16 de mar. de 2010

O PAPELÃO DOS NOSSOS E A HISTERIA DOS RECALCADOS

Há muita viadagenzinha em torno dos dois episódios -- lamentáveis em si, diga-se de início -- envolvendo os rubro-negros Adriano e Vagner Love. Deixemos já assentado que eu não acho a menor graça em ver jogador do meu time confraternizando com bandido, que sou dos que subscrevem a tese de que bandido bom é, se não bandido morto, ao menos bandido preso, sem progressão de regime por bom comportamento e outras benesses que o constituinte canalha de 1988 consagrou, e que, no meu mundo ideal, a vida privada de jogador do Flamengo só seria objeto do noticiário para sabermos exatamente que vagabunda famosa ele anda furando. É deselegante, mas tem o efeito educativo de distinguir bem, aos olhos do público, o atleta do Flamengo de atletas do São Paulo e do Curíntia, mais chegados a ser furados (ou, com muito boa vontade, a furar o que não merece ser furado, no segundo caso).

Deixemos tudo isso assentado para que se não me acuse de estar defendendo o que não defendo. Como cidadão privado, torcedor do Clube de Regatas do Flamengo que sinceramente quer bem aos srs. Adriano Leite Ribeiro e Vagner Silva de Souza, fico triste e envergonhado pelo papelão que nos proporcionaram. E entendo e subscrevo as preocupações dos que acham que esse comportamento pode prejudicar o futebol do Flamengo -- pelo risco de rachar o elenco ou de os excessos comprometerem a boa forma física e mental de nossos atletas.

Dito tudo isso, permito-me voltar ao meu ponto inicial: há muita viadagenzinha em torno dos episódios envolvendo Adriano e Vagner Love. Não por parte de nossa torcida, que, como demonstrei, tem legitimidade para preocupar-se com os efeitos desse comportamento; nem por parte dos que, rubro-negros ou não, assumem o comportamento legítimo de lamentar que figuras públicas, admiradas por crianças e jovens, dêem o mau exemplo que estão dando.

Ultrapassados esses limites, no entanto, tudo o mais que se disse sobre esses dois casos foram manifestações mais ou menos explícitas de ódio e recalque pelo que o Flamengo e o Rio de Janeiro representam. Alguns foram muito mais inábeis (e muito mais engraçados) do que outros. É ler, por exemplo, o desabafo histérico do sr. Marco Aurélio d’Eça (que eu, até então, jamais vira mais gordo), intitulado O Flamengo parece um antro de marginais. Como expliquei, não conheço e nem pretendo conhecer o palpiteiro do site Imirante.com (patrocinado -- uma visita rápida à homepage o revela -- pelo governo da srª. Roseana Sarney), mas os que comentam a coluna dão conta de que se trata de vascaíno militante, como tal com a cabeça inchada desde domingo (ou desde Petkovic em 2001, ou desde Rodrigo Mendes em 1999, ou desde Rondinelli em 1978, de Valido em 1944, desde a inauguração da freguesia em 1923).

Trata-se, como se vê, de um pobre coitado, cujas sandices podem e devem ser relevadas por virem de quem vêm (um palpiteiro de um site absolutamente periférico, e ainda por cima vascaíno) e por estarem tão patentemente inspiradas pelo ódio e pelo recalque. É ler essa bobajada (e.g., “Adriano é um cachaceiro marginal e descontrolado”) e morrer de rir, pelo quanto o Flamengo continua incomodando um ex-rival diminuto a quem nós há muito não damos a menor pelota.

Noutra categoria se enquadra, no entanto, o sr. Reinaldo Azevedo. É inegável que se trata (façamos-lhe essa concessão) de formador de opinião, e de cujas opiniões, no mais das vezes, eu não discordo. Mas é paulista, e diria mais: trata-se do paulista quintessencial, o arquétipo do paulista, quase um Idealtypus -- um sujeito tão babaca que, no ano da Graça de 2010, ainda usa chapéu. Um sujeito tão acostumado a uma visão paulistocêntrica do mundo que é incapaz de enxergar as razões do ressentimento que o país nutre pelo arraial de São Paulo de Piratininga. Não é que discorde delas: ele simplesmente não as enxerga, e quando confrontado com elas sai-se com bobagens do gênero “a participação de São Paulo no PIB caiu na última década” (ignorando o fenômeno do boom das commodities, que aumentou a participação no PIB de estados como Goiás e Mato Grosso, de modo inteiramente alheio à vontade dos sucessivos governos chefiados por paulistas). Um sujeito que se pretende comentarista de política nacional, mas se permitiu ignorar quase por completo o grande assunto político, não diria da semana, mas do semestre, que é o roubo que o Deputado cassado Ibsen Pinheiro pretende perpetrar contra o Rio de Janeiro (Azevedo tratou do tema numa única coluna protocolar, que versava muito mais sobre o choro do Governador Sérgio Cabral do que sobre o assalto a unidade da Federação).

Não sei que preferências futebolísticas tem o sr. Reinaldo Azevedo, mas fico cá com a impressão de que se trata dessas figuras que não sabem quem é a bola, para usar uma imagem de Nelson Rodrigues. E, por se tratar do paulista quintessencial, o desprezo que mostra pelo Flamengo há de ser o desprezo que deve ter pelo Rio de Janeiro, que teima em constituir obstáculo à plena babaquização do Brasil sob a regência ilustrada de São Paulo. E o Flamengo é o Rio de Janeiro por metonímia.

Vejam a enormidade do que diz o sr. Azevedo: ele contesta a afirmação do Dr. Michel Asseff Filho segundo a qual Vagner Love é homem barbado e, portanto, livre para freqüentar o ambiente que bem entender, inclusive a Rocinha; contesta a opinião do advogado de que o Flamengo nada tem com as escolhas pessoais do atleta e opina que o jogador “desfilar em companhia de bandidos [...] é, sim, um problema [...] do Flamengo”.

Não sei que mecanismos lógicos o sr. Azevedo utilizou para chegar a essa conclusão, e a verdade é que já fiz suposições demais sobre o que o motiva neste caso. Fato é que ele não explica, além da platitude habitual segundo a qual é problema do Flamengo porque “o artilheiro do time mais popular do Brasil carrega a força da representação e do exemplo”. Não sei se acha que é problema do Flamengo porque acha que o Flamengo é time de bandido. Há 115 anos carregamos esse destino de ser o time mais popular em todas as camadas da população, dos santos aos bandidos. Mas Reinaldo Azevedo dixit, é problema do Flamengo, sim, e estamos conversados.

Sendo problema nosso, pergunto-me exatamente que medidas o sr. Reinaldo Azevedo pretende que tomemos. Que apliquemos uma multa ao Vagner Love por não cumprir a contento o papel de role model que esperamos dele, apesar de essa obrigação não estar prevista em contrato? Melhor: que rescindamos o contrato por isso? Que juiz trabalhista deste país o sr. Reinaldo Azevedo imagina que nos daria ganho de causa numa ou noutra hipótese, no inevitável processo que se seguiria?

Isso no que diz respeito ao Flamengo. Quanto ao Vagner Love, como bem observou o Dr. Asseff, trata-se de homem barbado capaz de fazer suas próprias escolhas. Ainda não nasceu, acho eu, o delegado ou promotor capaz de indiciá-lo ou processá-lo por gostar da companhia de bandidos armados. Que me conste, a conduta do Vagner Love não se enquadra em tipo penal algum, por mais desgosto que nos cause (e me causa particular desgosto, reitero). O sr. Marco Aurélio D’Eça há de discordar. Do alto de sua sabedoria jurídica, ele a qualifica ligeiramente como “associação para o tráfico”, ignorando que o tipo penal enquadra apenas e tão-somente a conduta nele descrita: “associarem-se duas ou mais pessoas para o fim de praticar, reiteradamente ou não, qualquer dos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1º, e 34” da Lei nº 11.343 de 2006 (o que, naturalmente, não abrange o ato de andar em companhia de, ou interagir amistosamente com bandidos armados). Mas quem é que dá a menor pelota para o que pensa o sr. Marco Aurélio D’Eça?

Com o sr. Reinaldo Azevedo o negócio é diferente. Justa ou injustamente, dão-se-lhe ouvidos, e, se não me importo com o que ele pensa ou deixa de pensar do Adriano e do Vagner Love, naturalmente não acho a menor graça em vê-lo criticar o Clube de Regatas do Flamengo por algo de que o clube não tem culpa no cartório. Ainda mais por ser paulista. Ainda mais por ser o paulista quintessencial.

Nada disto há de ser interpretado como contemporização minha com o comportamento, que acho reprovável, do Adriano como do Vagner Love. Mas os que bradam histericamente, como parece fazer o sr. Reinaldo Azevedo, por alguma medida drástica do clube contra seus atletas parecem ignorar que jogador de futebol, no Brasil, costuma vir de ambientes os mais difíceis. Que o fato de ganharem fortunas não necessariamente há de alterar, em essência, quem são, de onde vêm e com quem preferem interagir. E que quem pretender administrar futebol, no Brasil, ignorando essas verdades fundamentais estará flertando com o fracasso e a irrelevância. Dois pecados que não estão no DNA do Flamengo.

15 de mar. de 2010

TINHORÃO EDUCATIVO

Esta tarde, enquanto ouvia o Flamengo bater mais uma vez o Vasquinho, eu me perguntava, entre um bocejo e outro, se ainda posso ser relevante. A pergunta, se revela uma modéstia inesperada neste cronista, ao menos tem lá sua razão de ser. Estou, afinal de contas, afastado do Brasil há vários anos, com acesso irregular às cousas do Mais Querido, e neste tempo todo surgiu gente de muito talento para defender as nossas cores nestas trincheiras da Internet.

Mais: meus últimos escritos não trataram propriamente de futebol. Representaram, antes, minha pequena contribuição no que eu julgava ser a batalha mais meritória em que um rubro-negro podia engajar-se, àquela altura: expor às mazelas da administração Kléber Leite e, com isso, fazer a minha parte para ajudar a extirpar da Gávea o maior câncer a acometer o Flamengo, em 115 anos de história.

O fato de, poucos meses depois de chutarmos de lá esse pulha, termos alcançado o mais improvável de nossos títulos prova que alguma razão me assistia. Se minha pequena contribuição ajudou ou não são outros quinhentos. Eu até acho que, pela importância do veículo onde eu escrevia, pelo grande público que atinge, algum bem terá feito. Eram argumentos sólidos que, nas mãos certas, podem ter contribuído para pôr as coisas em perspectiva.

Mas passou-se um ano desde então, o sr. Kléber Leite foi escorraçado para, Deus esteja, nunca mais voltar, o Flamengo é hoje hexacampeão do Brasil e parece ter tomado gosto de se medir com os inimigos que nos convém cultivar: a paulistada ignóbil, a freguesia recalcada de outras comarcas caipiras e, agora sim, os rivais latino-americanos, contra quem ainda temos muitas contas para acertar. Essa retomada da missão histórica do Flamengo parece ser comprovada, com sobras, com o choro do vascaíno que destaco para vosso deleite (ver o comentário n° 5).

Pois muito bem: em um ano as coisas mudaram para muito melhor, e há rubro-negros dos melhores, na Internet, esfregando a nossa grandeza irritante nos cornos da freguesia. Diante disso, tem alguma valia eu continuar a dar meus pitacos?

