18 de abr. de 2004

Paris, 23:35; Rio, 18:35
AS PRELIMINARES DO DR. EURICO


Lendo os relatos da final carioca via Internet em seu exílio parisiense, o Tinhorão conclui, de si para si, que sua vida é um eterno administrar de saudades. Primeiro quando, por razões profissionais, deixou o Rio de Janeiro para instalar-se em Brasília (“o desnecessário tornado irreversível”, segundo o Millôr). Depois nas diversas vezes que, por motivos profissionais, teve de se ausentar do Brasil (uma delas durante a Copa do Mundo de 2002, que comemorou em Genebra, em meio a suíços fazendo cara de suíços diante do esporro que faziam o Tinhorão e sua namorada na Place du Bourg de Four). Agora, em Paris, também por motivos profissionais, quando toma conhecimento pela Internet do título rubro-negro.

Só que nunca antes a saudade de casa doeu tanto.

“Toma conhecimento” pode dar a impressão de que eu me conectei mui tranqüilamente às 23:00 de Paris -- horário previsto para o fim do jogo -- e me inteirei, sempre fleumático, do baile rubro-negro no Maracanã. Mas não foi nada disso: eu sofri com cada minuto de jogo. Sofri mais que os que o puderam acompanhar pela TV ou ao vivo no Maraca, porque eu só tinha, como único recurso, o relato “lance a lance” d’O Globo online. Quem já acompanhou algum jogo por esse sistema sabe o quão angustiante pode ser aquele silêncio absoluto entre a notícia do que aconteceu aos 15 minutos e a do que aconteceu aos 26.

O fato é que, graças a esse sistema, sei que o Flamengo ganhou e deu um baile no segundo tempo. Que teve porrada -- como eu gosto --, que o nosso Douglas Silva deu uma porrada nos cornos do pederasta do Claudemir... enfim, que o Flamengo ganhou na bola e no braço.

Mais não sei. Dava tudo, neste momento, para estar de volta a casa, no Rio, berrando na varanda, mandando os vascaínos tomar no cu, chamando a torcida do Vasco inteira para a porrada. Como não faço desde 2000. Dava tudo para estar na churrascaria da Barra com os amigos da Fla-Bujica, que a esta hora devem estar tomando o primeiro chope de uma série de pelo menos quinze per capita. Do outro lado do oceano, ergo uma taça solitária de Beaujolais e faço um brinde à alegria deles.

Diz a lenda que, no final da vida, já completamente cego, Nelson Rodrigues continuava escrevendo sobre futebol com aquela sua onisciência, apesar de não acompanhar os jogos senão pelo rádio. É que o Nelson era dessas figuras raras capazes de captar a essência mesma do jogo. Mesmo sem a vista, podia escrever sobre qualquer pelada com mais lucidez que os Calazans da vida.

Sem querer comparar-me ao meu guru, permito-me, ainda assim, tecer um par de comentários sobre um jogo que eu não vi nem ouvi.

É sabido que a gentalha que torce por aquela agremiação escrota de São Cristóvão nunca primou pela inteligência. Tivesse um mínimo de discernimento, torcia para o São Cristóvão F.C., do mesmo bairro. Não ganharia um carioca de vez em quando, não teria delírios de grandeza ao constatar que em seu invejável palmarès (perdoem o galicismo, essas coisas contaminam) há um caça-níqueis disputado no Chile na década de 40 ou um brasileiro conquistado contra um São Caetano que entregou o título e a dignidade com medo de voltar para a segunda divisão.

Não teria nada disso, mas não teria o supremo desgosto de ver o inimigo ter sempre mais do que ele, de ver o inimigo campeão do mundo e penta do Brasil, de perder finais para o rival tão odiado ano sim, ano também. O rival do São Cristóvão deve ser o Madureira, que não é campeão do mundo e não disputa finais, muito menos contra o vizinho e “co-irmão” do Vasco.

Seria menos glorioso mas faria menos mal para a auto-estima.

Essa volta toda para me referir ao paquidérmico Presidente do Vasco da Gama. Meu Deus do céu, será que esse delinqüente não aprendeu nada de 1999 para cá?

Em 1999, vocês hão de se lembrar, esse cavalheiro afirmou que Flamengo, Fluminense e Botafogo brigariam para ver quem era o vice do Vasco. Acabou vice ele, engolindo sua língua junto com a trolha que o Rodrigo Mendes lhe enfiou.

Em 2000, chamou o time do Flamengo de “mulambada”. Na hora de decidir, ficou provado que “mulambada” era a que vestia a camisa sem cor nem glória do Vasco da Gama, que, além de não jogar porra nenhuma nas duas finais, ainda amarelou e amarelou feio para o Flamengo.

Em 2001, posou de campeão do Brasil -- apesar de o título ter sido conquistado por default, contra um São Caetano que desistiu de brigar com medo de ser sacaneado pela corja comandada por Miranda & Zveiter -- e julgou-se, da boca para fora, muito acima dos concorrentes ao título carioca. Intimamente sabia que o título fajuto de 2000 valeria menos ainda se não se seu time não se impusesse sobre o Flamengo -- que, quando foi hegemônico a nível nacional, nunca deixou de dar umas porradinhas, a nível local, no Vasco (Rondinelli em 1978; Nunes, Adílio e o inesquecível Ladrilheiro em 1981), no Botafogo (ah, os 6 x 0...) e no Fluminense (que não decidiu nada contra a gente). Petkovic, aos 43 do segundo tempo, pôs fim aos paquidérmicos delírios de grandeza do Dr. Eurico e decretou o tri-vice.

