11 de set de 2003

FALTOU MÃE

“Zico é um caso raro no futebol. Como poucos conseguiu se colocar acima de rivalidade e bairrismo e se tornar quase unanimidade em todo o planeta. É mais fácil encontrar pessoas que questionem Pelé do que Zico.

Assim começa a excelente entrevista de Wagner Vilaron com o Zicão, publicada pelo Estado de São Paulo hoje. Vale muito a pena ler, sobretudo por uma explicação que, acho eu, o Zico nunca tinha dado: o episódio do corte do anão marrento, em 1998.

Conta o Galinho que foi ele quem pediu à comissão técnica que tivesse paciência com o anão, que esperassem algumas semanas para ver se ele se recuperava. Quando ficou claro que o marrentinho não teria condições de jogar a Copa, toda a comissão técnica tirou o corpo fora, com medo de dar a notícia ao mais insuportável de quantos jogadores vestiram a camisa amarela (e aí incluo gente finíssima do quilate de Marcelinho Carioca, Serginho Chulapa e Paulo César Caju).

“O problema é falar com ele? Então pode deixar. Fui lá e falei.” Pronto: o anão despeitado inventou aquela história estapafúrdia de que o corte foi perseguição do Zico -- conversa mole, aliás, prontamente reproduzida por alguns jornalistas assalariados (no sentido que Chateaubriand emprestava ao termo) do Rio, marionetes bem remuneradas da assessoria de imprensa do anão.

Sobre o maior de todos, o mais querido de todos disse o seguinte: “Essa história de ficar comparando com Pelé acabou com a carreira de muita gente. As pessoas levam isso a sério e acabam cobrando o jogador como se ele fosse mesmo o Pelé. É absurdo sujeitar um garoto a esse tipo de cobrança, de comparação. O cara não vai segurar a onda mesmo”.

Verdade, Zicão. Mas, se alguém um dia chegou perto disso, foi você, meu Rei.

Enquanto isso, eis aí o Ronaldinho a pedir estatísticas sobre os gols de Pelé e a fabricar factóides prontamente reproduzidos e defendidos por bobos-alegres da Folha (sempre a Folha). Numa seleta roda de amigos, disse eu que faltava ao Ronaldinho alguém como aquele soldado que acompanhava os generais romanos que regressavam triunfantes à Cidade Eterna. Ao lado do general hierático, estátua de si mesmo, ia um soldadinho soprando-lhe ao ouvido: “memento moris” -- lembra-te de que és mortal.

O Pelé não é, rapaz. Você é.

Se até o Zicão pode reconhecer, para que essa palhaçada agora?

Acho que não faltou o soldadinho, não. Faltou foi o bom-senso materno. Faltou quem dissesse: “Meu filho, pra que essa besteira? O que você ganha com isso?” Faltou mãe.

Dona Sônia, cadê a senhora?

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