Pois eu suspeito que tem, pelo seguinte: eu tive a glória de estar no Maracanã na tarde de 6 de dezembro de 2009, e o que eu lá vi me emocionou em mais de um sentido. Não só pelo título que aguardávamos há dezessete anos, mas por tropeçar, a cada passo que dava, em pencas de rubro-negros que tinham menos de dezessete anos. Gente para quem um Júnior pulando feito criança, depois de decretar o Penta, há de ser uma referência quase tão distante quanto é, para mim, a de um Valido febril decretando um tri em cima das costas de um Argemiro.

Fato é que, naquela tarde memorável no Maracanã, eu de repente me senti velho. Nos meses que se seguiram, acompanhei, à distância, os debates que se instalaram sobre o nosso Hexa, e me dei conta de como grande parte dos inimigos também é composta de moleques. Moleques que cresceram sob a influência perniciosa da mídia paulista, que repetem as babaquices que aprenderam com um Milton Neves, um Neto, um Godoy, e que não têm a mais remota idéia de como eram as coisas antes desse hiato de dezessete anos.

E me dei conta de que, se alguma função meus escritos ainda podem ter, há de ser uma função educativa. Educativa para os nossos, que cresceram achando normal aspirar a, no máximo, um carioquinha em cima de Botafogo ou Vasco, e educativa para os outros, que repetem impunemente as bobagens que ouvem dos caipiras ascendidos a formadores de opinião.

Se o Flamengo de fato voltou às grandes ligas, nossa torcida precisa ajustar suas expectativas a essa realidade, abandonar os maus hábitos adquiridos em dezessete anos e ter sempre em vista o tamanho que o Flamengo pode ter. Graças a Deus não estou sozinho nessa empreitada. A bendita faixa que sentenciava que “o Brasileiro é obrigação” bem demonstra que quem viu o Flamengo grande não está disposto a deixar a molecada esquecer.

De modo que estou muito bem acompanhado nesta função de educador. E, se algo de novo eu posso trazer, há de ser uma intransigência incomum ao lidar com quem, hoje, é o nosso maior inimigo: a paulistada recalcada (tricoloucas sobretudo), que passou dezessete anos tripudiando do Flamengo mas, com um título apenas do Mais Querido, volta a encarar-nos com pânico.

Sinal de que toda a auto-estima que construíram, em dezessete anos, não é capaz de resistir ao menor triunfo rubro-negro.

13 de nov. de 2009

O BOM FILHO A CASA TORNA

Eu sei, todos nós temos preocupações mais nobres com que nos ocupar, e nos dias que correm o Brasil inteiro acompanha, fascinado, a epopéia rubro-negra lá no alto da tabela. Mas os amigos hão de perdoar esta minha frescura de não falar no assunto, para não atrapalhar a sorte, e dirigir minha atenção por um momento ao fundo da tabela.

Amigos, parece que agora é oficial: o pavoroso tricolor pernambucano (preto, vermelho, amarelo, combinação de inexcedível mau gosto), o lamentável Sport Club do Recife acaba de conquistar um lugarzinho em seu habitat natural, em 2010: a segunda divisão. Antes que me acusem de diminuir indevidamente o antipático Ixpó, só me permitam assinalar que são eles mesmos que o confessam, ao bordar duas estrelinhas douradas e uma prateada em cima de seu escudo: a prateada para a Copa do Brasil de 2008, as outras duas para 1987 e 1990.

Digam o que quiserem de 1987, a mim me parece que festejar essa conquista com uma estrela igualzinha à que recorda a segunda divisão de 1990 é gesto dos mais eloqüentes: denuncia que, no fundo, eles lá sabem a real importância do “título” de que ainda hoje se pavoneia o irrelevante Homero Lacerda. A confissão de parte, relevo de prova.

Pois muito bem. Caiu o Sport, e em vez de fazer passeatinhas histéricas a sua minúscula torcida devia era regozijar-se pela chance de bordar outra estrelinha na camisa, que são as únicas a seu alcance: as da segunda divisão. (Essas e as da Copa do Brasil, um torneio tão irrelevante que andou sendo vencido por agremiações do quilate do Criciúma, Juventude, Paulista de Jundiaí e Santo André. E do Sport, claro.)

Dirão os senhores que estou sendo muito duro com quem nunca pôde aspirar seriamente rivalizar com o Flamengo, e que só existe no mapa como nota de rodapé a recordar a esculhambação que era a CBF de Nabi Abi Chedid e Otávio Pinto Guimarães. É possível, e eu mesmo admito que a melhor receita para lidar com essa gente exótica é a que o meu amigo Arthur Muhlenberg batizou de o maluco do ônibus: o torcedor do Sport é como o bêbado ou o doido que se senta ao nosso lado no ônibus, e em seguida começa a pronunciar incongruências sobre o clima, o crime, la vie, l’amour et la mort. É fingir que não é com a gente e vamos embora.

Mas eu sou um escroto, e teimo em achar que quem, com onze perebas inapeláveis, pretende usurpar a glória de Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho, Leonardo, Andrade, Aílton, ZICO, Renato, Bebeto e Zinho (dez jogadores de seleção, contra nenhum deles) -- quem tem essa pachorra precisa que lhe esfreguem na cara, vez por outra, a sua própria insignificância. E que ocasião melhor que esta?

Além dos motivos propriamente futebolísticos, há os outros, cívicos. Sem jamais ter alcançado um único feito de que o Nordeste possa orgulhar-se, essa malta resolve tratar-nos de “vergonha do Nordeste”. Em seu provincianismo míope, não lhes ocorre que um pernambucano, cearense ou potiguar possa sentir-se acima de tudo brasileiro, e expressar sua brasilidade na mais nacional de todas as instituições, que é o Clube de Regatas do Flamengo. Flamengo onde o Nordeste sempre encontrou motivos para orgulhar-se de si mesmo e de suas contribuições à grandeza pátria, na figura de um Júnior (paraibano), um Dida ou um Zagallo (alagoanos), um Nunes, Aldair, Toninho, Bebeto ou Obina (baianos), um Ronaldo Angelim (cearense), um Dequinha (potiguar), um Iranildo ou Almir (pernambucanos).

Desafio o Sport escalar seleção nordestina semelhante!

Fato é que, descontada a ignorância sobre os méritos alheios, só pode considerar os demais como “vergonha do Nordeste” quem se arroga condições de orgulhar a toda a região. Está longe de ser o caso do pavoroso Sport Club do Recife, que só pôde pretender comparar-se aos grandes quando quis levar na mão grande um título que tem dono, e é do Flamengo. Dirão os paranóicos e os ressentidos que há muito de preconceito nessa indiferença unânime de todo o Brasil à gloríola do Sport em 1987. Essa gente existe às pencas na Ilha do Retiro, e atinge orgasmos cívicos ao som de “Nordeste Independente”. Fosse verdade, no entanto, e o Brasil inteiro não se lembraria com carinho da epopéia do Bahia em 1988, o Bahia de Bobô, Charles e Zé Carlos, o primeiro clube nordestino a sagrar-se campeão brasileiro, passando pelo Fluminense e pelo Internacional. E pelo Sport.

Mas hoje nem é preciso lembrar 1987 para negar ao Sport qualquer pretensão de orgulhar a Pernambuco ou ao Nordeste. Basta lembrar que, nos delírios de grandeza dessa choldra, 2009 era o ano de ouro, o annus mirabilis do Sport. O ano em que, vestido de camisa dourada, o valoroso Leão do Norte avançaria, irresistível, pela Libertadores e plantaria a bandeira pernambucana no centro do gramado de Tóquio (ou dos Emirados Árabes, onde seja).

Calhou que, se algum simbolismo tinha a camisa dourada, era apenas a lembrança do Módulo Amarelo, da segunda divisão, onde o Sport se sente em casa e aonde agora regressa, bom filho que é. Para, quem sabe, bordar mais uma estrelinha amarela no peito, em dezembro de 2010.

17 de jun. de 2009

GUERRA À MEDIOCRIDADE

Pode-se extrair algo de positivo da recente seqüência de catástrofes (que ninguém sabe dizer se já acabou)? De positivo, nada, que ninguém aqui há de ficar contente quando o Flamengo nos envergonha. Nem mesmo os que, como eu ou o Lucas Dantas, tivemos de arcar com as acusações mais injustas -- de “corneteiros” a “antiflamengos” -- por assinalar as carências evidentes desse Flamengo. De mais a mais, não há figura mais irritante, nas derrotas, do que o pessimista que desanda a falar “eu-te-disse”.

Mas, se prazer não nos dá, ao menos permite desacreditar alguns mitos que há anos a gente vê repetidos por aí, às vezes por rubro-negros da melhor cepa (outras, nem tanto). O principal deles é a conversa mole de que, aconteça o que acontecer, estamos “melhor que em 2005” -- a data mágica em que o sr. Kléber Leite ressurgiu do ostracismo para, segundo a versão, salvar o Flamengo do rebaixamento, montar times competitivos e fazer-nos aspirar a coisa melhorzinha do que escapar da segundona.

Para quem tinha olhos de ver, a falsidade desse argumento já devia ser evidente ao final da temporada passada. Não só pela maneira vergonhosa como ficamos de fora das brigas pelo título e pela Libertadores -- indícios de que o time tinha estacionado num patamar indigno do Flamengo --, mas sobretudo pela declaração inacreditável, para quem não compactua com a mediocridade, de que a “prioridade” para 2009 era o campeonatinho carioca. Discrepâncias à parte sobre o valor do carioquinha, elegê-lo como prioridade não é comportamento de quem aspira à grandeza.

Fato é que, com apenas seis jogos disputados, eu conheço rubro-negro que já anda fazendo conta de quanto falta para escaparmos do rebaixamento (para quem quiser manter o cômputo, faltam 38 pontos em 32 jogos). Queira Deus que essa precaução não seja necessária e que, ao final do primeiro turno, estejamos aí mais ou menos onde estamos, graças ao Patético Paranaense e ao todo-poderoso Santo André. Mas mesmo esse cenário desacredita a tese furada de que o sr. Kléber Leite fez deste um Flamengo protagonista.

Outro mito que cai é o do valor do nosso elenco. Esqueçamos os que argumentam, com a cara mais lavada deste mundo, que até o jogo contra o Sport tudo vinha bem, porque “jogamos melhor” que o Internacional e o Cruzeiro (quando a única definição válida de “melhor”, em futebol, é fazer mais gols que o adversário). Concentremo-nos nos não-piadistas que viam esse time bater (aliás, empatar) no Botafoguinho e viam aí material humano bastante para bater no São Paulo ou no Inter. Quantos destes já começaram a rever seus conceitos? Mais importante: quantos destes já põem em questão a sabedoria da decisão (de quem? de quem?) de “manter a base” que tanto desgosto nos deu, em 2008, assim como se falasse dos juniores de 1990?

Senhores, estive lendo os comentários aos últimos posts. Mais do que a insistência de alguns em ainda defender o sr. Kléber Leite, chama a atenção a freqüência com que os esclarecidos se rendem à resignação: sim, o Flamengo de hoje é uma zona, e o principal culpado é o Kléber Leite, mas de que me adianta ter certeza disso se, no fim do ano, uma centena de sócios vai reconduzi-lo ao mando ou eleger coisa igualmente ruim?