Esta semana, o ex-deputado disse coisas impagáveis. Afirmou que "já tomara medidas para garantir o título estadual do Vasco", que seu time fora campeão já no primeiro jogo da decisão, domingo passado, que aquele time que meus correspondentes juram ser uma merda “é superior ao do Flamengo” e que – pasmem! -- já tinha comprado o chope e que a festa em Sanjanu estava preparada. (Agência Placar)

Arrematava esse amontoado de sandices afirmando que é “burro velho” (“velho”, aí, é juízo de valor), que estava “à frente do problema” -- em suma, que o título estava no bolso do Vasco da Gama.

Há poucas horas, o Jean deu três sem tirar de dentro no rabo do Dr. Eurico.

Em sexo, há quem goste de excitar o parceiro dizendo sacanagens ao pé do ouvido durante a trepada. O Dr. Eurico prefere deixar-nos em ponto de bala dizendo sacanagens à imprensa antes da trepada.

12 de fev. de 2004

FOR THE ROAD:
AURIVERDE UNIFORME DA MINHA PÁTRIA
QUE A FILHA DA PUTA DA NIKE AVILTA E DESONRA




Uma última notinha antes de partir. Acabo de ver o novo uniforme da Seleção (foto) e não encontro palavras para exprimir a minha revolta. Deviam castrar o filho da puta responsável por um desrespeito desses, para não deixar descendência.

Essa não é a camisa do Zico, do Pelé, do Garrincha, do Gérson, não é a camisa do Didi, do Falcão, do Nílton Santos. Aquele círculo numerado na barriga -- parece uma bola de sinuca! -- é uma cusparada em cima da história dessa camisa, é um desrespeito contra o maior símbolo deste país.

Confesso que há muito não sinto mais tesão de ver a Seleção jogar, mas foda-se: a Amarelinha é um símbolo nacional tão representativo quanto a bandeira, o hino, o Cristo Redentor. Se querem encher o uniforme de viadagens para vender mais, que façam isso com a camisa nº 2, ou que criem um terceiro uniforme, não me oponho a nada disso. Mas com a Amarelinha, não, filhos da puta.

É preciso que as pessoas de discernimento orientem os bobos alegres que hão de se empolgar com a novidade e expliquem por que ninguém deve comprar essa camisa, por que ninguém deve dar dinheiro a esses desgraçados.

Lembram quando o Bragantino começou a incomodar os grandes, no começo dos anos 90? Logo, logo, apareceu um designer para bolar aquela camisa ultrajante que mais parecia uma vidraça estilhaçada. Deu certo: venderam-se toneladas daquela porcaria. Cansei de ver gente usando aquele trapo... no Maracanã! Claro, comercialmente, foi um êxito rotundo.

Estão tratando a camisa da Seleção como se fosse a do Bragantino.

10 de fev. de 2004

ATÉ LOGO AOS AMIGOS E VAI TOMAR NO CU, FABAIANO

É desagradável frustrar meus oito leitores dessa maneira, mas, mais uma vez, compromissos profissionais impedirão uma atualização criteriosa deste blog pelos próximos quatro meses. Parto no domingo próximo para uma viagem de trabalho. Volto com o Campeonato Brasileiro já engrenado e espero encontrar o Flamengo campeão carioca, apesar de tudo, e sem o Fábio Baiano, por tudo.

Até lá, aos que se acostumaram com a imparcialidade deste cronista, sugiro uma leitura atenta do Valido Platero -- que é por onde pretendo manter-me informado sobre o futebol pátrio nesses quatro meses. Mas não deixem de visitar este blog ocasionalmente: pode ser que, ao contrário do gorila da piada, eu dê notícias.

Obrigado aos leitores e saudações rubro-negras.

4 de fev. de 2004

LADRILHEIROS UNIDOS

Para as almas sensíveis que se sentiram tocadas pelo lirismo do último post e pelo bom gosto das referências cinematográficas que o ilustram, tenho imenso prazer em anunciar a inauguração do blog Ladrilheiros Unidos, de meu compadre Valido Platero.

Descontados os evidentes exageros do Valido em homenagem a este cronista, certifico e dou fé que os leitores encontrarão, em cada linha do que escreve o Valido, as mesmas qualidades que -- perdoe-se-me a imodéstia -- venho logrando manter em meus escritos futebolísticos: imparcialidade, isenção, descompromisso com qualquer clube, o primado da verdade acima de tudo.

Com o Valido no ar, reforça-se ainda mais a antiga constatação, agora aplicada à comunidade blogo-futebolística brasileira: quem manda nesta porra é a torcida do Urubu.


3 de fev. de 2004

FLA-FLU: UMA ANÁLISE RONJEREMIANA

Feitos os salamaleques que este cronista julgava cabíveis ao Fla-Flu e a nosso mais digno rival, é chegada a hora de tripudiar um pouquinho do adversário de domingo, antes que meus oito leitores se impressionem com meus elogios rasgados ao tricolor e concluam, com precipitação e evidente desacerto, que o Tinhorão aviadou.

Deixo a análise ronjeremiana (ou seja, alicerçada nos postulados do Dr. Ron Jeremy) a meu compadre Valido Platero, que compartilhou comigo reflexões que lhe ocorreram após a leitura da seção "Fala Tricolor", do site Sempre Flu -- dos melhores sites de humor do Brasil, no gênero "humorismo involuntário". Platero:

Deus do céu.

Vi o tal blog do Sempre Flu.

