21 de fev de 2011

1987 NOS VOSSOS CORNOS


Por Deus, olhai a foto que ilustra este artigo. Ali está Leandro, o Peixe Frito, o maior lateral direito que o Brasil já viu, com o joelho em frangalhos mas, ainda assim, um paredão inexpugnável em nossa zaga. O Leandro que deixou sangue em campo no Mineirão, na semifinal, quando, confirmada a escrita, a freguesia das Alterosas entrou em desespero. A seu lado, novinho, Zé Carlos, Deus o tenha, o Zé Grandão que foi o primeiro substituto digno de Raul Plassmann nos meus times de botão e no meu coração. Está lá Andrade, prestes a desfilar sua classe gigantesca pelo gramado do Maraca. Prestes a fazer a maior exibição de sua carreira e ofuscar Zico, Renato, Bebeto. Prestes a coroar uma jogada coletiva de antologia com o passe magistral para Bebeto. Está lá Edinho, velho rival agora com as cores certas, as únicas cores certas, formando com Leandro uma daquelas zagas que deviam ser proibidas porque é sacanagem com o adversário. Está lá o Leonardo, menino ainda, 17 anos, o Léo que ainda era o Ratinho para os seus colegas do Instituto Abel de Niterói, que olhávamos para ele como quem olha assim para um semideus (“quantas mulheres é possível comer, jogando no Flamengo, aos 17 anos?”). Está lá Jorginho, atleta de Cristo dos de verdade, homem de bem, lateral fino e vigoroso, uma das cinco contribuições desse Flamengo para a seleção que finalmente traria de volta o caneco, em 1994.

Agachado está Bebeto, que um belo dia desistiu de ser o sucessor do Galinho em nossos corações, mas que a essa altura era idolatrado com justiça pela maior torcida da Terra. O Bebeto que um dia formaria, ao lado de Romário, a maior dupla de ataque da história do futebol. A seu lado está Renato Gaúcho, que rodou o Brasil inteiro mas nunca — nem no Grêmio, contra o Hamburgo — experimentou coisa comparável a ser o maior jogador do Brasil envergando o Manto Sagrado. O Renato que esse ano saldou contas pendentes com o inimigo Telê Santana e confirmou, pelos séculos dos séculos, a ancestral freguesia do odioso Galo mineiro diante do Flamengo. Ao lado dele Aílton, raçudo, voluntarioso, que um dia entrou para a história, jogando pelo Grêmio, definindo uma das finais mais emocionantes de todos os tempos. O Aílton que, reparai, foi o único desses onze a não ter vestido a camisa da seleção. Depois está Ele, Sua Majestade Arthur Antunes Coimbra, que em noventa minutos erguerá seu último troféu pelo Flamengo, e em dois anos deixará os gramados e nos fará órfãos para sempre. A seu lado, ainda mirrado, ainda moleque, Crizam César de Oliveira, Crizanzinho, Zinho. Os críticos um dia o chamarão de enceradeira, mas eram esse domínio e esse toque de bola refinados que permitiam àquele Flamengo ir cozinhando qualquer adversário do mundo até que, atordoado, não pudesse reagir quando finalmente déssemos o bote.

Olhai a foto e lembrai que, por 23 anos, dois meses e oito dias, os canalhas e os recalcados negaram que esse time tenha sido tetracampeão do Brasil. Olhai e lembrai de todos os filhos da puta que, ao longo de um quarto de século, vos falavam em sports e asteriscos, ainda que fossem incapazes de lembrar o nome de um, apenas um jogador do irrelevante Sport Club Recife. Ainda que não tenham visto, porque ninguém viu, o Sport derrotar o Guarani no mais completo anonimato, longe dos olhos e dos corações dos brasileiros.

Olhai e lembrai do mais reprovável entre todos os adversários, o São Paulo Futebol Clube, ostentando por aí a fama imerecida de Penta Único, depois de Hexa Único. Lembrai do São Paulo que esqueceu que um dia foi presidido por homens em vez de canalhas, que ignorou a palavra empenhada há um quarto de século, que não hesitou em bater a carteira do parceiro que, em 1987, junto com ele arriscou tudo para dar aos grandes clubes do Brasil o que era deles por direito.