Eu queria poder oferecer uma palavra de alento a esses torcedores, mas hesito. Tenho a mesma confiança que eles na sabedoria de um sócio do Flamengo diante de uma urna. Ainda assim, não posso deixar de ter uma pontinha de esperança ao ver um rubro-negro dos melhores como o meu querido Arthur Muhlenberg subscrever, no espaço exíguo de uma semana, duas das teses que eu vinha defendendo aqui, de maneira inglória: (1) que, com Bruno, Leo Moura e Juan (eu ainda acrescentei o Ibson), este Flamengo tem uma espinha dorsal de perdedores, de atletas falhos de caráter, e é preciso escorraçá-los da Gávea o quanto antes; e (2) que, mais que derrubar treinador, é chegada a hora de botar na rua quem escolhe treinador e compra e vende jogador (o Arthur, muito mais elegante que eu, prefere não dar nome aos bois, mas eu aponto à execração pública os srs. Kléber Leite e Plínio Serpa Pinto).

Assim como o Arthur, vejo muita gente boa, aqui mesmo neste espaço, gente que antes discordava de mim (às vezes enfaticamente), hoje defender as mesmas coisas que eu venho defendendo há pelo menos um ano.

Se essa consciência crescente é capaz de influenciar o torcedor que vota, eu não sei. Eu às vezes desconfio de que o sócio do Flamengo é impérvio à argumentação racional. Mas talvez, antes de perdermos de vez a esperança e deixarmos o Flamengo apequenar-se dia a dia nas mãos de Kléber Leites e quetais, talvez valha a pena um último esforço. É preciso ser implacável ao assinalar a culpa central do sr. Kléber Leite no apequenamento do Flamengo, de 1995 para cá. Recordar aos indecisos, sempre que possível, a seqüência de vexames que começou lá com o pior ataque do mundo e não terminou nunca mais. Desmontar cada um dos mitos em que essa gente se escora -- “melhor que 2005”, “melhor que o Edmundo”, “melhor que Barros e Biscotto” -- e assegurar que o Flamengo pode ter um futuro melhorzinho do que isso. E, sobretudo, nunca, jamais compactuar com a mediocridade.

Hoje, muito mais gente está convencida disso do que ontem. Se conseguirmos a adesão de alguma organizada, tanto melhor, mas não alimentemos ilusões. Se cada um fizer a sua parte, se for intransigente e explícito em seu ódio, só a força das nossas convicções há de ser irresistível até mesmo para o mais alienado dos sócios-eleitores.

Fora, Kléber Leite!

5 de mai. de 2009

TRAGAM DE VOLTA A FAIXA

Os Virgílios e Homeros do carioquinha hão de me dar licença para falar do tema fastidioso dos oito meses que nos restam de temporada. Muito bem, ganhamos o pentatri e até eu, descrente que sou do valor desses certames municipais, me emociono com a nossa torcida se emocionando. Celebro a nossa torcida celebrando, e não há reação mais rubro-negra que esta.

Passado, no entanto, o deslumbramento com a nossa festa, sou tomado pelo impulso sádico de ir aos blogs botafoguenses para vê-los espernear. E constato, mortificado, aquilo que eu já sabia: bater nessa gente é covardia, tripudiar deles depois deve ser até pecado, e me desculpem se eu não me sinto bem vendo o Flamengo comportar-se como o peso-pesado que se compraz em trocar sopapos com pesos-pluma. Mengão has been boxing way below its weight, se me permitem.

Polêmicas à parte sobre o valor atual do carioquinha, o que não devia ser objeto de debate é que, valioso ou não, o estadual é menos que suficiente para as aspirações e tradições de um time do tamanho do Flamengo. Digo isso porque, infelizmente, os sinais que recebemos da Gávea, passados dois dias da conquista, são no mínimo equívocos.

Muito bem, o Cuca pôs a putada para treinar já na segunda-feira, e, ainda que tenha sido só um recreativo, não poderia haver sinal melhor do que este de que o time do Cuca não quer repetir a experiência amarga do time do Joel, na quarta-feira seguinte ao título.

Ou poderia? No dia seguinte, eis que o goleiro Bruno vem a público dizer que aprendeu a valorizar o carioquinha, “ainda mais um tri”. O grave, no caso, não é o que ele disse, mas o contraste com sua declaração anterior de que “acho que o estadual é muito pouco [...] pelo que a gente faz e pelo que é cobrado durante o ano: quero algo mais”. Difícil evitar a impressão de que o porta-voz e agora líder do time está conformado com o carioquinha, e espera que a torcida esteja igualmente conformada. A impressão sai fortalecida pelo fato de ele estar pagando agora todas as promessas acumuladas ao longo dos vexames de 2008, a ser honradas quando ganhássemos “um título importante”.

Além do Bruno, também o nefasto Kléber Leite teria vindo a público (não achei a fonte) afirmar que “a prioridade, agora, é o tetra”, assim como afirmara em dezembro que “a prioridade, agora, é o tri”. Como assim, sr. Vice-Presidente? E esse intervalo de oito, nove meses entre hoje e o começo do carioquinha 2010?

Vindo de quem tem a chave do cofre, a declaração é muito mais grave do que a de quem só aspira a, de vez em quando, fechar o gol. Porque deixa a suspeita de que, se planejamento há na Gávea (uma hipótese, admito, generosa), todos os outros objetivos ficam subordinados à prioridade maior de ser tetracampeão estadual, contra botafogos e fluminenses. Admitido isso, está justificado desfigurarem o time na primeira janela de transferências, igualzinho em 2008, para montarem um novo time para frutificar dali a seis meses -- com resultados iguaizinhos aos de 2008.

Aos que enxergam em tri ou tetracarioquinhas o supra-sumo da glória, me desculpem, mas esse não é o Flamengo que eu cresci reverenciando. E se há mais gente em nossa torcida que pensa como eu (e eu suspeito que haja muita), fica aqui o apelo a quem de direito: tirem do armário, imediatamente, aquela faixa do “Brasileiro é obrigação”.

A faixa, é verdade, foi confeccionada num momento de supremo emputecimento com o time, logo depois de um estadual desses que hoje neguinho trata como a consagração definitiva. Mas ressuscitá-la hoje não tem por que ser interpretado como um ato hostil aos jogadores que, até aqui, no que vai de 2009, estão com crédito. É ato meramente preventivo, só um lembrete ao Bruno e aos seus futuros comandados de que, gratidão à parte pelo pentatri, nós esperamos mais deles.

Se possível, ressuscitem a faixa já para o jogo de amanhã, contra o Fortaleza. Eu cá suspeito que o que nós virmos em campo, no Ceará, há de ser um aperitivo do que o time nos reserva no que resta de 2009. E resta uma eternidade.

18 de abr. de 2009

O FLAMENGO DO LEONARDO E O FLAMENGO DO KLÉBER LEITE

Reconheço de antemão que este é um momento complicado para eu tornar a dar as caras aqui. Às vésperas de uma final da Taça Rio, que muita gente boa acredita ser grandes merdas, minha conhecida impaciência com os pernas-de-pau que hoje compõem o Flamengo (jogadores e dirigentes, cada um na sua área) há de ser motivo suficiente para que se me acuse de corneteiro. Paciência.

Vou passar ao largo da pelada de domingo, cuja única serventia é a de permitir-nos passar à frente de um rival de dimensões meramente municipais numa competição idem. Tudo bem, há quem se emocione com essas coisas.

Se rompo meu silêncio de quatro meses para falar agora é porque fui levado a isso pelos recentes pronunciamentos do Leonardo, de uma lucidez atordoante. Não que a essência do que ele diz constitua grande novidade. Leonardo vem defendendo algo assim como a privatização do Flamengo há pelo menos seis anos. A única coisa que mudou agora foi a repercussão da coisa, com faniquitos histéricos de quem tem culpa no cartório por o Flamengo ter-se tornado essa instituição que só aspira ganhar campeonatinhos cariocas.

Nas poucas rodas em que me é dado opinar sobre assuntos rubro-negros, tenho defendido idéias semelhantes às do Leonardo há não pouco tempo. Ao mesmo tempo, confesso que há muito sinto certa exasperação com o Leonardo a cada vez que o ouço bater na mesma tecla, como que numa discussão meramente acadêmica, sem envolver-se minimamente na briga política indispensável para levar o projeto adiante. Ele lá alega que a estrutura viciada do Flamengo inviabilizaria de antemão qualquer esforço seu nesse sentido. Mas defende-se afirmando que tem conversado a respeito com dirigentes do clube. Em resumo: o valoroso Leonardo parece esperar que a mesma estrutura viciada que ele denuncia, por pura e simples persuasão racional, produza as mudanças que permitam a privatização do Flamengo.

Muito bem. Sem deixar de subscrever essas críticas que fiz ao Leonardo, sou forçado a reconhecer que, desta vez, o nosso valoroso ex-camisa 4 conseguiu algo realmente produtivo. Muito pela forma radical como se expressou -- a manchete d’O Globo era “Abre o clube, vende o Flamengo” --, pôs o tema na agenda de todo o mundo disposto a pensar o Flamengo para além da escalação do próximo jogo. Os conseqüentes ataques de pelanca dos dinossauros que ainda hoje comandam o clube ajudaram a dar ainda maior credibilidade à proposta: tornam patente que os mais enfáticos na oposição à idéia são justamente os personagens que fazem do Flamengo o que ele é hoje.

É pena que, em suas declarações posteriores, Leonardo tenha tentado contemporizar com o que ele próprio, na entrevista ao Globo, chamou de “estrutura viciada”. Reconhece abnegação e boas intenções nos que se ofenderam tanto com suas palavras e suas idéias. No entanto, um pouco mais adiante, não sei se por desatenção ou por extrema habilidade, pôs em questão todas essas boas intenções ao denunciar o pouco-caso com que a atual gestão deitou a perder o salva-vidas da Timemania: “Por que que o Flamengo foi inadimplente? Porque ele sabe que não vai dar nada. A dívida vai só aumentar, vai passar para o próximo Presidente e vambora e a gente vai.”

Diante de juízos assim incisivos, os que hoje esperneiam em público deviam refletir se de fato convém dar a cara a tapa, assumindo a culpa por ter tornado a endividar o clube sem nem ao menos trazer qualquer título de expressão em troca. Cá do meu lado, eu dou graças a Deus por esses personagens darem a cara a tapa. Quanto mais espernearem, tanto mais os termos da discussão assumem os seguintes contornos: que Flamengo você quer no futuro, o do Leonardo ou o do Kléber Leite?

Diante de uma discussão dessa transcendência, qualquer coisa que aconteça no domingo devia ser mera nota de rodapé na história rubro-negra.

15 de dez. de 2008

DESCONSTRUINDO KLÉBER

Os poucos leitores que me restaram terão percebido que ando repetitivo. É verdade, e sou o primeiro a admitir. Desde aquele trágico 7 de maio de 2008 que ando cá com duas idéias fixas: que o Flamengo não voltará a ganhar nada importante enquanto tiver à frente o sr. Kléber Leite, o maior perdedor a administrar o clube em 113 anos de história; e que este time específico do Flamengo só fez agravar essa tendência porque era composto, em sua maioria, de atletas falhos de caráter, gente dada a tremer ou a perder o foco na hora das decisões.

