16 de mar de 2010

O PAPELÃO DOS NOSSOS E A HISTERIA DOS RECALCADOS

Há muita viadagenzinha em torno dos dois episódios -- lamentáveis em si, diga-se de início -- envolvendo os rubro-negros Adriano e Vagner Love. Deixemos já assentado que eu não acho a menor graça em ver jogador do meu time confraternizando com bandido, que sou dos que subscrevem a tese de que bandido bom é, se não bandido morto, ao menos bandido preso, sem progressão de regime por bom comportamento e outras benesses que o constituinte canalha de 1988 consagrou, e que, no meu mundo ideal, a vida privada de jogador do Flamengo só seria objeto do noticiário para sabermos exatamente que vagabunda famosa ele anda furando. É deselegante, mas tem o efeito educativo de distinguir bem, aos olhos do público, o atleta do Flamengo de atletas do São Paulo e do Curíntia, mais chegados a ser furados (ou, com muito boa vontade, a furar o que não merece ser furado, no segundo caso).

Deixemos tudo isso assentado para que se não me acuse de estar defendendo o que não defendo. Como cidadão privado, torcedor do Clube de Regatas do Flamengo que sinceramente quer bem aos srs. Adriano Leite Ribeiro e Vagner Silva de Souza, fico triste e envergonhado pelo papelão que nos proporcionaram. E entendo e subscrevo as preocupações dos que acham que esse comportamento pode prejudicar o futebol do Flamengo -- pelo risco de rachar o elenco ou de os excessos comprometerem a boa forma física e mental de nossos atletas.

Dito tudo isso, permito-me voltar ao meu ponto inicial: há muita viadagenzinha em torno dos episódios envolvendo Adriano e Vagner Love. Não por parte de nossa torcida, que, como demonstrei, tem legitimidade para preocupar-se com os efeitos desse comportamento; nem por parte dos que, rubro-negros ou não, assumem o comportamento legítimo de lamentar que figuras públicas, admiradas por crianças e jovens, dêem o mau exemplo que estão dando.

Ultrapassados esses limites, no entanto, tudo o mais que se disse sobre esses dois casos foram manifestações mais ou menos explícitas de ódio e recalque pelo que o Flamengo e o Rio de Janeiro representam. Alguns foram muito mais inábeis (e muito mais engraçados) do que outros. É ler, por exemplo, o desabafo histérico do sr. Marco Aurélio d’Eça (que eu, até então, jamais vira mais gordo), intitulado O Flamengo parece um antro de marginais. Como expliquei, não conheço e nem pretendo conhecer o palpiteiro do site Imirante.com (patrocinado -- uma visita rápida à homepage o revela -- pelo governo da srª. Roseana Sarney), mas os que comentam a coluna dão conta de que se trata de vascaíno militante, como tal com a cabeça inchada desde domingo (ou desde Petkovic em 2001, ou desde Rodrigo Mendes em 1999, ou desde Rondinelli em 1978, de Valido em 1944, desde a inauguração da freguesia em 1923).

Trata-se, como se vê, de um pobre coitado, cujas sandices podem e devem ser relevadas por virem de quem vêm (um palpiteiro de um site absolutamente periférico, e ainda por cima vascaíno) e por estarem tão patentemente inspiradas pelo ódio e pelo recalque. É ler essa bobajada (e.g., “Adriano é um cachaceiro marginal e descontrolado”) e morrer de rir, pelo quanto o Flamengo continua incomodando um ex-rival diminuto a quem nós há muito não damos a menor pelota.

Noutra categoria se enquadra, no entanto, o sr. Reinaldo Azevedo. É inegável que se trata (façamos-lhe essa concessão) de formador de opinião, e de cujas opiniões, no mais das vezes, eu não discordo. Mas é paulista, e diria mais: trata-se do paulista quintessencial, o arquétipo do paulista, quase um Idealtypus -- um sujeito tão babaca que, no ano da Graça de 2010, ainda usa chapéu. Um sujeito tão acostumado a uma visão paulistocêntrica do mundo que é incapaz de enxergar as razões do ressentimento que o país nutre pelo arraial de São Paulo de Piratininga. Não é que discorde delas: ele simplesmente não as enxerga, e quando confrontado com elas sai-se com bobagens do gênero “a participação de São Paulo no PIB caiu na última década” (ignorando o fenômeno do boom das commodities, que aumentou a participação no PIB de estados como Goiás e Mato Grosso, de modo inteiramente alheio à vontade dos sucessivos governos chefiados por paulistas). Um sujeito que se pretende comentarista de política nacional, mas se permitiu ignorar quase por completo o grande assunto político, não diria da semana, mas do semestre, que é o roubo que o Deputado cassado Ibsen Pinheiro pretende perpetrar contra o Rio de Janeiro (Azevedo tratou do tema numa única coluna protocolar, que versava muito mais sobre o choro do Governador Sérgio Cabral do que sobre o assalto a unidade da Federação).