É um espetáculo lastimável. Nunca pensei que eles vivessem TANTO em função do Flamengo.

Nunca imaginei que, enquanto passo meus dias preocupado com Junior Baiano na zaga, Da Silva no meio-campo, Jean no ataque, Márcio Braga, Delair, etc, os outros torcedores de outros clubes passassem o tempo fazendo A MESMA COISA que eu, ou seja, vivendo pelo Flamengo.

Só pensam em Flamengo, só ficam justificando o tal olé. Só ficam reclamando do fato de que o Felipe ESCULACHOU os onze jogadores mais os reservas e mais os 6 mil torcedores que foram torcer pelo Fluminense. Só ficam chiando do fato de o Felipe ter estuprado o Fluminense do mesmo jeito que o Sean Michaels e o Mr. Marcos já se cansaram de fazer com a Daniel Cheeks ou com a Talia James ou com a Tiffany Mynx.

Foi uma curra tão intensa que acho que o Pay Per View deveria passar NO SEXYHOT e não no Sportv. Crianças não deviam ver o Flamengo fazendo aquilo. O jogo deveria ter sido apitado pelo Neville D´Almeida, que já tem a experiência em uma cena parecida, a de Lucélia Santos sendo violentada por oito negões e gritando "foooode negro". É isso aí: o Fluminense ontem passou 90 minutos gritando "foooooooode" e a gente achou que era "oooooooolé".

É uma pena -- sou egoísta nas minhas paixões. Queria que o Flamengo fosse só para mim, ou melhor, para nós rubro-negros. Mas os outros insistem em participar, em querer adorar o Manto também.



2 de fev. de 2004

CONFISSÕES APÓS UM FLA-FLU ETERNO



As gerações mais jovens -- essa gente esquisita que acha que Curintcha x Parmera é clássico, que o Cruzeiro é um clube vencedor e que referência de ídolo rubro-negro é um certo anão de língua presa -- tiveram ontem uma oportunidade única de se instruir sobre o que é futebol brasileiro. Num Maracanã lotado (lotado para os padrões de hoje, quando essa gente esquisita acha que 60 mil é um público estupendo), os dois únicos clubes eternos do futebol brasileiro travaram um duelo digno das melhores tradições do Fla-Flu.

Na euforia pós-clássico, acho até que foi um dos maiores Fla-Flus de todos os tempos -- na companhia daquele poema que foi a final de 1995, com gol de barriga do Renato, dos 5 x 0 do último gol de Zico (que ele guardou para um Fla-Flu), dos 4 x 2 de 1973 (deles) e de 1991 (nosso), do Fla-Flu da Lagoa de 1941, do 0 x 0 de São Marcial em 1963, do golaço-aço-aço do maior camisa 2 de todos os tempos, em 1985, de Assis decidindo um clássico que parou o Brasil em 1984.

Dado eloqüente da breve retrospectiva acima: são quatro vitórias tricolores, quatro rubro-negras (com a de ontem, cinco). Além de demonstrar cabalmente -- aliás mais uma vez -- a imparcialidade deste cronista, o dado comprova o amor que sentimos pelo Fla-Flu todos os que somos genuinamente apaixonados pelo futebol: gosto tanto desse clássico que lembro com carinho até algumas de nossas derrotas mais sofridas.

(Exemplo: se me deixou sem dormir naquela noite lá se vão quase dez anos, hoje lembro com carinho do gol de barriga do Renato porque acrescentou a dose extra de dramaticidade que faria daquele um Fla-Flu de verdade. Não bastava o Flamengo ter tirado forças do nada para empatar um jogo já perdido: um Fla-Flu daqueles tinha de terminar de maneira inverossímil, com um Fluminense batido virando o jogo pelo avesso mais uma vez, com uma bola boba que bate numa barriga e vai, em câmara lenta, rumo à meta rubro-negra, sob os olhares incrédulos de onze flamengos na área e mais 60 mil -- yo incluso -- nas arquibancadas.)

Faça um teste com torcedores de outros clubes e pergunte se se lembram com carinho de alguma derrota diante do maior rival. Um prêmio para o curintchano que me confessar que, hoje, enxerga poesia nos 30 mil palmeirenses rezando de mãos dadas em 1993, enquanto Evair corria para a marca de cal e decretava: Porcos 4 x 0 Gambás. Um prêmio para o colorado que achar graça no André Catimba dando e levando porrada, fazendo o gol do título e caindo com os cornos no chão em 1977. Um prêmio para o vascaíno que se emocionar com Rondinelli “penetrando como um pênis a defesa cruzmaltina”, subindo mais que todo o mundo e estabelecendo uma marca: aqui começa o maior esquadrão de todos os tempos.

Isso não existe, senhores, e não existe porque o Fla-Flu é diferente de todas as pequenas rivalidades em que se comprazem porcos e gambás, atleticanos e cruzeirenses, gremistas e colorados, milanistas e interistas, xeneizes e millonarios, madridistas e blaugranas. Não é só um ódio do tamanho do mundo: é uma rivalidade forjada no amor e no ódio, é um eterno acerto de contas entre pai e filho.

Depois daquele jogo de 1995, vi um tricolor desfilar com uma camisa com os seguintes dizeres, em verde e grená: “Eu teria um desgosto profundo / se faltasse o Flamengo no mundo”.

Faça esse outro teste: que palmeirense teria um desgosto profundo se faltasse o Curintcha no mundo? Jurando sobre a Bíblia, nenhum.