Olhai e lembrai dos biltres de todas as cores e procedências, de Muzambinho ao Recife, ignorando todas as obviedades e perpetuando a mentira risível de que um time que ninguém viu era o legítimo campeão do Brasil de 1987. Olhai e lembrai dos que negavam ao Flamengo a glória conquistada em campo, naquele 13 de dezembro chuvoso, mas que, desatentos, repetiam sem pensar que esse Andrade e esse Zinho foram os maiores campeões do Brasil, porque conquistaram o Brasileiro em cinco oportunidades (o que forçosamente inclui 1987).

Olhai e lembrai de Leão, freguês eterno, bostejando sandices sobre o Flamengo ter amarelado para os onze perebas inapeláveis que ele dirigia em 1987. Olhai e lembrai de Milton Neves, do pulha Milton Neves, alienando a maior torcida da Terra para fazer graça com duas kombis de pernambucanos. Olhai e lembrai do mau caráter Juvenal Juvêncio, agora condenado a perder o único brinquedo capaz de satisfazê-lo na velhice decrépita. Lembrai do irrelevante Homero Lacerda e de suas ameaças tresloucadas de processar a Deus e o mundo por proclamarem o óbvio, em 6 de dezembro de 2009. Lembrai dos outdoors rastejantes de pernambucanos subservientes, que em 2007 viam na glória do São Paulo o único caminho para que o Brasil se lembrasse da gloríola do Sport, em 1987.

Olhai para a foto, irmãos, lembrai de toda essa gente, e de quantos mais vos torraram os bagos em 23 anos, dois meses e oito dias. Lembrai agora que sois hexa desta porra, que aqui não há nem haverá nunca clube maior do que o nosso. Olhai de cima as legiões de recalcados, arquejantes de ódio e de inveja, enchei os pulmões e repeti comigo, para Deus e o mundo ouvirem:

VASCO, BOTAFOGO
AMÉRICA, BANGU
QUEM NÃO FOR FLAMENGO
VÁ TOMAR NO CU.

31 comentários:

Marcus Vinícius disse...

Que post!!!!
Tinha apenas 2 anos em 1987. Mas esse post me fez praticamente viver o momento do título. Feliz por ser rubro-negro.

Anônimo disse...

Pqp Oswaldo. É de arrepiar o texto. Muito bom.

elgrandemachodemierda disse...

bando de babacas, jamais poderiam me roubar o grito de tetra-campeão, pq eu estava lá, como tb nao roubariam o título desse time genial, mas infelizmente lhe roubaram o direito de jogar a liberta de 88.
É isso mesmo, excelente o post! Mengão sempre! o gigante despertou!

abc,
Marcelo

Tiago Duarte Dias disse...

Quase chorei lendo. Queria ter presenciado tal time, mas eles se sagraram campeões brasileiros 3 anos antes de eu nascer, porém a história permanece, eternizando feitos passageiros... E sinceramente, eu estava pouco me fudendo pro que a corrupta CBF dizia sobre o título de 87. Sou rubro-negro (o de verdade, o hexa-campeão, o da maior torcida do mundo, o único rubro-negro de direito desse país, o resto é imitação) e sempre considerei o Flamengo campeão de 1987, afinal em 1987 o Flamengo fora considerado campeão, e o que teria mudado desde então? Nada. A CBF apenas fez uma decisão política pra confirmar o que já era corrente. Corrigindo um de seus vários erros históricos. Enfim, SRN

Carlinhos Horta disse...

Sensacional, simplesmente sensacional... É por aí, mas a grandeza do FLA é muito superior a qualquer trofeu de bolinhas....

http://escondidin.blogspot.com/

Abraço.

Nivinha disse...

Nossa, que texto sensacional!
Tenho certeza que é o que todo rubro-negro queria escrever e falar nesse momento!
Parabéns!

@NivinhaFla
http://flamengoaspirinaseurubus.blogspot.com/

TAPE disse...