Sobre o segundo tema, creio ter dito tudo o que eu tinha a dizer no meu comentário de 13 de outubro. Sobre o primeiro, para desalento de quem não me agüenta mais aqui, devo ter material para muitas colunas mais. Paciência.

Com o Brasileiro terminado, era de se esperar que o Flamengo não fosse mais motivo de chacota até pelo menos o começo do estadual. A incompetência e a fanfarronice do sr. Kléber Leite, no entanto, permitiram que fôssemos humilhados publicamente por um clube de segunda e por um ser humano de quinta. Mais adiante, na tentativa de criar-se um factóide que aplacasse a fúria da torcida, nossa sapiente diretoria acabou expondo ainda mais o atual desprestígio do Flamengo, esnobado agora pelo Parreira.

Essa patacoada convenceu-me de que todo rubro-negro esclarecido tem a obrigação de, sempre que puder, botar seu grãozinho de areia para enfraquecer o nosso atual Vice-Presidente de Futebol. Pode ser tarefa inglória, porque essa gente acha que, no final das contas, só deve satisfação à meia dúzia de sócios que os elegeu. Mas eu quero crer que a pressão das ruas e das arquibancadas, se perdurar no tempo, pode jogar o sr. Kléber Leite no mesmo ostracismo a que o condenaram os resultados de sua pífia gestão, em 1998.

Minha modesta contribuição de hoje é uma tentativa de desacreditar o argumento do ruim com ele, pior sem ele.

Em reação a minhas colunas anteriores, alguns leitores sustentaram que a eventual queda do sr. Kléber Leite traria de volta, imediatamente, o mesmo escrete de pesadelos que andou causando estragos na Gávea, em passado recente: um Anderson Barros, um Gérson Biscotto, um Walter Oaquim. Ou isso ou os usual suspects derrotados a cada eleição, uma lista cuja simples enumeração deveria ser suficiente para convencer-nos todos a deixar as coisas como estão na Gávea.

Isso tudo me parece, francamente, terrorismo psicológico do mais baixo. É claro que a perspectiva de ver o Flamengo entregue a essas alternativas me é tão desagradável quanto a qualquer outro rubro-negro em plena posse de suas faculdades mentais. Mas, se de algo nos servem as lições da História, fato é que, recentemente, quando defrontado com um vazio de poder -- após a cassação do sr. Edmundo dos Santos Silva --, o clube encontrou sabedoria suficiente para entregar seus destinos a um Hélio Ferraz. Não é santo de minha devoção, mas, diante das enormes vulnerabilidades do Flamengo de então, fez uma gestão muito melhor do que a encomenda.

Mas esse argumento não ataca a falha fundamental do ruim com ele, pior sem ele. Essa falha é a suposição de que o sr. Kléber Leite é tão patentemente melhor que essa gente que não é preciso nem começar a discutir.

A quem acredita nisso, desculpe lá: eu discuto.

Nos poucos círculos onde me era dado opinar sobre assuntos rubro-negros, eu mesmo cansei de bater nos tais Barros e Biscotto enquanto afundavam o Flamengo, no anterior mandato do sr. Márcio Braga. Achava-os e acho-os duas nulidades que só fizeram diminuir ainda mais o nosso prestígio minguante, enquanto o sr. Márcio Braga se dedicava a outras coisas. Também é fato que, depois deles, o Flamengo, que até então se limitava a brigar para não cair, passou a aspirar a coisas melhorzinhas.

O erro está em creditar essa perspectiva de algo melhorzinho -- se não ganhar o Brasileiro, ao menos classificar-se para a Libertadores -- à gestão do sr. Kléber Leite.

Kléber Leite assumiu o futebol do clube quando Márcio Braga estava em vias de implementar o grande projeto de sua administração: a Timemania. Para quem não entendeu o óbvio, o caça-níqueis tem pouquíssimo a ver com a possibilidade de gerar receita nova ao clube, e muito a ver com a nossa briga para derrubar as limitações legais e judiciais a continuarmos recebendo o que nos é devido, por força do contrato de patrocínio com a Petrobras.

Isso a Timemania resolveu e, uma vez assinado o acordo de adesão à loteria, e uma vez obtidas as correspondentes certidões negativas, o Flamengo pôde voltar a receber o dinheirinho da Petrobras, uma de nossas principais fontes de receitas. O resultado, que o torcedor desavisado não vê, é que coube ao sr. Kléber Leite administrar o futebol rubro-negro num aperto financeiro muito menor do que as alternativas tétricas de Barros e Biscotto.

Isto não torna o sr. Kléber Leite automaticamente pior do que os dois patetas que entregaram o futebol rubro-negro ao sr. Eduardo Uram, em 2004 e 2005. Mas quero crer que nos permite ao menos questionar o argumento de que é inquestionavelmente melhor. Se obteve resultados menos ruinzinhos, foi com recursos muito mais abundantes do que seus antecessores.

***

Enquanto o amigo leitor toma o tempo de concluir se concorda comigo ou não, aproveito a oportunidade para lançar as seguintes perguntas:

(1) O sr. Eduardo Uram continua exercendo, no Flamengo de Kléber Leite, tanta influência quanto exerceu no Flamengo de Anderson Barros e Gerson Biscotto? Quanto do nosso elenco atual é composto de jogadores seus?

(2) Se o contrato com a Petrobras revelou-se ruinoso para o clube, por que cazzo o Flamengo acaba de renovar com a companhia? Nossa sapiente diretoria acredita que esse arranjo capenga da Timemania durará para sempre? Não tiveram acesso às mesmas informações postadas há poucas horas pelo Hermínio Correa no FlamengoNet?

(3) Uma vez esgotado o prazo de carência da Timemania, a partir de janeiro próximo, teremos de complementar com receitas próprias a diferença entre a parcela devida ao Tesouro e os valores arracadados com a loteria. Como fará o sr. Kléber Leite para administrar o Flamengo a partir de então? Se, em temos de vacas um tanto mais gordinhas, os resultados de sua gestão foram pífios, como será em época de vacas magras?

Perguntar ofende?

8 de dez. de 2008

J’ACCUSE

Muito bem, sr. Márcio Braga. A tragédia consumou-se ontem, e foi na sua gestão. Construir a hegemonia no Brasil custou doze anos, do golaço sem ângulo do João Danado ao Vovô-Garoto pulando enlouquecido, mais garoto que vovô. Destruí-la revelou-se tarefa muito mais difícil: levou dezesseis anos, e manda a justiça que se registrem aqui, com nome e sobrenome, os autores de tão bonita façanha: Luiz Augusto Velloso, Kléber Leite, Edmundo dos Santos Silva, Hélio Ferraz, Márcio Braga e de novo Kléber Leite -- passando ao largo de figurinhas menores como um Walter Oaquim, um Gilmar Rinaldi, um Anderson Barros, um Gerson Biscotto, um Michel Assef.

Como desgraça pouca é bobagem, a perda da hegemonia veio acompanhada da desclassificação do Flamengo para a Libertadores de 2009, após um ano marcado por alguns dos maiores vexames dos 113 anos de história flamenga. Não vou dar-me o trabalho de enumerá-los de novo. Basta-me registrar que, nos seis anos em que o Flamengo foi direta ou indiretamente administrado pelo sr. Kléber Leite, perdeu algo que fazia parte da sua essência: o mito do Maracanã como nossa bastilha inexpugnável.

Isso, senhor Presidente, é incomensuravelmente mais grave do que o São Paulo nos ultrapassar em número de títulos, e muito mais difícil de consertar. Pelos séculos dos séculos, toda vez que tivermos de decidir o que quer que seja nos nossos domínios, não há de faltar, do lado inimigo, quem cite o passeio do Ameriquinha do México como prova de que o Maraca lotado não deve meter medo em ninguém. E isto, senhor Presidente, é obra sua também.

O que me embasbaca, senhor Presidente, é o seguinte: estando ambos, eu e o senhor, de acordo em que o que aconteceu foi uma tragédia, e tendo ela se consumado na sua gestão, por que é que o senhor não toma atitudes, já nem digo para minorá-la, mas ao menos para punir os principais responsáveis?

Nos últimos dois ou três anos nos acostumamos a esse arranjo extravagante pelo qual o senhor reina mas não governa, e todos os atributos concretos do mando estão concentrados nas mãos do sr. Kléber Leite. Por conta disso, submetemos o Flamengo de novo a todos os vícios que marcaram o período negro entre 1995 e 1998, e que em 2008 cobraram um tributo tão pesado sobre o nosso desempenho em campo.

Ao apelarmos, de novo, à “engenharia financeira” do sr. Kléber Leite para montar times mais-ou-menos, submetemo-nos de novo ao fenômeno que arruinou as nossas chances de ser campeões este ano: o desmonte de cada time a cada “janela de contratações” aberta (e o próprio sr. Kléber Leite parece concordar com isso, como se não fosse obra sua, no triste balanço que faz de um ano esquecível).

Ou o senhor acha que um Kléberson por € 1,5 milhão vem sem condicionantes ocultos? Acha que é um fenômeno que não guarda a menor relação com o parcelamento dos direitos federativos sobre um Renato Augusto? A cada mês, uma fração maior desses direitos termina nas mãos dos mesmos intermediários que possibilitaram a vinda do Kléberson por € 1,5 milhão.

O senhor disse que o Flamengo só é forte quando monta times com maioria de jogadores made in Gávea. Não se trata aqui de concordar ou discordar do senhor. Trata-se de perguntar-lhe por que cazzo permite que seu Vice de Futebol persiga uma estratégia que vai contra tudo em que o senhor acredita. O Renato Augusto de hoje é o Sávio de ontem (que foi embora, recordemo-nos, na “engenharia financeira” que nos permitiu trazer o Romário pela enésima vez, mais um Rodrigo Fabbri e outros perebas que, juntos, não ganharam nada digno de registro no Flamengo). E, a menos que o senhor faça algo, o Renato Augusto de hoje será o Kaike de amanhã.

Que Flamengo made in Gávea, senhor Presidente, resiste à “engenharia financeira” do sr. Kléber Leite?

É esse Flamengo, de times que duram seis meses, de times sem empatia com a torcida, montados para ganhar campeonatinho carioca em cima dos fregueses de sempre, é esse Flamengo que o senhor pretende deixar a seu sucessor?

Pior: o senhor pretende mesmo fazer seu sucessor o sujeito que idealizou esse Flamenguinho movido a muita “engenharia financeira” e títulos nenhuns? Pretende mesmo aviltar ainda mais, com esse gesto, o belo legado que tinha construído entre 1977 e 1992?

O seu herdeiro-aparente já anda anunciando por aí que a prioridade, para 2009, é o campeonatinho carioca, e que para conquistá-lo “temos algumas coisas interessantes engatilhadas, mas com prazos curtos”. Não é que eu seja contra ganhar o carioca, muito menos contra reforçar um time que, por todos os parâmetros, se revelou um time de merda. O que me pergunto é se essa nova “engenharia financeira” não nos deixará ao deus-dará novamente em agosto ou setembro, passada a conquista de um estadual que cada vez acrescenta menos à nossa grandeza minguante.

O sr. Kléber Leite, eu sei, foi regularmente eleito junto com o senhor. Mas eu quero crer que, sendo o senhor Presidente e ele apenas Vice de Futebol, o senhor ainda guarda para si a autoridade suprema que lhe foi conferida pelos sócios. Autoridade bastante para cortar as asinhas de seu Vice de Futebol e desviar o Flamengo de uma anunciada rota de fracassos, em tudo semelhante à que o clube percorreu entre 1995 e 1998, sob a nefasta direção desse senhor.

