11 de mai de 2013

REGOZIJAI-VOS: A DESGRAÇA DOS LARÁPIOS

Eu sou um escroto. O dia mais feliz da minha vida foi o 1° de dezembro de 1998. Naquele dia eu comemorei de forma tão extravagante o gol do Raúl que o casal do prédio da frente, que também comemorava com uma bandeira do Flamengo, parou de celebrar para me interpelar: ― Calma, garoto! Você vai morrer do coração! Um ano depois, em janeiro de 2000, quando o Edmundo perdeu aquele pênalti, tive um ataque de riso de uma hora. Um amigo rubro-negro me telefonou e eu não respondia, só gargalhava. Quando o Fluminense foi rebaixado, eu ia à janela nos horários mais insuspeitos ― no meio da tarde de uma terça-feira, às duas da manhã de sábado ― e gritava “segundona”, e minha voz tonitroava pelos prédios da vizinhança, matando de raiva os tricolores que não esperavam uma ofensa assim num horário daqueles. Isso durou um ano, e depois continuei gritando “terceira divisão”, mesmo quando o Fluminense não jogava. Sobretudo quando o Fluminense não jogava.

Meu júbilo com o Fluminense pastando na terceira divisão era pela maldição realizada. Quando o Fluminense foi campeão carioca em 1995, a torcida do Flamengo, coletivamente, concentrou todas as suas energias mentais em desejar a desgraça do adversário. Se 40 milhões de indivíduos se obstinam em desejar-lhe o pior, basta um ano e meio para o seu time cair do título carioca para a segunda divisão, e quatro anos para a rainbow jersey ser avistada em onze perebas num campinho do Corpo de Bombeiros candango.

Essas reminiscências me vêm à mente por causa do outro tricolor esquisitão, o São Paulo Futebol Clube. Esta semana, as meninas do Morumbiba vivem o seu maior inferno astral desde que a empregada os flagrou provando o sutiã da irmã mais velha. Completaram seis anos sem bater o maior rival em casa e ainda foram despachados da Libertadores, com goleada e olé, por ninguém menos do que u Galu, um time que só figura na história do futebol brasileiro como sparring do Flamengo.

Longe de mim ficar feliz com vitória do Curíntia. Como em janeiro de 2000, o que conta aqui não é a vitória dessa malta vil, mas a derrota do adversário. Façamos as contas, senhores: seis anos sem vencer o maior clássico em casa significa que a última vitória foi em 2007 ― o ano em que, cuspindo em cima (logo eles, que engolem) da palavra empenhada, a São Paulo passou a reivindicar a condição fraudulenta de penta único. Pediram, e levaram na mão grande, a nossa Taça de Bolinhas, para depois ter de entregá-la debaixo de vara a um oficial de justiça, como larápios que são.

Diante desse quadro, não há como não nos regozijarmos com a desgraça do mais desonesto, o mais traiçoeiro dos inimigos. Por odioso que fosse, um Eurico Miranda a vomitar rancor contra o Flamengo era muito mais digno, tinha muito mais hombridade do que essa corja, porque suas intenções sempre estiveram patentes para todos. Por revoltante que seja, um Curíntia que se torna indistinto do partido político que o apadrinha para ganhar estádio, patrocínio público e arbitragem amiga chega a ser menos reprovável do que essa canalha, porque faz o que faz às escâncaras, nas barbas de uma nação perplexa.

O que acontece com a São Paulo, amigos, é nada mais, nada menos do que o que aconteceu com o Fluminense. É a praga que se cumpre, a maldição que se realiza, é a concretização dos desejos de 40 milhões de rubro-negros que eles pretenderam sacanear a partir de 2007, passando por cima da honra, da palavra empenhada, da própria história do clube que, em parceria com o Flamengo, mostrou aos demais o caminho da grandeza, em 1987.

2 de mai de 2013

IDENTIDADE E PÉLA-SAQUISMO

O Brasil vive tempos débeis-mentais, e o sujeito que duvide da justeza desta constatação só precisava prestar atenção à histeriazinha que se gerou em torno do jogo entre Barcelona e Bayern de Munique, na última quarta-feira. Por todo o lado, garotos brasileiros tomavam partido de um e de outro, davam gritinhos aviadados por um ou por outro, discutiam nos foros virtuais em defesa de um ou de outro, como se de dois times brasileiros se tratasse. Dir-se-á que gostam de futebol, e que o amante do jogo tinha diante de si os dois melhores times do mundo. Precisamente: o ser humano normal não aprecia, padece o futebol, tolera os noventa minutos do jogo porque ali, com as cores que herdou de seu pai e de seu avô, se disputa algo que vai muito além do mérito esportivo. Fosse pela beleza do jogo, qualquer de nós abriria mão de bom grado de assistir a marmanjos dando botinadas e acompanhava, com muito melhor proveito, o vôlei feminino (sobretudo quando joga a Itália).