Não sei que preferências futebolísticas tem o sr. Reinaldo Azevedo, mas fico cá com a impressão de que se trata dessas figuras que não sabem quem é a bola, para usar uma imagem de Nelson Rodrigues. E, por se tratar do paulista quintessencial, o desprezo que mostra pelo Flamengo há de ser o desprezo que deve ter pelo Rio de Janeiro, que teima em constituir obstáculo à plena babaquização do Brasil sob a regência ilustrada de São Paulo. E o Flamengo é o Rio de Janeiro por metonímia.

Vejam a enormidade do que diz o sr. Azevedo: ele contesta a afirmação do Dr. Michel Asseff Filho segundo a qual Vagner Love é homem barbado e, portanto, livre para freqüentar o ambiente que bem entender, inclusive a Rocinha; contesta a opinião do advogado de que o Flamengo nada tem com as escolhas pessoais do atleta e opina que o jogador “desfilar em companhia de bandidos [...] é, sim, um problema [...] do Flamengo”.

Não sei que mecanismos lógicos o sr. Azevedo utilizou para chegar a essa conclusão, e a verdade é que já fiz suposições demais sobre o que o motiva neste caso. Fato é que ele não explica, além da platitude habitual segundo a qual é problema do Flamengo porque “o artilheiro do time mais popular do Brasil carrega a força da representação e do exemplo”. Não sei se acha que é problema do Flamengo porque acha que o Flamengo é time de bandido. Há 115 anos carregamos esse destino de ser o time mais popular em todas as camadas da população, dos santos aos bandidos. Mas Reinaldo Azevedo dixit, é problema do Flamengo, sim, e estamos conversados.

Sendo problema nosso, pergunto-me exatamente que medidas o sr. Reinaldo Azevedo pretende que tomemos. Que apliquemos uma multa ao Vagner Love por não cumprir a contento o papel de role model que esperamos dele, apesar de essa obrigação não estar prevista em contrato? Melhor: que rescindamos o contrato por isso? Que juiz trabalhista deste país o sr. Reinaldo Azevedo imagina que nos daria ganho de causa numa ou noutra hipótese, no inevitável processo que se seguiria?

Isso no que diz respeito ao Flamengo. Quanto ao Vagner Love, como bem observou o Dr. Asseff, trata-se de homem barbado capaz de fazer suas próprias escolhas. Ainda não nasceu, acho eu, o delegado ou promotor capaz de indiciá-lo ou processá-lo por gostar da companhia de bandidos armados. Que me conste, a conduta do Vagner Love não se enquadra em tipo penal algum, por mais desgosto que nos cause (e me causa particular desgosto, reitero). O sr. Marco Aurélio D’Eça há de discordar. Do alto de sua sabedoria jurídica, ele a qualifica ligeiramente como “associação para o tráfico”, ignorando que o tipo penal enquadra apenas e tão-somente a conduta nele descrita: “associarem-se duas ou mais pessoas para o fim de praticar, reiteradamente ou não, qualquer dos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1º, e 34” da Lei nº 11.343 de 2006 (o que, naturalmente, não abrange o ato de andar em companhia de, ou interagir amistosamente com bandidos armados). Mas quem é que dá a menor pelota para o que pensa o sr. Marco Aurélio D’Eça?

Com o sr. Reinaldo Azevedo o negócio é diferente. Justa ou injustamente, dão-se-lhe ouvidos, e, se não me importo com o que ele pensa ou deixa de pensar do Adriano e do Vagner Love, naturalmente não acho a menor graça em vê-lo criticar o Clube de Regatas do Flamengo por algo de que o clube não tem culpa no cartório. Ainda mais por ser paulista. Ainda mais por ser o paulista quintessencial.

Nada disto há de ser interpretado como contemporização minha com o comportamento, que acho reprovável, do Adriano como do Vagner Love. Mas os que bradam histericamente, como parece fazer o sr. Reinaldo Azevedo, por alguma medida drástica do clube contra seus atletas parecem ignorar que jogador de futebol, no Brasil, costuma vir de ambientes os mais difíceis. Que o fato de ganharem fortunas não necessariamente há de alterar, em essência, quem são, de onde vêm e com quem preferem interagir. E que quem pretender administrar futebol, no Brasil, ignorando essas verdades fundamentais estará flertando com o fracasso e a irrelevância. Dois pecados que não estão no DNA do Flamengo.