Por último, eu quero crer que o senhor ainda guarda lucidez suficiente para, ao longo deste ano, apresentar-nos uma alternativa melhorzinha para gerir o Flamengo a partir de 2010. Eu cá achava, até recentemente, que o Flamengo era uma força da natureza. Hoje, eu não sei se resiste a uma terceira administração Kléber Leite.

13 de out. de 2008

KARAKTER

Não pretendo pôr em discussão minha conclusão, que me parece óbvia, de que falta caráter a este time que hoje avilta o Manto Sagrado de Rondinelli, Dequinha, Valido, Almir, Beto Cachaça e Anselmo (enumeração que, para mim, é tão representativa das virtudes flamengas quanto uma que elenque Zico, Zizinho, Leônidas, Da Guia e Júnior). Aos bons rapazes que espernearam quando bati nessa tecla, alguns meses atrás, sugiro a leitura do seguinte artigo como pré-requisito para qualquer conversa. Os que concordarem comigo que é inaceitável ser goleado em casa, numa única temporada, pelo Ameriquinha do México, o São Paulo e o pavoroso Atlético Mineiro podem pular a leitura da bibliografia recomendada.

Reitero: mais que futebol, anda faltando caráter aos jogadores do Flamengo. Anda faltando aquele mínimo de orgulho e compostura que os da minha geração crescemos julgando indispensável para jogar na Gávea. Jogador nosso podia nem sempre ter a habilidade dum Adílio, dum Carlinhos ou dum Petkovic. O que não podia era, quando a chapa esquenta y las papas queman, dobrar-se diante da pressão que vem das arquibancadas. Podiam até perder, mas perdiam como os valentes que, em 1993, esfregaram nosso amor-próprio nos cornos de 60 mil são-paulinos em pleno Morumbi, com o golaço do Marquinhos.

Foi essa valentia, esse amor-próprio desmedido, mais do que a qualidade dos nossos atletas, que fez de nós um clube historicamente vencedor. Aquele do deixou chegar, fodeu. Aquele que, mais que craques, se orgulhava de formar campeões.

Contrastemos, agora, esse atributo dos ídolos rubro-negros -- o de vencedor -- com o currículo dos pilares do time de hoje do Flamengo.

Ibson vai a caminho dos 25 anos. Fora uns campeonatinhos cariocas e portugueses (na reserva), somados a uma Copa do Brasil (glória de que também se pavoneiam Criciúma, Juventude, Santo André, Paulista de Jundiaí e Sport Recife), Ibson não tem na carreira nenhum título digno de nota. Além disso, foi o único bípede a estar em campo nas duas maiores humilhações da história do Flamengo: o jogo contra o Santo André, em 2004, e o jogo contra o Ameriquinha do México. Não fosse pela idade, era capaz de ter jogado também contra o Bonsucesso, em 1968.

Léo Moura tem 30, e joga profissionalmente há 12 anos. Além do Flamengo, defendeu times da expressão do São Paulo, do Palmeiras, do Fluminense e do Vasco. Seu palmarès: dois campeonatinhos cariocas, uma Copa do Brasil.

Juan tem quase 27 anos. A distingui-lo dos anteriores, tem no currículo uma Copa da Inglaterra, pelo Arsenal, um charmoso prêmio de consolação para quem não ganhou nem a Premiership, nem a Liga dos Campeões. De resto, a mesma enganação de carioquinhas e Copas do Brasil.

O próprio Fábio Luciano, provectos 33 anos bem vividos, tido e havido por aí como grande vencedor, não tem lá no currículo muito mais do que os outros, não. Um campeonato nacional, sim, mas da Turquia. Carioquinhas, paulistinhas e duas Copas do Brasil. E o caça-níqueis de verão da FIFA de janeiro de 2000. Brasileiros, Libertadores e Mundiais, zero.

Reconheçamos o mérito de Kléberson, titular da seleção pentacampeã e campeão brasileiro pelo Atlético Paranaense. Passemos ao largo de Jaílton, de quem não se espera mesmo grande coisa, do esforçado Angelim e de Toró, que só tem 22 anos (mas costuma perder a cabeça nos momentos decisivos). Passemos ao largo de Obina, que andou garantindo o pouco que andamos conquistando, e do recém chegado Marcelinho Paraíba, que tampouco tem lá uma sala de troféus digna de nota. E farei todo o esforço do mundo para não falar do frangueiro Bruno, 23 anos, que um dia recrimina o Márcio Braga por acreditar no time, no outro debocha da nossa inteligência dizendo que “temos de continuar acreditando no título”.

Registrando essa única e honrosa exceção do Kléberson, limitemo-nos aos demais pilares do time -- Ibson, Léo Moura, Juan e Fábio Luciano -- e constatemos que ali não tem nenhum grande vencedor. Não digo que seja a hora de botar os quatro para fora a pontapés, mas talvez tenha chegado o momento, sim, de avaliar quão importantes eles realmente são para o time. Na hora de mostrar coragem e caráter, nenhum dos quatro jamais acrescentou muita coisa. Foram tão úteis quanto o instável Toró, a dar patadas em gandulas quando o que precisávamos era de cabeça fria.

E com líderes como esses, que falharam toda e cada vez que a torcida sentiu que o jogo era decisivo, era previsível que a participação do Flamengo no Brasileiro de 2008 terminasse de forma melancólica, como foram todas as nossas participações de 1993 para cá, exceção feita, talvez, a 2007.

Com o caráter dessa gente, temo que não comemoremos nem mesmo o prêmio de consolação da vaga na Libertadores, que eles jamais fizeram por merecer.

***

Claro, o meu mau humor com essa mulambada não há de ser pretexto para eu esquecer que, entre tantos perdedores a vestir o Manto, há um que se sobressai por cima de todos os demais. Dirigiu o futebol do Flamengo por sete longos anos e nunca conquistou nada digno de nota. Fora o jogo contra o Santo André, sua presença nefasta terá contribuído para a maior parte das tragédias que se abateram sobre nós de 1995 para cá: o gol de barriga do Renato e a conseqüente demissão do futuro campeão brasileiro de 2008, Vanderlei Luxemburgo (e de 1993, 1994, 1998, 2003 e 2004); o pior ataque do mundo e o sem-ter-nada no mesmo ano; a devolução dos ingressos contra a Portuguesa e a volta olímpica gremista debaixo das nossas barbas, em 1997; a humilhação da carreata vascaína em frente da nossa sede, em 1998, sem que tivéssemos força sequer para reagir (não na sua gestão); os chocolates uruguaios do Nacional e do inexpressivo Defensor, a suprema humilhação diante do Ameriquinha do México, as goleadas em casa diante do São Paulo e do pavoroso Atlético Mineiro, em 2008.

Em todos esses episódios funestos houve o dedo do sr. Kléber Leite. Sete anos à frente do Flamengo e nenhum título expressivo. Nos últimos três, é certo, com apertos financeiros para os quais a sua própria gestão imprevidente, entre 1995 e 1998, terá contribuído enormemente. Mas, por grandes que sejam as nossas dificuldades de caixa, não concebo que sejam maiores que as de times que ontem mesmo estavam na segunda divisão, como o Palmeiras e o Grêmio, hoje aí lutando pelo título brasileiro.

Coisa que o Flamengo de Kléber Leite -- qualquer Flamengo de Kléber Leite -- foi sempre incapaz de fazer.

11 de ago. de 2008

TEM CULPA NÓS?
OU “DA NECESSIDADE DE SER XIITAS”.


Compromissos profissionais impediram-me de voltar a pronunciar-me sobre o Flamengo desde o meu último palpite azedo, datado de 22 de junho, há quase dois meses. De lá para cá, as tribulações do nosso time e as trapalhadas do sr. Kléber Leite bem demonstraram que o meu mau humor tinha razão de ser.

Seguiram-se três vitórias, é verdade, que deixaram o Flamengo bem posicionado para cumprir a sua obrigação, que é ser campeão brasileiro. Depois disso, no entanto, enquanto o nosso sapiente Vice de Futebol desmontava o time e deixava o pobre Caio Júnior sem um único meia-armador, desandamos a perder e a empatar, despencando da primeira para a sétima posição e praticamente jogando no lixo as chances de levantar o caneco.

Depois dessa seqüência, 2008 passa a ser um anozinho mais-ou-menos como outro qualquer, com a perspectiva, quando muito, de voltarmos à Libertadores no ano que vem. É preciso ir muito longe no tempo, talvez a 1979, para encontrar outra ocasião em que desperdiçamos de maneira tão flagrante um título que parecia tão bem encaminhado. Só que, ao contrário do elenco atual, o de 1979 acabou demonstrando que tinha caráter e estava em condições de vestir o Manto Sagrado. O time de hoje, até prova em contrário, é só o time que foi eliminado em casa pelo Ameriquinha do México.

Por tudo isso me parece inadmissível que, depois do Bruno, agora me venha o sr. Ibson Barreto da Silva apontar o dedinho para a torcida, em sinal de cobrança. Cobrar o quê de nós? O cidadão Ibson tem dito, para quem quiser ouvir, que acha “brincadeira” o comportamento da torcida, e que, “quando a gente mais precisa da torcida, em vez de nos apoiar, ela nos critica”.

Que tal invertermos os termos da equação e perguntarmos ao cidadão Ibson o que ele e seus companheiros fizeram quando nós, a torcida, mais precisamos deles? Quando acalentávamos o sonho de conquistar a Libertadores, enchemos o Maraca e não deixamos de apoiar, o que foi que Ibson e seus companheiros fizeram? Quando os perdoamos (a meu ver, prematuramente) pela trapalhada de 7 de maio e voltamos a empurrar o time, sonhando com um título brasileiro, o que foi que Ibson e seus companheiros fizeram?

A torcida do Flamengo acostumou mal demais esse bando. Fazem o que fizeram -- ou o que não fizeram -- contra o América e se acham no direito de esperar o mesmo tratamento do time de 1981. Jogam no lixo o título brasileiro de 2008 e querem ser recebidos com carreatas e discurso no aeroporto, qual a seleção de 1958.

Não quero ser injusto e deixar de apontar à execração pública o principal responsável pela débâcle, o sr. Kléber Leite. É dele, mais do que do time que nos restou, a culpa pela perda do título, e não há Marcelinho Paraíba ou Leandro Gracián capaz de reverter a tragédia a esta altura do campeonato, com o Flamengo em sétimo.

Mas é preciso dar o tratamento que corresponde também a esse bando que maltrata a bola com a camisa que foi do Zico, do Júnior, do Leônidas, do Dida. Muito bem, ganharam do poderoso, do multicampeão, do mundialmente festejado Atlético Paranaense e acham que esfregaram seu valor na cara da torcida. Na boa: ou somos todos mulher de malandro ou não é essa exibiçãozinha de sábado que nos fará voltar ao Maraca e apoiar essa gente como se nada tivesse acontecido, de 7 de maio para cá. A torcida do Flamengo precisa tratá-los com indiferença e hostilidade até provarem que são homens, que têm caráter, e possam reconquistar o nosso respeito com títulos.