Aliás, é essa a diferença entre o Fla-Flu e o Flamengo x Vasco. Se me dessem esse poder, o clube do subúrbio deixava de existir amanhã mesmo. O Fluminense, não.



***

Dizer o que do anão ontem? Depois do primeiro gol rubro-negro, jogou um partidaço, virando para 3 x 1. Depois dos 3 x 1, não lhe bastava a consagração ao final dos 90 minutos, não queria compartilhar a sua glória com os dez coadjuvantes tricolores, e saiu para ser ovacionado sozinho. De herói a vilão em menos de 30 minutos: não fosse seu estrelismo, não fosse seu ego inflado, a história do jogo poderia ser outra.

É por essas e outras que me recuso a ver no Romário um dos gigantes do futebol (sem trocadilho). Se lhe sobram qualidades técnicas, faltam-lhe quase todas as qualidades morais (ambição, sede de glória, capacidade de entrega) que fazem um grande campeão.

Sacripanta!

***

Frase memorável do meu amigo André Doria, sobre o Parmera: “Ser campeão da Libertadores e já ter caído para a segundona é a mesma coisa que ter comido um monte de mulher gostosa, mas confessar que um dia já deu a bunda.”

30 de jan. de 2004

SATISFAÇÃO A QUEM NÃO A MERECE

Desculpem-me os meus oito leitores, mas ainda não tenho assunto para falar de futebol este ano. Só queria compartilhar com vocês a minha perplexidade diante de um e-mail que me chegou às mãos.

Assina-o um bobo alegre chamado Sérgio Portelense, paulistano, torcedor do Palmeiras e da antipática Leandro de Itaquera (um bloco carnavalesco que, em São Paulo, é considerado escola de samba). Não entendi bem a troco de que, mas o cavalheiro aí esperava encontrar neste blog algum post meu espinafrando a festa em comemoração aos 450 anos do arraial (cito textualmente, no dialeto bastardo que se fala naquelas plagas):

entrarei no tinhorao pra ver se mudou algo, aposto que nao pois vcs pagaram pau pros 450 anos e que decidiram nem colocar nada no site seus covardes.... se acovardaram perante o poderio paulistano

Se ele estivesse tão convencido assim do tal do "poderio paulistano", assinaria Sérgio Leandrodeitaquerense.

9 de dez. de 2003

PERDEMOS O DIREITO DE ERRAR

Será que você lembra como eu lembro o Mundial que o Zico foi buscar?

Eu lembro. Tinha o dedo do Márcio Braga.

Vitorioso no pleito de ontem, Márcio Braga foi irretocável ao definir o atual momento rubro-negro: “Perdemos o direito de errar”. Depois da gestão esquecível de Luís Augusto Velloso, dos anos negros do nefasto Kléber Leite (nunca minha auto-estima de rubro-negro se viu tão abalada), de três anos e meio com o gangster Edmundo dos Santos Silva e do mandato-tampão do Helinho, eis que a meia dúzia que decide os destinos da maior paixão de 35 milhões de brasileiros resolveu não improvisar: reconduziu à cadeira de Gilberto Cardoso o homem que montou o maior time da história do Rio de Janeiro.

O direito de errar nós tínhamos perdido há muito tempo. Márcio Braga já devia ter sido eleito em 1998. Contava com o apoio da maioria esmagadora da torcida, que ficou deveras decepcionada quando a meia dúzia que vota elegeu um ilustre desconhecido com dois sobrenomes e um discurso igualzinho ao do Kléber Leite e do Luís Augusto Velloso. Veio o quarto tri, a ISL veio e se foi, vieram os escândalos e o Edmundo foi embora cassado, proscrito e algemado. E subitamente o Flamengo parecia um convento de carmelitas descalças. Pulhas e canalhas circulavam pela sede do clube e davam palpite em seus destinos com uma candura de criança que morre sem pecado. Como se a cassação do Edmundo os tivesse livrado do peso do Pecado Original.

Alguns desses pulhas até cogitaram seriamente de ocupar a Presidência -- especulações que, só por serem anunciadas, comprometeram ainda mais a periclitante credibilidade do clube. Um deles um cavalheiro que, acusado de embolsar 60% do dinheiro da Petrobrás, defendeu-se de frente erguida afirmando que só embolsava 15% (v. Hélio Fernandes, Tribuna da Imprensa, passim).

Perdemos o direito de errar. Márcio Braga volta com cinco anos de atraso. Se me defraudarem de novo, só assisto rugby. É meu último sopro de esperança.

Ou penúltimo.

O Tinhorão ainda acalenta uma esperança, um projeto cuja execução independe do Márcio Braga ou de quem quer que ocupe a Presidência do clube. São idéias que compartilhei com um punhadinho de rubro-negros da melhor cepa, gente de bem, de conduta irrepreensível, apaixonada pelo Flamengo -- inclusive gente que tinha voz na gestão que se encerra.

Gente que encareço a brigar pela idéia.

Gente que quero ver suceder o Mácio Braga.

***

Não escrevo nada já há uns dois meses. Trabalhei demais nesse lapso e o Flamengo não me deu motivos para atualizar o blog. No final das contas, teríamos tido a campanha decorosa que eu pedi não fossem as goleadas que sofremos diante das nulidades do Paraná e até do Fortaleza.

Que 2004 seja melhorzinho. Que o Márcio Braga traga o meu Flamengo de volta. Que eu tenha ânimo para voltar a escrever sobre a camisa vermelha e preta que me foi apresentada pelo meu pai numa longínqua tarde de 1980, num Maracanã festivo que aspirava a algo mais que uma campanha decorosa.