Texto PERFEITO E EMOCIONANTE!!!
DA-LHE MENGOOOOOOO!!!

Bolinho disse...

Brother, parabéns! você resumiu o pensamento de uma geração que, como eu, foi ao estádio em todos os jogos daquele ano, que gritou no Maraca "Tetracampeão" naquele dia e que nunca entendeu como essa monstruosidade toda começou a crescer.
Parabéns e um abraço!

Presidente disse...

Excelente artigo. Só achei que faltou mencionar Carlinhos, figura fundamental na condução desse timaço...

marilene dabus disse...

Caro Oswaldo, eu estava lá e vi o Flamengo ser campeão em 87 mas seu relato nos remete ao passado, ao prazer de levantar a taça novamente, não a das bolinhas, a verdadeira que Zico ostentou ao Brasil inteiro.
Sua crônica recupera um elo perdido pelo tempo, certeza da conquista que nenhum rubro-negro ou homem de bem esqueceu.
Um beijo, parabéns e saudações hexa
Marilene Dabus

Oswaldo Tinhorão disse...

Marilene, querida, seu comentário me encheu os olhos d'água, por vir de quem vem -- uma das maiores rubro-negras de sempre. Um grande beijo para você.

Affonso Romero disse...

Caro Tinhorão,
Comentava eu hoje numa lista que este reconhecimnto tardio da CBF de pouco ou nada valia, uma vez que eu vi este tetra ser conquistado, vi ser transformado em hexa, e eu não preciso de uma politicada do Ricardo Teixeira para saber o que meu Flamengo é.
Mas quer saber? Este reconhecimento oficial nos proporcionou o seu texto, e por si só já seria motivo de júbilo. Muito mais que um desabafo, muito além da comemoração e da explosão do grito contido, seu texto é uma aula de flamenguismo e de história para as novas gerações que não tiveram, como nós, a oportunidade de ver este time em campo. Obrigado.

Affonso Romero disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Que porra e essa, estava la naquela tarde de domingo chuvosa, ameaçada de nao haver jogo, mas estava la todo feliz da vida!! Estava la com 11 anos vendo bebeto fazendo o gol nas cadeiras azuis do maraca ! Estava La !valeu oswaldo ficou show seu post

saulo

Anônimo disse...

Que porra e essa, estava la naquela tarde de domingo chuvosa, ameaçada de nao haver jogo, mas estava la todo feliz da vida!! Estava la com 11 anos vendo bebeto fazendo o gol nas cadeiras azuis do maraca ! Estava La !valeu oswaldo ficou show seu post

saulo

Anônimo disse...

Que porra e essa, estava la naquela tarde de domingo chuvosa, ameaçada de nao haver jogo, mas estava la todo feliz da vida!! Estava la com 11 anos vendo bebeto fazendo o gol nas cadeiras azuis do maraca ! Estava La !valeu oswaldo ficou show seu post

saulo

Anônimo disse...

Só faltou referëncia ao banco de reservas... que tinha, entre outros, um jovem e talentosíssimo zagueiro que, por melhor que fosse, não tinha lugar no time...

Aldair...

nanda disse...

Obrigada!
Ser Flamengo é uma das melhores coisas do mundo!
Estou arrepiada.
Assim como fico ao ver minha torcida, A MAIOR E MAIS BELA, jogando com os 11.
E se isto desperta inveja, fazer o que?
Muda de time, invejoso!
Parabéns pelo texto e acima de tudo por SER FLAMENGO!

Clayton Ribeiro disse...

Sensacional, como sempre!
Minha reação foi de copiar o link e mandar pra minha lista de amigos rubro-negros. Todos nós, hexacampeões, merecemos ter essas grandes lembranças resgatadas por um texto foda como este!
Só falta, agora, levar a taça das bolinhas pra Gávea. Em troca, podem dar uma taça de duas bolinhas pros bambis. Assim, todos ficam felizes!
Parabéns!SRN.

Clayton Ribeiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
rabugento disse...

Show de bola a coluna. Será que tem interesses escusos.???

Anônimo disse...

nunca comentei em um post em toda minha vida, mas nesse me sinto na obrigacao:


que post lindo.

andreyzão disse...