Outros clubes aí têm feito muito mais do que o nosso sem a exuberância da nossa torcida, com uma torcida às vezes gélida, às vezes hostil. Se alguma culpa cabe a nós, torcedores, pela presente irrelevância do Flamengo (como, aliás, andou bostejando o sr. Kléber Leite logo depois do 7 de maio), é por perdoarmos fácil demais. Sejamos intransigentes, sejamos xiitas na nossa obstinação, e só voltemos a tratar os nossos atletas com carinho quando eles voltarem a conquistar o Brasileiro.

Que, nunca é demais lembrar, é obrigação.




22 de jun. de 2008

ADVERTÊNCIA DE QUEM NÃO DEVE NADA A NINGUÉM

Escrevo estas linhas antes do Flamengo x Ipatinga desta tarde. Pode ser que o resultado do jogo sirva para diminuir um pouco meu mau-humor e, conseqüentemente, a tornar meio descabida esta minha coluna. Oxalá.

Não sei como essas coisas são decididas, se há uma terapia de grupo comandada pelo sr. Caio Júnior ou se simplesmente o inefável Kléber Leite (homem de imprensa, no final das contas) baixa uma instrução e todo o grupo passa a repeti-la. Mas, de umas semanas para cá, fato é que todo o mundo, na Gávea, passou a repetir que a hecatombe de 7 de maio de 2008 “já é passado”, “é página virada”, “nós já até esquecemos”, e que o negócio agora é o Brasileiro.

Essa auto-complacência dos que foram os autores de um dos maiores vexames da história rubro-negra engendra situações insólitas. Como o atrevimento do goleiro Bruno ao criticar a torcida do Flamengo por pegar no pé do Jaílton. Em reportagem recente, o camisa um adverte, em tom de ameaça, que “se a torcida continuar desse jeito, não vamos conquistar o Brasileiro”. E ainda se acha no direito de dar lições a quem carrega, no inconsciente, a lembrança de um Andrade, um Uidemar ou um Biguá na mesma posição que o limitado peixe do Ney Franco: “ele é muito importante para o time, não é possível que [a torcida] não consiga entender isso”.

Perdão. Deve ter alguma coisa no meio do caminho que eu não entendi. Mas a torcida fez a parte dela naquela noite trágica de 7 de maio -- coisa que Bruno e seus companheiros não fizeram. O mesmo se diga do sábado passado, quando finalmente parecia que tinha chegado o momento de voltar a apoiar o time: nós voltamos a comparecer, e Bruno e seus colegas voltaram a ser goleados dentro de casa, por time estrangeiro, diante das barbas perplexas de 50 mil rubro-negros.

Portanto, se alguém está em condições de dar advertências aqui, não é nem Bruno nem qualquer um dos membros do atual elenco. A torcida do Flamengo nunca deixou de comparecer e de apoiar quando se precisou dela. Os jogadores, sim, falharam quando precisaram provar que não eram apenas um time à altura do Campeonato Carioca. Ao contrário de Bruno, ninguém aqui na torcida esqueceu disso, e eu próprio não posso deixar de concluir que as tribulações pessoais do goleiro -- que agora se compraz em bater boca com tricolores -- não se devem a outra coisa senão à incompetência, sua e de seus companheiros, em seguir adiante na Libertadores e impedir que o Fluminense chegasse aonde chegou.

Até admito que não deve ser saudável os jogadores ficarem remoendo eternamente o que aconteceu contra o América. Bola para a frente, que o Brasileiro é obrigação. Mas simplesmente esquecer, como neguinho anda dizendo que esqueceu, tampouco me parece produtivo. Acaba dando nisso aí: nos responsáveis por um dos maiores vexames da história rubro-negra agindo como se não tivessem nada a provar à torcida.

E vocês, ó Bruno, ainda têm muito o que provar a esta torcida, que não precisa provar nada a ninguém.

15 de jun. de 2008

DUAS DÉCADAS DE FREGUESIA

Foi no ano da Graça de 1988, há duas décadas completas. O Presidente da República atendia pelo nome de José Ribamar Sarney, mas ninguém tinha votado nele: não se votava para Presidente havia exatos 28 anos. A União Soviética estava viva e bulindo, e o Muro de Berlim era um impávido colosso. Em Roma, para se ter uma idéia de quanto tempo faz, Sua Santidade, o Papa João Paulo II, ainda se fazia chamar "o Papa-Atleta". O aiatolá Khomeini era figurinha fácil nos noticiários, e seus cornos furibundos estampavam uma bandeira insólita da Torcida Jovem do Flamengo ("a bênção, aiatolá / nosso povo te abraça").

Cá no Brasil, a moeda da semana era o cruzado, mas não ia demorar a ser substituída pelo cruzado novo. Em Brasília, 559 ilustrados cavalheiros (entre eles o sr. Márcio Braga) elaboravam uma Constituição que legislou até sobre o Colégio Pedro II, e que estabelecia bases tão sólidas para o desenvolvimento nacional que teve de ser emendada 62 vezes em vinte anos. O Prefeito da mui leal e heróica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro era o sr. Roberto Saturnino Braga, que um belo dia, com a cara mais lavada deste mundo, decretou a falência do município que ele próprio administrava.

Por esses dias, assunto de mulher era a novela Mandala, com uma Vera Fischer inteiraça a merecer as melhores homenagens dos que andávamos pela casa dos doze, treze anos. Ouviam-se coisas esquisitas no rádio, do gênero A-Ha, RPM ou Suzanne Vega -- que cantava, segundo consta, sobre uma moça a quem apetecia levar porradas do namorado. Havia também The Killing Moon, do Echo and the Bunnymen, e o excelente The Joshua Tree, do U2, para equilibrar um pouco a coisa.

No esporte, fora do futebol, o grande ídolo pátrio era Ayrton Senna da Silva, que muito em breve conquistaria seu primeiro campeonato mundial. Houve também espaço para os quinze minutos de Aurélio Miguel Fernández, o único brasileiro a voltar da Coréia com uma medalha de ouro no pescoço.

No futebol, Diego Maradona e Ruud Gullit disputavam o posto de melhor do mundo, e aqui ainda reinava soberano, apesar do joelho, Sua Majestade, o Rei Arthur Antunes Coimbra. O técnico da seleção brasileira era Carlos Alberto Silva, cujas grandes façanhas foram empatar com a Noruega e voltar de Seul com uma medalha de prata, pequeno consolo para o esforço de jovens promessas como Taffarel, Bebeto e Romário.

E foi nesse mundo distante e esquisito que, pela última vez, em 22 de junho de 1988, faz duas décadas, o Club de Regatas Vasco da Gama conquistou seu último título em cima do Flamengo.

De lá para cá, foram derrotados pelo Flamengo em quatro finais cariocas, mais uma final de turno que nos valeu o estadual (e mais um vice para eles), além de uma decisão da Copa do Brasil que, para eles, era o jogo de todos os tempos, a mãe de todas as batalhas, e que nós vencemos sem muito esforço. Em muitas dessas ocasiões, o pândego dirigente deles garantia que o título estava no papo e que o chope já estava comprado (deve ter azedado, depois de tanto tempo).

Este dia há de ser a data nacional do Vasco da Gama. É o Grito do Ipiranga deles, a Tomada da Bastilha, está para sua história assim como os 3 x 0 sobre o Liverpool estão para a nossa.
Nessas condições, manda a educação e a boa vizinhança que os cumprimentemos por façanha tão maiúscula, que ora completa seu jubileu de porcelana.

Quem quiser, que fique à vontade para encaminhar estes meus cumprimentos a todos os vascaínos de suas relações.

13 de mai. de 2005

IMPRESSÕES ARGENTINAS SOBRE FLAMENGO E CURINTCHA

Amigos, tenho recebido com especial satisfação as manifestações de contrariedade pelo longo silêncio que me impus sobre assuntos futebolísticos enquanto nulidades do quilate de Gerson Biscotto e Anderson Barros decidirem os destinos da maior paixão nacional. A distância de minha pátria, a Mui Leal e Heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, e do país ao qual ela dá sentido e razão de ser, o Brasil, torna mesmo desnecessários e redundantes os pitacos de quem não acompanha o balípodo nacional senão por flashes eventuais nas ESPNs da vida.

No entanto, o Tinhorão é sensível aos apelos dos amigos, que pediam um pitaco seu sobre um debate artificial suscitado por zé-ninguéns da crônica esportiva provinciana, nomeadamente os senhores Chico Lang e Flávio Prado.

Não tive a ocasião de ouvir os bramidos dos mundialmente festejados futebologistas, mas fontes que reputo confiáveis relatam-me que esses verdadeiros Joões Saldanhas do Arraial andaram botando em dúvida o status rubro-negro de clube mais querido do Brasil. Aparentemente, reivindicam esse posto para uma agremiação interiorana sem cores na camisa nem glórias na biografia, o Sport Club Curintcha Paulista.

Senti-me na obrigação de responder a semelhante desatino, ainda que seja em minha perspectiva de exilado.

Senhores, encontro-me na vizinha República Argentina, onde desfruto de minha casinha nos prados bonaerenses. Aqui permanecerei exilado enquanto os senhores Gerson Biscotto e Anderson Barros tiverem voz e voto na administração do Flamengo. É um protesto silencioso e, admito, não demasiado penoso: minha adega vai enchendo-se de bonardas e malbecs, que vou abrindo à medida que me chegam à mesa saborosos bifes de lomo; tenho comido bem e engordado, graças às empanadas e guisados que me prepara minha amante argentina (dispendiosa mas apetecível); e uma vez por semana vou a Buenos Aires comprar livros e freqüentar putas -- meus principais hobbies nos dias que correm, tendo em vista que o desporto praticamente só me reserva frustrações, de Kleber Leite para cá.

E foi justamente numa dessas visitas à Rainha do Prata que, num diálogo com um nativo, pude ver em sua justa dimensão as diferenças de estatura entre Flamengo e Curintcha.

Foi num dos sebos da Avenida Corrientes. Ao pagar os exemplares que adquirira, o proprietário percebeu que eu era brasileiro (virei a cabeça para olhar a bunda da universitária feia que folheava livros de antropologia, isso me denunciou). Perguntou-me por meu time de futebol. Disse-lho. Os olhos do velhinho brilharam:

-Flamengo... la hinchada más grande del mundo, ¿verdad?

Anuí com uma pontinha de orgulho. O velhinho confessou-se riverplatense e lembrou um baile que lhes demos em pleno Monumental, na Libertadores de 1982. Tempos de Zico, Leandro e Júnior, do nosso lado. O River também tinha um timaço, com os mundialistas Fillol, Gallego, Tarantini, Kempes e Alonso defendendo la banda roja. Ganhamos de 3 x 0, fora o olé.

Quando eu já tinha pagado os livros e fazia menção de ir embora, o velhinho abaixa a voz, olha para os lados, certifica-se de que ninguém está ouvindo e me pergunta:

-El Corinthians es un club bastante más chico, ¿verdad?

Disse-lhe a verdade: é, sim.

Os olhos do velhinho brilharam de novo, seu ar era de pura picardía criolla. Ele queria apenas confirmar a impressão de que quem levou o idolozinho dos bosteros, do Boca Juniors, foi um desses clubes de bairro que de repente sofrem um takeover empresarial e começam a esbanjar dinheiro para ver se aparecem no mapa. Uma espécie de Fulham com coqueiros no CT e baianas com abacaxi na cabeça nas arquibancadas.