Feliz 2004 para todos nós.

23 de out. de 2003

A FOLHA, ESSE JORNAL ESCROTO

Obrigações laborais têm impedido a atualização deste blog na freqüência que eu estimo apropriada. Uma pena, pois com isso não fiz um único comentário a respeito de nossa vitória sobre o Vasquinho e sobre a concretização de minhas previsões de que técnico bom, no Flamengo, não dura: a diretoria não deixa.

Saio desse silêncio forçado para comentar um assunto que não tem nada a ver com futebol, mas que eu não poderia deixar de registrar, considerando tudo o que já escrevi, aqui, sobre aquele tablóide para débil-mental que é a Folha de São Paulo.

Vejam só o que declarou a uma repórter da Folha o assessor de imprensa da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, o Sr. Renato Homem de Almeida Neto -- e ainda passa uma cantada na repórter! E vejam só o tremendo recibo que esses idiotas da Folha acabaram publicando.

De minha parte, acho que deviam erguer uma estátua ao Sr. Renato Homem de Almeida Neto. Um gênio da raça, o sujeito!

Secretaria dificulta acesso a documento

DA SUCURSAL DO RIO

O assessor de imprensa da Secretaria de Segurança do Rio, Renato Homem de Almeida Neto, disse ontem que a Folha é um "jornal escroto" e que, por isso, terá dificuldade de acesso ao processo administrativo que autorizou a viagem do chefe de Polícia Civil.

"Não é nada contra você", disse ele à repórter, por telefone. "Eu te adoro, você é bonitinha, mas ninguém aqui tem boa vontade com a Folha, da mesma forma que a Folha não tem boa vontade com a gente. Você vai receber depois de todos os trâmites burocráticos."

Há dois dias, a reportagem tenta ver o processo, que tem como requerentes "Álvaro Lins dos Santos e outros", segundo o site do Proderj (estatal de processamento de dados).

16 de set. de 2003

PELÉ, ZICO E O RESTO

Definitivo: Pelé dixit. "O Maradona não é unanimidade nem na Argentina. Primeiro tem que resolver a questão doméstica com Di Stéfano. Nesses anos todos, o jogador que mais se aproximou de mim foi o Zico."

Foi numa entrevista ao Esporte Espetacular de domingo passado. Claro que, além da comparação entre Pelé e Zico, a outra que se depreende das palavras do Rei -- Zico x Maradona -- é pertinente, envolve dois gênios absolutos e foi, de resto, a grande polêmica de fins dos anos 70, início dos 80.

Como o Pelé, sou mais o Zicão.

O problema está em comparar o Zico com estrelas menores (bem menores, e com a língua presa) do nosso futebol, como andou ensaiando a Placar há um par de anos. Mas o Rei falou, Pelé dixit: abaixo dele, é Zico e não tem pra ninguém.




11 de set. de 2003

FALTOU MÃE

“Zico é um caso raro no futebol. Como poucos conseguiu se colocar acima de rivalidade e bairrismo e se tornar quase unanimidade em todo o planeta. É mais fácil encontrar pessoas que questionem Pelé do que Zico.”

Assim começa a excelente entrevista de Wagner Vilaron com o Zicão, publicada pelo Estado de São Paulo hoje. Vale muito a pena ler, sobretudo por uma explicação que, acho eu, o Zico nunca tinha dado: o episódio do corte do anão marrento, em 1998.

Conta o Galinho que foi ele quem pediu à comissão técnica que tivesse paciência com o anão, que esperassem algumas semanas para ver se ele se recuperava. Quando ficou claro que o marrentinho não teria condições de jogar a Copa, toda a comissão técnica tirou o corpo fora, com medo de dar a notícia ao mais insuportável de quantos jogadores vestiram a camisa amarela (e aí incluo gente finíssima do quilate de Marcelinho Carioca, Serginho Chulapa e Paulo César Caju).

“O problema é falar com ele? Então pode deixar. Fui lá e falei.” Pronto: o anão despeitado inventou aquela história estapafúrdia de que o corte foi perseguição do Zico -- conversa mole, aliás, prontamente reproduzida por alguns jornalistas assalariados (no sentido que Chateaubriand emprestava ao termo) do Rio, marionetes bem remuneradas da assessoria de imprensa do anão.

Sobre o maior de todos, o mais querido de todos disse o seguinte: “Essa história de ficar comparando com Pelé acabou com a carreira de muita gente. As pessoas levam isso a sério e acabam cobrando o jogador como se ele fosse mesmo o Pelé. É absurdo sujeitar um garoto a esse tipo de cobrança, de comparação. O cara não vai segurar a onda mesmo”.

Verdade, Zicão. Mas, se alguém um dia chegou perto disso, foi você, meu Rei.

Enquanto isso, eis aí o Ronaldinho a pedir estatísticas sobre os gols de Pelé e a fabricar factóides prontamente reproduzidos e defendidos por bobos-alegres da Folha (sempre a Folha). Numa seleta roda de amigos, disse eu que faltava ao Ronaldinho alguém como aquele soldado que acompanhava os generais romanos que regressavam triunfantes à Cidade Eterna. Ao lado do general hierático, estátua de si mesmo, ia um soldadinho soprando-lhe ao ouvido: “memento moris” -- lembra-te de que és mortal.

O Pelé não é, rapaz. Você é.

Se até o Zicão pode reconhecer, para que essa palhaçada agora?