PQP, irmão! Eu tava no maraca ainda molequinho de 6 anos no colo do meu pai, vendo o meu Mengão destruir o galo! E só não fui na final pq meu velho teve medo de me levar, de tão incomparavelmente grande que é nossa torcida! Chorei de emoção relembrando desses tempos... foda demais! SRN sempre!

Celia disse...

Texto maravilhoso...me emocionei!!!
Parabéns!!!
Eu sempre me considerei hexa, que agora foi merecidamente reconhecido!!! Demorou!!!
Saudações Rubro-Negras!!!

Gil Viana disse...

Excepcional!
Faço das tuas palavras, as minhas!
Tinha 12 anos em 87 e foi o segundo título que acompanhei do Mengão (carioca 86). Cara, muito tempo esperando para mandar todos tomarem no CU!
SRN

Anônimo disse...

PARABÉNS!! SEU POST LAVA NOSSA ALMA, EU ESTAVA LÁ!!! E PUDE VER NOSSO MARAVILHOSO TIME SER TETRA-CAMPEÃO!!! OBRIGADO POR ESCREVER TUDO O QUE TODA NAÇÃO RUBRO-NEGRA PENSA.

Denise disse...

Tinhorão é meu pastor e nada me faltará. Esse post só não é melhor do que o que esculacha a torcida do Galinho das Alterosas.
Mengo!!!!!

celio disse...

cara, uma vez Flamengo, sempre Flamengo. Somos HEXA e os loucos que morram de inveja.

Anônimo disse...

É isso aí Tinhorão...
Eu estava lá, naquele domingo chuvoso de 13 de dezembro de 1987. Na época, tinha 29 anos, e vivia o auge e o esplendor do inesquecível time que o Zico comandava, dentro e fora de campo.
Tínhamos saído 2(dois) ônibus do Bar Clipper, no Leblon, direto pro Maraca.
Foi inesquecível.

Primeiro TETRA, e primeiro PENTA, for ever!!!

Sacaneator disse...

PRIMEIRO LANTERNA DO FUTEBOL PROFISSIONAL DO RIO
Em 1933, seis clubes resolveram, finalmente, aderir ao profissionalismo: Fluminense, Vasco, América, Bangu, Bonsucesso e o Flamengo, que se juntou a eles na última hora. Os outros continuaram na entidade amadora. O campeonato dos profissionais foi então um marco na história do futebol, não só carioca como brasileiro. Sendo o profissionalismo um avanço irreversível, o campeão desta primeira competição guardaria para sempre o feito de ser o “primeiro campeão do futebol profissional do Rio de Janeiro”. O campeonato foi por pontos corridos, todos jogando contra todos em dois turnos, e o campeão seria o que somasse o maior número de pontos no total das duas fases. Ao final das 10 rodadas, o Bangu sagrou-se o grande campeão, com uma excelente campanha, digna do título. E no extremo oposto da tabela, quem estava? O Flamengo! Com uma campanha vergonhosa, digna das tradições que o timinho já cunhava naquela época, conseguiu perder 7 das 10 partidas que disputou e fechou sua participação segurando a lanterna. E um fato irônico dessa lanterna histórica foi que a última partida do campeonato ocorreu no dia do aniversário do Urubu, 15 de novembro. O Bangu, já campeão antecipado, goleou o América, que estava na vice-lanterna. Mas nem com essa ajudinha o Flamengo conseguiu se livrar da humilhação, pois já tinha encerrado sua participação, 10 dias antes, num empate com o Bonsucesso, que tinha lhe rendido a lanterna antecipada. E foi assim que o Flamengo conseguiu a incrível façanha de ser o “primeiro lanterna do futebol profissional do Rio de Janeiro”, disputando a primeira divisão do ano seguinte como convidado.

Anônimo disse...

e dizem q o sport num jogou contra o gaurani a vá ta sabendo legal


http://www.youtube.com/watch?v=WSi91pRnKE0&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=TtfhkkrF2YE

http://www.youtube.com/watch?v=GuZYekaRDj4