Por eu ter reconfortado o velhinho, ele me deu de presente um livro do Fontanarrosa chamado Cuentos de fútbol. Saí dali mais feliz, sabendo que fizera uma boa ação: afaguei o amor-próprio do vendedor, confirmando que suas impressões sobre o futebol brasileiro eram corretas, e ajudei-o a continuar sacaneando os bosteros, corroborando que perderam o Tévez para um clube de bairro.

Conto esse episódio para concluir o seguinte: alguns clubes já nascem eternos, e desenvolvem essa vocação gestando gênios do quilate de Zizinho, Dida, Joel, Leandro, Andrade, Adílio e Zico, ou incorporando definitivamente às suas cores craques como Leônidas da Silva, Domingos da Guia ou Biguá.

É uma irmandade restrita, essa dos clubes eternos, e seus membros sabem reconhecer-se de vista. Minha camisa listrada em vermelho e preto é minha carteirinha de sócio dessa irmandade, reconhecida com mesuras e de imediato por outro membro, cuja carteira é uma camisa branca com uma franja diagonal em vermelho (é importante que se frise a cor: ninguém entra de sócio com uma faixa preta no lugar da vermelha).

A camisa sem cores nem glórias do Curintcha não lhe garante acesso a esse grupo seleto, por mais simpatizantes que a agremiação tenha em lugares como Carapicuíba, Pindamonhangaba ou Tucuruvi. Tampouco lhe garantem ingresso os idolozinhos que foi capaz de produzir ao longo de sua história incolor como sua camisa: Biro-Biros, Casagrandes, Wladimires, Basílios e Pequenos Polegares.

O velhinho riverplatense sabe disso, eu sei disso, todo o mundo sabe disso.

Só precisávamos transmitir a informação aos senhores Chico Lang e Flávio Prado.

1 de jul. de 2004

A NOVA ORDEM DE FURACÕES E SANTO ANDRÉS

Eu achava que escrevia para dez leitores fiéis. Hoje me dou conta de que, fora os que me lêem para ponderar o que escrevo, há um número dificilmente quantificável de energúmenos que me lêem para espumar de ódio quando estou certo e para morrer de rir quando meu time se fode.

Entendo que, para esse segundo grupo, o que aconteceu ontem seja engraçadíssimo, uma pândega. Não os culpo: eu mesmo contabilizo entre os dias mais felizes de minha vida o 1º de dezembro de 1998, quando o Vasco da Gama se fodeu de verde e amarelo em Tóquio.

Paciência. Não sei quantos entre esses leitores de má vontade terão condições intelectuais de, uma vez exercido o sacrossanto direito de sacanear quem perdeu e deu vexame, parar e pensar sobre se faz sentido o que eu escrevo.

Há tempos venho dizendo que o futebol brasileiro como um todo vive o seu pior momento. São Caetano, Atlético Paranaense, Figueirense, Criciúma, Ponte Preta, Brasiliense e agora Santo André só podem ocupar posições de destaque em âmbito nacional quando Flamengo, Curintcha, Vasco, Palmeiras, Atlético Mineiro, Inter e Grêmio estejam no fundo do poço.

Os torcedores dos clubes pequenos hão de argumentar que estão onde estão por méritos próprios, porque souberam investir e planejar a longo prazo. É uma meia verdade. Seria uma coincidência insólita se só clubes do quilate do Atlético Paranaense e da Ponte Preta tivessem dirigentes competentes. Minha tese é que, por experiência histórica, tinham, sim, os dirigentes mais preparados a administrar um futebol entre o medíocre e o mediano. Quando a crise se instalou e manter grandes times se tornou inviável, prosperou quem sempre se contentou em montar times para disputar a segundona.

Durante a transmissão do jogo de ontem, pela Globo, o Sérgio Noronha intuiu a justeza do que estou dizendo. O Casagrande, que entende tudo dentro das quatro linhas, acha que, fora delas, São Caetano e Santo André têm uma administração de Manchester United. Interpretações divergentes do porquê da “nova ordem” que todo o mundo viu que está aí, mas que os mais conseqüentes esperam que seja passageira.

Para a torcida arco-íris, o Flamengo perder em casa uma decisão para o Santo André deve ser algo assim como tocar o céu com as mãos. Mas, quando a zebra, mais que um episódio isolado, demonstra uma tendência que também afeta, em maior ou menor grau, o Curintcha, o Grêmio, o Palmeiras, o Atlético Mineiro e o Botafogo, os analistas inteligentes deviam soar o sinal de alarme.

O bem do futebol brasileiro está no bem dos grandes clubes brasileiros. Algo precisa ser feito para tirá-los do fundo do poço.

30 de jun. de 2004

REALISMO ANTIPÁTICO HORAS ANTES DA FINAL

Há quem diga que o ano de 2004 termina esta noite para o Flamengo. Vencendo o Santo André, terminamos a temporada campeões cariocas e com o tão sonhado bilhete de volta à Libertadores. Perdendo, resta-nos apenas brigar para não cair no Brasileiro.

Não estou de acordo, nem acredito que a conquista da Copa do Brasil possa automaticamente transformar em amistosos de luxo os trinta e tantos jogos que, noutro cenário, a uma derrota de distância, seriam uma briga inglória e suada para escapar da segundona.

O Flamengo precisa vencer, é certo. Nosso orgulho e nossa auto-estima dependem disso -- perder seria vexame -- e a conquista abre perspectivas interessantes para 2005. Mas a alegria por nossa segunda Copa do Brasil terá muito de alívio pelo dever cumprido e pela superação de um obstáculo que, a acreditar nos otimistas, impede que o Flamengo jogue o que pode no Brasileiro.

Domingo não é o começo do fim da temporada rubro-negra. O time precisa entrar em campo, contra o Paysandu, sem a menor banca de campeão do que quer que seja. Ainda tem muito a provar até o fim do ano.

Não peço muito: peço a campanha decorosa que me limito a pedir de uns anos para cá. Claro, uma campanha decorosa com um título carioca e um da Copa do Brasil será consideravelmente melhor que uma campanha decorosa com um oitavo lugar no Brasileiro, e só. Mas é um balanço a ser feito em dezembro, não em junho.

Eu sei que estas linhas são um tanto pé-no-chão demais para poucas horas antes de uma final de Copa do Brasil. Desculpem lá. Quando o Flamengo entrar em campo ao som de “Ó meu Mengão, eu gosto de você”, vou estar tão emocionado quanto cada um dos 80 mil presentes à festa. Só queria que, amanhã, quinta-feira, todos os nossos jogadores pensassem um pouquinho como eu penso hoje.

10 de jun. de 2004

“BANDEIRA BRANCA, NÃO POSSO MAIS”

Já que aquela gente esquisita do Blog de Primeira resolveu pedir arrego -- “bandeira branca!”, suplica o sr. Mendes Junior --, quero dizer umas palavras finais sobre a polêmica que me ocupou as horas vagas e deu sentido à vida vazia de muito escrevinhador paranaense nos últimos dias. Com isso, encerro a discussão e demonstro um pouco de magnanimidade com quem, no final das contas, perdeu a briga e resolveu apelar para o argumento batido de que “você é chato” e que “o assunto can-sou!”

(1) De produtivo, fica assentada apenas uma conclusão: que a crise afeta quase todos os grandes clubes do país, e que é preciso uma solução política para salvar a maior paixão nacional. O bem do futebol brasileiro está no bem dos grandes clubes brasileiros, e é imperativo que o Estado brasileiro ajude a aliviar sua situação de sobre-endividamento (e.g., por meio do perdão ou da renegociação de dívidas tributárias e previdenciárias).

(2) Devolver aos grandes clubes o lugar que lhes é de direito acabaria com um futebol nivelado por baixo, única conjuntura em que os clubes do Paraná podem aspirar a grandes coisas. Não é justo, os paranaenses hão de espernear, mas a vida nem sempre é justa. Não é qualquer fabricante de mobilete que pode aspirar à proteção que o Estado dá à Embraer, assim como não é qualquer Atlético Paranaense que pode aspirar a receber o mesmo tratamento que o Flamengo.

(3) Entrando, agora, nas considerações pessoais: na cabeça privilegiada do sr. Mendes Junior, um blog dedicado ao futebol carioca há de ser necessariamente obscuro. Que dizer, então, do Blog de Primeira? Salvo engano, aquele é um blog sobre futebol carioca, tamanha a obsessão deles com o assunto. Se um blog sobre futebol carioca escrito por cariocas é forçosamente obscuro, como qualificar um blog sobre futebol carioca escrito por paranaenses?

É natural que o centro desperte um interesse desproporcional na periferia. Mas as Cartas da Inglaterra do Eça de Queiroz jamais darão uma visão tão clara da realidade inglesa como uma leitura criteriosa do Times.

(4) Alguém lá no Blog de Primeira sugeriu, acho até que de boa fé, convidar o Tinhorão a publicar seus textos por lá. Agradeço, mas sou forçado a declinar do convite. Já fui convidado a publicar em espaço muito mais conceituado que aquele -- o que muito me honrou --, mas não pude aceitar por uma questão de liberdade editorial: faço questão de manter o tom belicoso, confrontativo, quando falo de assuntos que me são particularmente caros. Essa liberdade não casa bem com um espaço coletivo, com regras de conduta e restrições de tom e de linguagem subentendidas.

(5) Uma última palavra sobre “blogs desabitados”: após levar uma surra na discussão, o sr. Mendes Junior quis sair por cima acusando este blog de ser “obscuro e desabitado”, e este autor de nem atualizar o blog regularmente. Sobre a segunda acusação, simplesmente constato que eu tenho mais o que fazer do que ele. Sobre a primeira, mil vezes escrever para meus oito leitores, que têm domínio da língua portuguesa, a escrever para gente como o quadrúpede lá que me acusa de escrever com um dicionário do lado (e que parece ter uma tese de pós-doutorado sobre o feudalismo): se eu tivesse que fazer como os jornalistas da Folha de São Paulo e cortar todas as palavras “complicadas” e desconfiar das que tenham mais de três sílabas, eu simplesmente pararia de escrever.

7 de jun. de 2004

NO PASARÁN
(OU “Da perplexidade que leva ao emputecimento”)


Antes de mais nada, queria recomendar a leitura do último post do meu compadre Valido Platero, também sobre as sandices publicadas pelo sr. Mendes Junior no Blog de Primeira. Destaco um trecho, que está longe de ser o meu favorito, só para deixá-los com água na boca:

“O sr. Leonardo pensa que o carioca mantém o Maracanã apenas por orgulho. Não o culpo. Quem vive em uma cidade cujo maior monumento é um relógio feito de flores não poderá nunca entender o que é conviver com um símbolo mundial [...].”

Em segundo lugar, penso que devo uma satisfação aos leitores que acham que eu peguei pesado com o cretino do sr. Mendes Junior porque diagnostiquei sua cretinice. Não conheço pessoalmente o palpiteiro da Gazeta do Povo e, se bati nele mais do que ele talvez merecesse, é porque julgo que seus escritos são típicos da crônica esportiva paranaense: bairristas e recalcados.

Reconheçamos desde já a verdade evidente e não voltemos mais a esse ponto: o futebol carioca vai muito, muito mal das pernas. Tão mal que está no mesmo nível ou talvez abaixo do futebol paranaense (reparem os leitores da terra dos pinhais que o futebol de seu Estado é paradigma de mediocridade, é como que um marco: daqui para baixo é tudo merda).