Acho que não faltou o soldadinho, não. Faltou foi o bom-senso materno. Faltou quem dissesse: “Meu filho, pra que essa besteira? O que você ganha com isso?” Faltou mãe.

Dona Sônia, cadê a senhora?

2 de set. de 2003

OS MEUS FLAMENGO x CURINTCHA



Acredito seriamente que um dia Flamengo x Curintcha será o superclássico brasileiro, aquele que os torcedores aguardam um ano inteiro -- suplantando, assim, clássicos regionais como Flamengo x Vasco e Curintcha x Parmera. De modo que a vitória rubro-negra de anteontem, por insípida que tenha sido, merece no mínimo um registro, pelo menos como ponto de partida para minhas reminiscências de outros Flamengo x Curintcha.

Quem me ouve vituperar contra o Curintcha há de pensar que clube tão escroto alguma vez foi responsável por algum trauma meu. Pelo contrário: estive em três Flamengo x Curintcha. Nos três batemos os gambá de goleada.

O último foi um 4 x 1, em 1998, se não me engano. De um lado, o desfalque de Romário -- para variar de fora, com dorzinha na panturrilha, na barriguinha ou no útero. De outro, o líder incontestável do Brasileiro, comandado pelo intragável mas competentíssimo Wanderley Luxemburgo. Foi o maior jogo da carreira do Iranildo. Saiu aclamado, aos brados de "Chuchu é Seleção". Desnecessário dizer que Iranildo nunca mais jogou aquilo tudo e hoje mostra seu futebol refinado no Brasiliense de Luís Estêvão.

Outro foi aquele dos 5 x 2, acho que em 1994. O Zagallo, então técnico da Seleção, foi ao Maraca para ver Sávio. Viu Magno. Se não me trai a memória, Magno meteu três gols e o Sávio deu um passeio de 90 minutos pela Avenida Gralak. Naquele ano, o Curintcha seria vice-campeão, suplantado pela classe superior do maior rival.

Mas o primeiro -- ah! o primeiro... Eu tinha sete anos, fui ao Maraca levado pela mão do meu pai. 1983, tempos de Zico, Júnior, Leandro e Raul. Estreava no comando do time o Carlos Alberto Torres. Do outro lado, aquela mulambada de sempre de Biros-Biros e Casagrandes. Transcorridos 90 minutos, o placar estampava 5 x 1. Mas houve outros três gols rubro-negros, injustamente anulados.

Neste ponto, ergo a fronte e digo para quem quiser ouvir: senhores, eu vi o Flamengo meter OITO no Curintcha.

***

Ontem à noite meu amigo André Dória me chamou para ver preciosidades que ele tinha descoberto em fitas de vídeo. Após assistir a dois episódios do Documento Especial -- uma porrada na cara do telespectador ainda hoje, passados 16 anos --, a surpresa: Brasil x Irlanda do Norte, 1986.

Zicão com a bola pela direita. Nenhum irlandês consegue chegar a um metro do Galinho. Bola para Careca. Bola para Zico na entrada da área. Dois irlandeses acossam o Zicão. Foi como se a bola nunca tivesse chegado nele: com o calcanhar, a bola volta, num átimo, para Careca com o arco escancarado pela frente. Gol do Brasil.

Muita coisa passou pela minha cabeça na hora. Lembrei de como era mais genuína a alegria do povo com sua Seleção. Nossos jogadores eram nossos jogadores, o Zico era do Mengão, o Careca era do São Paulo, o Josimar era do Botafogo.

Mas a conclusão que ficou mesmo, vendo o toque de calcanhar do Zico, vendo o botafoguense Fernando Vanucci desmanchar-se em elogios os mais rasgados ao ídolo rubro-negro -- o que ficou mesmo foi o seguinte: senhores, nunca haverá outro igual.

***

Um dos meus sete leitores, Renato Freire, recentemente botou no ar mais um blog rubro-negro: Homem Gol. Não fosse eu um analfabeto em HTML, faria uma coluna de links e o incluiria lá, junto com o Nove Meses, a coluna do Juan Saavedra e demais amigos do Tinhorão. Como sou uma besta, fica pelo menos o registro, com o link no texto.

25 de ago. de 2003

CALAZANS WATCH

Fernando Calazans (foto): "O São Paulo -- esse São Paulo tão escasso de talento, tão escasso de criatividade no meio de campo -- só pode estar em terceiro num campeonato que, tecnicamente, não passa de mediano".

A passagem acima confirma a minha impressão de que o Sr. Calazans julga os times de fora do Rio tão-somente pelo que fazem contra os times do Rio. Sim, porque, ainda que este São Paulo não seja exatamente o São Paulo do Telê, dizer uma estultice dessas é coisa de quem ignora que, há alguns dias, este mesmo São Paulo tinha, a envergar suas cores, um tal Kaká (vendido) e um tal Ricardinho (machucado). E o Júlio Batista ("diga o que quiser, mas titular na Copa Ouro", lembra o amigo Juan Saavedra).

O Sr. Calazans faz julgamentos definitivos, inapeláveis pelo que viu em um único jogo. Tem, se tanto, uma vaga noção do que se passa no futebol de São Paulo e de Minas. Da Europa, vê os gols da rodada no domingo à noite e vem escrever no dia seguinte que "o Madrid anda jogando um futebol esfuziante".

Como se não bastasse a ignorância e o desconhecimento demonstrados ao longo dos anos, ainda é provinciano. De um provincianismo que ficaria bem nos jornais de São Paulo, não em páginas que já contaram com Nelson Rodrigues, Mario Filho, João Saldanha e Armando Nogueira...