A todo o mundo que me venha falar de Messi, Ibrahimovic ou Schweinsteiger, minha resposta sempre foi a mesma: eu não gosto de futebol, meu negócio é Flamengo. Quando muito, padeço jogos alheios apenas para torcer pela desgraça do Vasco, do Fluminense, du Galu e, sobretudo, de  qualquer time paulista que entrar em campo em qualquer lugar do planeta. Mas também aí não me afasto um milímetro de minha essência: para o rubro-negro, torcer contra essa corja também é questão de identidade.

Falo em identidade e chego ao âmago da questão: eu respeito o torcedor do Barcelona que sente arrepios à menção de Kubala ou Rexach, ou que enxerga na camisa blaugrana alguma essência profunda da catalanidade e canta o tots al camp ainda hoje como quem brande a língua pátria como um escudo. Também assim o torcedor do Boca que passa oitenta minutos cantando murgas melancólicas, porque o ritmo, que sobreviveu na Bombonera enquanto definhava nas ruas, é parte de uma certa identidade da zona sul de Buenos Aires, que encontra no Boca a sua melhor expressão. Em contrapartida, há uma década que tenho ímpetos homicidas sempre que ouço a torcida do Grêmio macaqueando não só as murgas, que jamais lhe falarão à alma, mas também o sotaque estrangeiro sem o qual se atropelaria a métrica. E há quatro, cinco anos que tenho vontade de pagar o esporro devido a cada pai de criança que circula por aí com camisetinhas do Barcelona ou do Real Madrid (excetuado, neste último caso, se tiver nas costas o número 7 e o nome Raúl).

E o Flamengo com isso, estará perguntando-se o leitor. Muito simples: nosso clube e nossa torcida também não são imunes a uma época débil-mental. A quem duvida, sugiro procurar a meia dúzia de casos clínicos que, ultimamente, faz de conta que é barra-brava com bombos e pratos na Superior Leste do Engenhão, abafando os gritos legítimos da torcida e torrando os bagos de todo o mundo ao redor. Fora desses casos extremos, reparem nas letras das musiquinhas que se passaram a cantar, de 2007 para cá, com declarações de amor e manifestações de sentimento que são a antítese do modo carioca de torcer (o Júnior, recordem, confessa que ficava arrepiado mesmo quando a torcida cantava, com toda a simplicidade, que eu gosto de você, e com essa declaração estava dito tudo). Não há, senhores, felicidade possível na língua dos outros, e na nossa língua nós sempre comemoramos em samba.

Fiz esse desabafo para chegar ao inacreditável press release da comunicação do clube, datada da última terça-feira. Na nota está tudo errado, da forma à substância. Na substância, avisam ao público incréu que o Flamengo montou um time de futebol americano (!), em parceria com um tal Imperadores (?). Na forma, explicam que os referidos Imperadores, ao fechar com o Flamengo, encerraram a parceria “com outro clube de soccer do Rio de Janeiro” (!!).

Dois comentários me ocorrem, sobre a notícia e a nota infelizes. Em primeiro lugar, e nisso creio contar com o apoio de todos os leitores, soccer de cu é rola. Em segundo lugar, e por aqui me despeço, observo que há limites, ou tem de havê-los, nesse esforço bem vindo de colocar o verdadeiro inimigo ― o abominável Curíntia Paulista ― em seu devido lugar. À custa de suplantar o Curíntia, não se pode querer emulá-lo em tudo, sob o risco de comprometermos a nossa identidade. Já não digo assistir, mas jogar futebol americano, no Brasil, é de uma babaquice tamanha que só se concebe no paulista, e nenhuma instituição desportiva, por seu código genético, está tão bem equipada para expressar essa babaquice quanto o Curíntia Paulista.  O Flamengo tem, sim, de continuar trabalhando no sapatinho para botar a casa em ordem, voltar a ser hegemônico e pôr fim definitivamente a quantas polêmicas absurdas a imprensa do Arraial inventar sobre o tamanho das duas torcidas. Mas só será plenamente exitoso se for fiel a si próprio, se estiver consciente de que o Flamengo é uma bandeira na qual se enxergam e se identificam todos os brasileiros orgulhosos de ser o que são e absolutamente intolerantes com o péla-saquismo.