Diante dessa verdade insofismável, identifico dois tipos de reações patológicas na imprensa nacional: a dos cronistas cariocas, que, regra geral, não a reconhecem, e a dos paranaenses, que não têm nada a ver com isso mas transformaram a crise do futebol carioca num de seus assuntos prediletos, numa obsessão.

Quero frisar que, para mim, as duas reações são igualmente patológicas: o carioca que não quer enxergar a realidade e o paranaense que se compraz em escancará-la com exagero.

O primeiro caso é um problema doméstico nosso: no filho meu, bato eu, e eu canso de bater, aqui mesmo neste blog, nos cronistas cariocas indignos de ocupar o espaço que já foi de Nelson Rodrigues e João Saldanha.

O segundo caso é de agressão estrangeira, a que eu não deixarei de responder com intensidade desproporcional para botar em seu devido lugar os ruminantes da imprensa esportiva do Paraná.

Dir-se-ia que há uma inversão de papéis: as análises que deviam vir n'O Globo e no JB acabam sendo impressas no Correio do Povo ou sei lá que outro pasquim provinciano. É como se as notícias sobre as falcatruas que acabaram levando ao impeachment de um Governador de um Estado qualquer viessem, não nos jornais desse Estado, mas nos já referidos O Globo e JB.

Se essa obsessão com a crise do futebol carioca fosse coisa de jornalistas de São Paulo, eu até entenderia: não aceitaria, mas entenderia. Mas... o Paraná? Que cazzo nós fizemos ao Paraná para merecer tamanho ressentimento dessa gente? Nós não fazemos piada com paranaense (que nem para estereótipo essa gente serve), não fazemos turismo por aquelas plagas, não invadimos as belíssimas praias do litoral deles, não vivemos dos impostos que eles pagam (pecado de que eles acusam os nordestinos), não os tratamos mal quando vêm ao Rio, não sintonizamos a TV para torcer contra os times deles, não limpamos o pau na cortina quando comemos as filhas e esposas deles... Qual é exatamente o problema deles conosco?

Juro para vocês: para mim, é quase como se a imprensa tirolesa ou normanda resolvesse dedicar artigos diários e mesas redondas semanais à crise do futebol carioca. Meu emputecimento vem da minha perplexidade.

Eu poderia, é claro, tratar as nulidades do quilate do sr. Mendes Junior com uma superioridade olímpica. Mas me recuso a fazê-lo. Assim como La Pasionaria, o Tinhorão gostaria de ser lembrado por uma idéia fixa: no pasarán. Quando comecei a escrever sobre futebol, jurei para mim mesmo não deixar passar sem resposta nenhuma imbecilidade grafada ou relinchada pelos cretinos do meio futebolístico brasileiro. Por mais insignificantes que sejam os autores, no pasarán.


6 de jun. de 2004

AS LIÇÕES DO SR. MENDES JUNIOR





Um dos motivos pelos quais sou grato aos Rolling Stones é por terem popularizado o adágio it’s the singer, not the song. Eu o uso constantemente para explicar as causas de meu mal-estar quando ouço coisas sensatas pronunciadas por um cretino.

Digo isso a propósito das muito mal traçadas linhas do senhor Leonardo Mendes Junior no Blog de Primeira. Naquele escrito, o palpiteiro paranaense defende a demolição do Maracanã -- proposta com a qual evidentemente não concordo -- porque isso ajudaria o torcedor carioca a acordar para a realidade dolorosa da decadência de seu futebol -- constatação que subscrevo sem maiores dramas de consciência.

Dito isso, como responder ao escrevinhador de pasquim de província? Simplesmente jogar na cara dele uma lista de estrelas cariocas de outrora, de Leônidas da Silva a Romário, seria fugir do ponto principal: sim, o futebol carioca foi grande, e até o sr. Mendes Júnior concorda -- a contragosto -- com isso. Mas um Garrincha entortando joões em 1958 não apaga a triste realidade de um Douglas Silva dando patadas na bola em 2004.

Cotejar essa lista com uma que vá de Sicupira a Kléberson, passando por Rafael e Paulo Rink, seria covardia e deselegância. Colocaria o sr. Mendes Junior em seu devido lugar, mas seria deselegante.

Mas há um fato significativo por trás desse contraste entre Zico e Kléberson, um fato que devia ofuscar pela evidência aqueles que pensam o futebol brasileiro: quando o futebol carioca foi grande, o futebol brasileiro foi imenso. Tempos de Leônidas, de Barbosa, de Dida, de Garrincha, Gérson, Zico, Bebeto e Romário. Quando os paranaenses figuram na primeira linha do futebol nacional, é porque o esporte vai mal das pernas: tempos de Rafael e Lela eram também tempos de Márcio Nunes e Lulinha; tempos de Kléberson e Cocito eram tempos de Adãozinho e Magrão; tempos de Coritiba na Libertadores são tempos de Dimba artilheiro do Brasil.

Afinal de contas, quando foi, em um século de história, que os clubes paranaenses foram grandes merdas em nosso futebol? Foi durante a sangria de talentos de meados dos anos 80 -- quando Zico, Falcão, Sócrates, Dinamite, Júnior, Edinho, Careca e até gente do quilate do Casagrande estava ou jogando na Europa ou de malas prontas para ir para lá. Foi de 1999 para cá, quando a crescente debilidade da moeda nacional acabou com a farra dos grandes clubes que até então vinham repatriando talentos, postergando a saída de jovens craques e até importando estrelas de segundo escalão, como Petkovic e Asprilla -- a Brahma, a ISL, a Hicks & Muse, o Bank of America pagavam a conta.

Corolário óbvio: Atlético Paranaense e Coritiba -- assim como Bangu e São Caetano -- só podem aspirar a coisas grandes num futebol nivelado por baixo. Atlético Paranaense campeão do Brasil não é tanto o efeito do trabalho de um Petraglia, mas sobretudo o resultado de gestões imprevidentes como Kléber Leite, Edmundo dos Santos Silva, Eurico Miranda, Mustafá Contursi e Alberto Dualib.

Por que insisto em buscar causas do sucesso relativo dos paranaenses quando o assunto é a decadência inegável do futebol carioca? Porque o sr. Mendes Junior caga regras olhando de cima, como que dando lições aos imbecis que teimam em cantar refrões de tempos idos no Maracanã em vez de assistir a Pato Branco x Matsubara no pay-per-view. Acredita sinceramente que está em condições de nos ensinar a gerir nosso futebol porque não enxerga que o Atlético Paranaense e o Coritiba só podem parecer grandes num cenário de débâcle de quase todos os clubes verdadeiramente grandes.

Que os clubes cariocas mereciam administrações melhorzinhas é uma conclusão inescapável para quem quer -- de verdade, e não da boca para fora -- vê-los fora do atoleiro em que se meteram. Reconhecer isso está longe de subscrever as teses que gente do quilate do sr. Petraglia quer empurrar-nos goela abaixo como receitas para o sucesso.

Claro, o pensamento do sr. Petraglia tem pelo menos coerência interna: ele prega um futebol sem pobres nas gerais porque sabe que matar a paixão é a receita para um time do Paraná disputar espaço com os grandes. O sr. Mendes Junior não enxerga as conseqüências últimas dessas teses modernosas: vem cagar regra porque acredita sinceramente que, se o Atlético se sagra campeão do Brasil, é porque o futebol do Paraná é uma fortaleza.






1 de jun. de 2004

A CURIOSIDADE DE JUCA KFOURI

Há alguns dias, em artigo publicado no Lance que só agora me chegou às mãos -- Agora é torcer pelo Santos --, o senhor Juca Kfouri ousou perguntar o seguinte, em voz alta: "Afinal, o que Buenos Aires tem que São Paulo não tem?"

Acabo de mandar o seguinte e-mail ao senhor Kfouri:

Prezado Juca Kfouri:

Dia desses escandalizei-me ao ler um artigo seu intitulado "Agora é torcer pelo Santos". Lá pelas tantas, após falar de tudo e mais um pouco -- do Once Caldas ao Boca x River --, o senhor atirou nas caras perplexas dos leitores uma pergunta absolutamente inacreditável. Li e reli para ver se o senhor não
estava de sacanagem, mas era isso mesmo:

"Afinal, o que Buenos Aires tem que São Paulo não tem?"

O que Buenos Aires tem que São Paulo não tem? Vamos ver por onde eu começo a responder.

Tem História. Tem igrejas que ostentam, nas paredes, marcas de tiros dos combates contra os ingleses em 1808. Tem o cabildo que instituiu o primeiro governo autônomo da América Latina, em 25 de Maio de 1810. Tem a praça onde o povo se reuniu para comemorar o primeiro governo autônomo e onde impôs ao governo militar a libertação do Coronel Perón em 17 de outubro de 1945. Tem, ali do lado, uma catedral onde repousam os restos de um herói da Independência de todo o continente. A 9 de Julho de lá lembra a Independência de um território enorme, não a sedição separatista de uma província.

Tem cultura. Tem ruas e bairros que são descritas em "Sobre héroes y tumbas", e não em "Paulicéia Desvairada" (isso, caro Juca, faz uma diferença monumental). Foi cantada por Gardel, e não pelos Demônios da Garoa. Tem o Teatro Colón, e não uma sala de concertos dentro de uma estação de metrô. Tem El Ateneo, não a Cultura. Tem cineastas que fazem "Nueve Reinas", e não "Cronicamente Inviável". Tem Borges e Cortázar em vez de Mário e Oswald de Andrade, Piazzolla em vez da Leandro de Itaquera, Martha Argerich em vez dos Garotos Podres.

Também tem tudo o que o dinheiro pode comprar, só que eles compram incontestavelmente melhor. Quando tinham bala na agulha, trouxeram simplesmente a primeira filial da Aliança Francesa da história. Trouxeram a única filial da Harrod's de Londres (convenhamos que impressiona mais que o Mappin). Trouxeram o rugby e o pólo, não os bonezinhos da NBA e o hip-hop.

Tem culinária própria. Tem o mui portenho asado de tira, o portenhíssimo bife de chorizo, o portenhérrimo bife de lomo. Tem isso em vez da massa italiana do Bixiga (sic) e dos sushis japoneses da Liberdade. Mas se o assunto é cozinha internacional, desculpe lá, Juca: sou muito mais os
restaurantes branchés de "Palermo Hollywood" que a afetação dos teus Barakahs -- ou sei lá como se chama o estabelecimento de nome indo-persa-paquistanês que é tido e havido, aí no Arraial, como um dos melhores restaurantes do mundo.

Tem o Rio da Prata, não o Tietê. Na beira do rio, tem os parques e ciclovias da Costanera Sur, não o prédio da Microsoft na Berrini. Tem uma grande atriz, a senhora Mirtha Legrand, no lugar que, aí, é da Hebe Camargo. Tem o edifício Kavanagh em vez do Largo do Arouche. Tem a Calle Florida em vez da 25 de Março.

Para terminar, nas colunas esportivas, tem o Fontanarrosa em vez do Juca Kfouri.

Espero que isto sirva, não para satisfazer sua curiosidade, mas ao menos para indicar-lhe por onde começar a instruir-se para que, um dia, o senhor descubra por si próprio por que a sua pergunta é um verdadeiro despautério.