4 de ago. de 2003

NOME AOS BOIS

Leonardo Gaciba. É esse o nome do juiz que apitou o Flamengo x Ponte Preta de ontem, deu inacreditáveis oito minutos de acréscimo a troco de porra nenhuma e permitiu à antipática equipe da máscula metrópole interiorana empatar o jogo a inacreditáveis 52 do segundo tempo.

Leonardo Gaciba é o mesmo cretino que, ano passado, deu um cartão amarelo para o jogador Jabá, do Coritiba, porque passou o pé em cima da bola em jogo contra o Santos. Esse luminar entendeu que, com o gesto, o jogador do Coxa estava menosprezando o adversário.

Não restam dúvidas, portanto, de que é um imbecil. Talvez, ontem, só quisesse aparecer, talvez só quisesse posar de juiz rigoroso na aplicação da lei -- o que está longe de ser verdade, de vez que não teve colhões para expulsar o ponte-pretano Alan, que, como último homem, impediu a progressão de Ânderson rumo ao gol.

Ainda não é o bastante para Leonardo Gaciba fazer companhia a Giuliano Bozzano na lista de ladrões que tanto nos têm prejudicado desde que passou a faltar pulso na Gávea. Mas convém ficar de olho nesse sujeito.

28 de jul. de 2003

CALAZANS WATCH

O Sr. Calazans gastou 19 das 156 linhas de sua coluna de hoje (cerca de 12%) descrevendo o gol do Marcelinho contra o Santos. Não terá ocorrido a ele que todo o mundo viu esse gol pela televisão? Ou acha que, narrado o gol na precisa e poética linguagem calazaniana, detalhes que até então nos escapavam por completo ficarão para sempre gravados em nossas memórias?

***

Outras 67 linhas (cerca de 42% da coluna) são utilizadas no desenvolvimento das seguintes idéias, cuja complexidade evidente bem justifica o dispêndio de quase metade do espaço disponível:

1) O México é muito ruim.

2) O Brasil perdeu do México.

3) O Brasil é um time ruim.

4) Se o Sr. Calazans diz que o Brasil é um time ruim, é porque seus padrões são elevados.

***

Sou só eu ou alguém mais também acha que esse espaço precioso do jornal seria menos desperdiçado com notícias sobre badminton, pólo aquático ou chicotinho-queimado?

21 de jul. de 2003

A LEANDRO E O TÚMULO DO SAMBA


Guarulhos, 4 de março de 2003

Diante da derrota rubro-negra de ontem, não estou com paciência para escrever sobre futebol. Meus leitores hão de me perdoar, portanto, se eu me desvio do tema precípuo deste blog para achincalhar um pouco a antipática Leandro de Itaquera e, por meio dela, o carnaval do Túmulo do Samba, São Paulo.

A foto acima foi tirada na terça-feira de carnaval de 2003. Terça-feira gorda, portanto. O local: Aeroporto Internacional de Guarulhos, onde um atraso de umas três horas no vôo que o levaria ao Rio de Janeiro garantiu ao Tinhorão a pior terça de Carnaval de sua vida. A cena: diante da mais absoluta falta do que fazer em plena terça-feira gorda, paulistanos aglomeram-se na janelinha do aeroporto para ver avião levantar vôo -- o mais emblemático programa de paulista, mais até do que o frango com macarronada vendo Silvio Santos.

A foto é mais eloqüente sobre o Carnaval paulistano do que eu jamais poderia ser.

Nos comentários ao post abaixo, um tal Professor Emerson Nunes, identificando-se como “jornalista responsável do GRC Escola de Samba Leandro de Itaquera” (whatever that means), expressa sua indignação pelo tratamento dispensado por este cronista “à nossa Vermelho e Branco (sic) da Zona Leste” e assevera, “em caráter explícito” (sic), que eu não entendo nada de carnaval e nem conheço a Leandro de Itaquera.

Pelo menos acertou em seu último palpite: não conheço e não faço questão nenhuma de conhecer. Em matéria de carnaval, sou da Estação Primeira e só respeito escola que desfile na Sapucaí. Essa conversa de desfile de escola de samba em São Paulo tem tão pouca credibilidade que os desfiles começam na sexta-feira -- antes, portanto, de começar o Carnaval. Um aquecimento razoável para o Carnaval de verdade, no más.

Mas voltemos à Leandro de Itaquera e ao Professor Emerson Nunes. O catedrático paulistano mente descaradamente ao afirmar que a Leandro de Itaquera “desde 1989 pertence ao Grupo Especial da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo”. Na verdade, foi rebaixada ao Grupo 1 (a segunda divisão do samba paulista) em 1995, e lá permaneceu por um ano. Não que eu dedique grande respeito às escolas que pertencem ao tal Grupo Especial de São Paulo: Mocidade Alegre, Unidos do Parque Peruche, Rosas de Ouro, Gaviões da Fiel, Leandro de Itaquera -- todas essas agremiações, para padrões cariocas, não passam de blocos grandinhos, ou de cordões gigantes. No Rio, seriam rebaixadas do Grupo de Acesso. O Boi da Ilha dá de goleada.

Mais sobre a Leandro de Itaquera: este ano, a escola prometeu levar à avenida um casal “simulando cenas de sexo explícito” (sic). Aparentemente não ocorreu ao Professor Emerson que ou é simulação ou é explícito. Os dois não pode ser.