15 de mar de 2010

TINHORÃO EDUCATIVO

Esta tarde, enquanto ouvia o Flamengo bater mais uma vez o Vasquinho, eu me perguntava, entre um bocejo e outro, se ainda posso ser relevante. A pergunta, se revela uma modéstia inesperada neste cronista, ao menos tem lá sua razão de ser. Estou, afinal de contas, afastado do Brasil há vários anos, com acesso irregular às cousas do Mais Querido, e neste tempo todo surgiu gente de muito talento para defender as nossas cores nestas trincheiras da Internet.

Mais: meus últimos escritos não trataram propriamente de futebol. Representaram, antes, minha pequena contribuição no que eu julgava ser a batalha mais meritória em que um rubro-negro podia engajar-se, àquela altura: expor às mazelas da administração Kléber Leite e, com isso, fazer a minha parte para ajudar a extirpar da Gávea o maior câncer a acometer o Flamengo, em 115 anos de história.

O fato de, poucos meses depois de chutarmos de lá esse pulha, termos alcançado o mais improvável de nossos títulos prova que alguma razão me assistia. Se minha pequena contribuição ajudou ou não são outros quinhentos. Eu até acho que, pela importância do veículo onde eu escrevia, pelo grande público que atinge, algum bem terá feito. Eram argumentos sólidos que, nas mãos certas, podem ter contribuído para pôr as coisas em perspectiva.

Mas passou-se um ano desde então, o sr. Kléber Leite foi escorraçado para, Deus esteja, nunca mais voltar, o Flamengo é hoje hexacampeão do Brasil e parece ter tomado gosto de se medir com os inimigos que nos convém cultivar: a paulistada ignóbil, a freguesia recalcada de outras comarcas caipiras e, agora sim, os rivais latino-americanos, contra quem ainda temos muitas contas para acertar. Essa retomada da missão histórica do Flamengo parece ser comprovada, com sobras, com o choro do vascaíno que destaco para vosso deleite (ver o comentário n° 5).

Pois muito bem: em um ano as coisas mudaram para muito melhor, e há rubro-negros dos melhores, na Internet, esfregando a nossa grandeza irritante nos cornos da freguesia. Diante disso, tem alguma valia eu continuar a dar meus pitacos?

Pois eu suspeito que tem, pelo seguinte: eu tive a glória de estar no Maracanã na tarde de 6 de dezembro de 2009, e o que eu lá vi me emocionou em mais de um sentido. Não só pelo título que aguardávamos há dezessete anos, mas por tropeçar, a cada passo que dava, em pencas de rubro-negros que tinham menos de dezessete anos. Gente para quem um Júnior pulando feito criança, depois de decretar o Penta, há de ser uma referência quase tão distante quanto é, para mim, a de um Valido febril decretando um tri em cima das costas de um Argemiro.

Fato é que, naquela tarde memorável no Maracanã, eu de repente me senti velho. Nos meses que se seguiram, acompanhei, à distância, os debates que se instalaram sobre o nosso Hexa, e me dei conta de como grande parte dos inimigos também é composta de moleques. Moleques que cresceram sob a influência perniciosa da mídia paulista, que repetem as babaquices que aprenderam com um Milton Neves, um Neto, um Godoy, e que não têm a mais remota idéia de como eram as coisas antes desse hiato de dezessete anos.

E me dei conta de que, se alguma função meus escritos ainda podem ter, há de ser uma função educativa. Educativa para os nossos, que cresceram achando normal aspirar a, no máximo, um carioquinha em cima de Botafogo ou Vasco, e educativa para os outros, que repetem impunemente as bobagens que ouvem dos caipiras ascendidos a formadores de opinião.

Se o Flamengo de fato voltou às grandes ligas, nossa torcida precisa ajustar suas expectativas a essa realidade, abandonar os maus hábitos adquiridos em dezessete anos e ter sempre em vista o tamanho que o Flamengo pode ter. Graças a Deus não estou sozinho nessa empreitada. A bendita faixa que sentenciava que “o Brasileiro é obrigação” bem demonstra que quem viu o Flamengo grande não está disposto a deixar a molecada esquecer.

De modo que estou muito bem acompanhado nesta função de educador. E, se algo de novo eu posso trazer, há de ser uma intransigência incomum ao lidar com quem, hoje, é o nosso maior inimigo: a paulistada recalcada (tricoloucas sobretudo), que passou dezessete anos tripudiando do Flamengo mas, com um título apenas do Mais Querido, volta a encarar-nos com pânico.

Sinal de que toda a auto-estima que construíram, em dezessete anos, não é capaz de resistir ao menor triunfo rubro-negro.