carinho do gol de barriga do Renato porque acrescentou a dose extra de dramaticidade que faria daquele um Fla-Flu de verdade. Não bastava o Flamengo ter tirado forças do nada para empatar um jogo já perdido: um Fla-Flu daqueles tinha de terminar de maneira inverossímil, com um Fluminense batido virando o jogo pelo avesso mais uma vez, com uma bola boba que bate numa barriga e vai, em câmara lenta, rumo à meta rubro-negra, sob os olhares incrédulos de onze flamengos na área e mais 60 mil -- yo incluso -- nas arquibancadas.)

Faça um teste com torcedores de outros clubes e pergunte se se lembram com carinho de alguma derrota diante do maior rival. Um prêmio para o curintchano que me confessar que, hoje, enxerga poesia nos 30 mil palmeirenses rezando de mãos dadas em 1993, enquanto Evair corria para a marca de cal e decretava: Porcos 4 x 0 Gambás. Um prêmio para o colorado que achar graça no André Catimba dando e levando porrada, fazendo o gol do título e caindo com os cornos no chão em 1977. Um prêmio para o vascaíno que se emocionar com Rondinelli “penetrando como um pênis a defesa cruzmaltina”, subindo mais que todo o mundo e estabelecendo uma marca: aqui começa o maior esquadrão de todos os tempos.

Isso não existe, senhores, e não existe porque o Fla-Flu é diferente de todas as pequenas rivalidades em que se comprazem porcos e gambás, atleticanos e cruzeirenses, gremistas e colorados, milanistas e interistas, xeneizes e millonarios, madridistas e blaugranas. Não é só um ódio do tamanho do mundo: é uma rivalidade forjada no amor e no ódio, é um eterno acerto de contas entre pai e filho.

Depois daquele jogo de 1995, vi um tricolor desfilar com uma camisa com os seguintes dizeres, em verde e grená: “Eu teria um desgosto profundo / se faltasse o Flamengo no mundo”.

Faça esse outro teste: que palmeirense teria um desgosto profundo se faltasse o Curintcha no mundo? Jurando sobre a Bíblia, nenhum.

Aliás, é essa a diferença entre o Fla-Flu e o Flamengo x Vasco. Se me dessem esse poder, o clube do subúrbio deixava de existir amanhã mesmo. O Fluminense, não.



***

Dizer o que do anão ontem? Depois do primeiro gol rubro-negro, jogou um partidaço, virando para 3 x 1. Depois dos 3 x 1, não lhe bastava a consagração ao final dos 90 minutos, não queria compartilhar a sua glória com os dez coadjuvantes tricolores, e saiu para ser ovacionado sozinho. De herói a vilão em menos de 30 minutos: não fosse seu estrelismo, não fosse seu ego inflado, a história do jogo poderia ser outra.

É por essas e outras que me recuso a ver no Romário um dos gigantes do futebol (sem trocadilho). Se lhe sobram qualidades técnicas, faltam-lhe quase todas as qualidades morais (ambição, sede de glória, capacidade de entrega) que fazem um grande campeão.

Sacripanta!

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Frase memorável do meu amigo André Doria, sobre o Parmera: “Ser campeão da Libertadores e já ter caído para a segundona é a mesma coisa que ter comido um monte de mulher gostosa, mas confessar que um dia já deu a bunda.”

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