13 de out de 2008

KARAKTER

Não pretendo pôr em discussão minha conclusão, que me parece óbvia, de que falta caráter a este time que hoje avilta o Manto Sagrado de Rondinelli, Dequinha, Valido, Almir, Beto Cachaça e Anselmo (enumeração que, para mim, é tão representativa das virtudes flamengas quanto uma que elenque Zico, Zizinho, Leônidas, Da Guia e Júnior). Aos bons rapazes que espernearam quando bati nessa tecla, alguns meses atrás, sugiro a leitura do seguinte artigo como pré-requisito para qualquer conversa. Os que concordarem comigo que é inaceitável ser goleado em casa, numa única temporada, pelo Ameriquinha do México, o São Paulo e o pavoroso Atlético Mineiro podem pular a leitura da bibliografia recomendada.

Reitero: mais que futebol, anda faltando caráter aos jogadores do Flamengo. Anda faltando aquele mínimo de orgulho e compostura que os da minha geração crescemos julgando indispensável para jogar na Gávea. Jogador nosso podia nem sempre ter a habilidade dum Adílio, dum Carlinhos ou dum Petkovic. O que não podia era, quando a chapa esquenta y las papas queman, dobrar-se diante da pressão que vem das arquibancadas. Podiam até perder, mas perdiam como os valentes que, em 1993, esfregaram nosso amor-próprio nos cornos de 60 mil são-paulinos em pleno Morumbi, com o golaço do Marquinhos.

Foi essa valentia, esse amor-próprio desmedido, mais do que a qualidade dos nossos atletas, que fez de nós um clube historicamente vencedor. Aquele do deixou chegar, fodeu. Aquele que, mais que craques, se orgulhava de formar campeões.

Contrastemos, agora, esse atributo dos ídolos rubro-negros -- o de vencedor -- com o currículo dos pilares do time de hoje do Flamengo.

Ibson vai a caminho dos 25 anos. Fora uns campeonatinhos cariocas e portugueses (na reserva), somados a uma Copa do Brasil (glória de que também se pavoneiam Criciúma, Juventude, Santo André, Paulista de Jundiaí e Sport Recife), Ibson não tem na carreira nenhum título digno de nota. Além disso, foi o único bípede a estar em campo nas duas maiores humilhações da história do Flamengo: o jogo contra o Santo André, em 2004, e o jogo contra o Ameriquinha do México. Não fosse pela idade, era capaz de ter jogado também contra o Bonsucesso, em 1968.

Léo Moura tem 30, e joga profissionalmente há 12 anos. Além do Flamengo, defendeu times da expressão do São Paulo, do Palmeiras, do Fluminense e do Vasco. Seu palmarès: dois campeonatinhos cariocas, uma Copa do Brasil.

Juan tem quase 27 anos. A distingui-lo dos anteriores, tem no currículo uma Copa da Inglaterra, pelo Arsenal, um charmoso prêmio de consolação para quem não ganhou nem a Premiership, nem a Liga dos Campeões. De resto, a mesma enganação de carioquinhas e Copas do Brasil.

O próprio Fábio Luciano, provectos 33 anos bem vividos, tido e havido por aí como grande vencedor, não tem lá no currículo muito mais do que os outros, não. Um campeonato nacional, sim, mas da Turquia. Carioquinhas, paulistinhas e duas Copas do Brasil. E o caça-níqueis de verão da FIFA de janeiro de 2000. Brasileiros, Libertadores e Mundiais, zero.

Reconheçamos o mérito de Kléberson, titular da seleção pentacampeã e campeão brasileiro pelo Atlético Paranaense. Passemos ao largo de Jaílton, de quem não se espera mesmo grande coisa, do esforçado Angelim e de Toró, que só tem 22 anos (mas costuma perder a cabeça nos momentos decisivos). Passemos ao largo de Obina, que andou garantindo o pouco que andamos conquistando, e do recém chegado Marcelinho Paraíba, que tampouco tem lá uma sala de troféus digna de nota. E farei todo o esforço do mundo para não falar do frangueiro Bruno, 23 anos, que um dia recrimina o Márcio Braga por acreditar no time, no outro debocha da nossa inteligência dizendo que “temos de continuar acreditando no título”.

Registrando essa única e honrosa exceção do Kléberson, limitemo-nos aos demais pilares do time -- Ibson, Léo Moura, Juan e Fábio Luciano -- e constatemos que ali não tem nenhum grande vencedor. Não digo que seja a hora de botar os quatro para fora a pontapés, mas talvez tenha chegado o momento, sim, de avaliar quão importantes eles realmente são para o time. Na hora de mostrar coragem e caráter, nenhum dos quatro jamais acrescentou muita coisa. Foram tão úteis quanto o instável Toró, a dar patadas em gandulas quando o que precisávamos era de cabeça fria.

E com líderes como esses, que falharam toda e cada vez que a torcida sentiu que o jogo era decisivo, era previsível que a participação do Flamengo no Brasileiro de 2008 terminasse de forma melancólica, como foram todas as nossas participações de 1993 para cá, exceção feita, talvez, a 2007.

Com o caráter dessa gente, temo que não comemoremos nem mesmo o prêmio de consolação da vaga na Libertadores, que eles jamais fizeram por merecer.

***

Claro, o meu mau humor com essa mulambada não há de ser pretexto para eu esquecer que, entre tantos perdedores a vestir o Manto, há um que se sobressai por cima de todos os demais. Dirigiu o futebol do Flamengo por sete longos anos e nunca conquistou nada digno de nota. Fora o jogo contra o Santo André, sua presença nefasta terá contribuído para a maior parte das tragédias que se abateram sobre nós de 1995 para cá: o gol de barriga do Renato e a conseqüente demissão do futuro campeão brasileiro de 2008, Vanderlei Luxemburgo (e de 1993, 1994, 1998, 2003 e 2004); o pior ataque do mundo e o sem-ter-nada no mesmo ano; a devolução dos ingressos contra a Portuguesa e a volta olímpica gremista debaixo das nossas barbas, em 1997; a humilhação da carreata vascaína em frente da nossa sede, em 1998, sem que tivéssemos força sequer para reagir (não na sua gestão); os chocolates uruguaios do Nacional e do inexpressivo Defensor, a suprema humilhação diante do Ameriquinha do México, as goleadas em casa diante do São Paulo e do pavoroso Atlético Mineiro, em 2008.

Em todos esses episódios funestos houve o dedo do sr. Kléber Leite. Sete anos à frente do Flamengo e nenhum título expressivo. Nos últimos três, é certo, com apertos financeiros para os quais a sua própria gestão imprevidente, entre 1995 e 1998, terá contribuído enormemente. Mas, por grandes que sejam as nossas dificuldades de caixa, não concebo que sejam maiores que as de times que ontem mesmo estavam na segunda divisão, como o Palmeiras e o Grêmio, hoje aí lutando pelo título brasileiro.

Coisa que o Flamengo de Kléber Leite -- qualquer Flamengo de Kléber Leite -- foi sempre incapaz de fazer.