Mas impagável mesmo foi o samba-enredo que eles tiveram o desplante de apresentar. O tema que tiraram da cartola foi “qualidade de vida: direito do povo” -- tema que eles conhecem só de ouvir dizer, já que moram numa cidade onde qualidade de vida é uma aspiração tão distante quanto a cura da AIDS é para o resto da humanidade. O sambinha tem versos inacreditáveis como os que se seguem, que, no Rio, garantiriam uma viagem sem volta para a terceira divisão do samba:



Viver é sempre uma arte
Hoje a humanidade está à procura de alegria
E a Vermelho e Branco vem mostrar
Que é preciso bem estar, mais qualidade de vida
[...]
Não quero mais pobreza
Nem tampouco a natureza
Sofrendo tanto mal
E aqueles que só pensam em lucrar
Um dia vão ter que mudar



Os versos -- como a foto acima -- falam por si sós. O Professor Emerson Nunes jura que eu não entendo de samba, mas ele, entendido auto-proclamado, acredita piamente que isso aí em cima é samba. Para o meu gosto, samba é Bumbum Paticundum Prugurundum, é Ziriguidum 2001; samba é o da Mocidade de 1991 (sonhar não custa nada / E o meu sonho é tão real), é o da União da Ilha de 1982 (Será que eu serei o dono desta festa / Um rei no meio de uma gente tão modesta) ou o de 1978 (a cigana leu o meu destino), é o da Estação Primeira de Mangueira de 1986 (Tem xinxim e acarajé / Tamborim e samba no pé).

Disparidade de critérios não costuma ser motivo suficiente para proclamar que o outro não entende nada de determinado assunto. Mas, no caso presente, a julgar pelos versinhos que ele jura serem a quintessência do samba, e a julgar pelos padrões por que eu costumo avaliar os méritos de uma escola (delineados acima), acho que eu é que estou em condições de asseverar, com o ar mais grave deste mundo, que o Professor Emerson Nunes não entende porra nenhuma de samba.


8 de jul. de 2003

ÉS O ALTAR DOS NOSSOS CORAÇÕES



Posso estar citando o Nelson Rodrigues com demasiada freqüência, mas o nosso maior cronista e dramaturgo descobriu uma daquelas verdades eternas quando se saiu com essa do Óbvio Ululante.

Com a licença do Nelson, então, volto a usar o Óbvio Ululante como gancho para o meu raciocínio.

Que o Rio de Janeiro, com todas as suas mazelas, é a única cidade brasileira que pode pretender sediar os Jogos Olímpicos sem cair no ridículo é de uma obviedade que chega a ofuscar. Sendo um pouco pedante, eu diria que o Rio é a nossa única world class city. A candidatura de São Paulo era um exotismo que ainda merece estudos sérios de psiquiatras e sociólogos, para não falar de especialistas em finanças públicas (sim, pois despender dinheiros públicos num projeto lunático desses justificaria uma investigação mui criteriosa do Tribunal de Contas de São Paulo, quem sabe até uma CPI).

Com todo o seu dinheiro e toda a sua pujança, São Paulo não é mais do que uma megalópole do terceiro mundo, como tantas outras que crescem como cogumelos ao sul do Trópico de Câncer. E pretender que São Paulo possa sediar os Jogos Olímpicos equivale a defender direito semelhante para Bombaim, Jacarta ou Karachi -- todas elas superpovoadas e com marcas de uma opulência relativa, arranha-céus de vidro e franquias da Louis Vuitton, mas todas elas iguaizinhas em seu terceiro-mundismo.

O Rio também é terceiro mundo, mais do que São Paulo. Mas, senhores, o Rio é o Rio! O Rio é o tráfico, as balas perdidas e as crianças no sinal, mas o Rio é também o Maracanã, Copacabana, Ipanema e Leblon. O Rio é Vinícius de Morais, Cartola, Pixinguinha, Chico Buarque e a Estação Primeira. O Rio é Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Lima Barreto, é até bastante Carlos Drummond. O Rio é o Fla-Flu, é o Cristo Redentor, é o poente do Leblon (o Rio é a única cidade do mundo onde se batem palmas para o pôr-do-sol). É o Paço Imperial, a Candelária, a Igreja do Carmo (onde se coroaram dois Imperadores) e o Palácio do Catete (onde um Presidente meteu um tiro no peito).

De onde São Paulo pode tirar méritos semelhantes para concorrer com o Rio é coisa que me intriga. A Praça da Sé, o Viaduto do Chá e o Grêmio Recreativo Escola de Samba Leandro de Itaquera? Tenham a santíssima paciência! Se o assunto é insegurança e o único mérito de São Paulo é uma normalidade fictícia, nesse quesito ela perde de goleada para absolutamente todas as demais concorrentes. Seria uma candidatura natimorta, como foi uma pré-candidatura abortiva.

Por essas e outras, e após ouvir as recentes declarações da Excelentíssima Senhora Prefeita de São Paulo, pondero e obtempero:

Tumdumdumdumdumdumdumdumtumtumtumtum

Ei, Martha, vai tomar no cu!

23 de jun. de 2003

NANICOS DA BOLA, NANICOS DA CRÔNICA

“O baixinho Igor não é nenhuma maravilha (nem pode ser com aquele tamanho), mas tem suado e honrado a camisa do Flamengo.”

O autor de semelhante atrocidade não podia ser outro senão o Sr. Fernando Calazans, que três ou quatro vezes por semana dá o ar de sua falta de graça n'O Globo, onde exerce os misteres de proclamar o óbvio e de dar palpites azedos e errados sobre o que não for de uma obviedade ofuscante.

Segundo me informa um amigo, Igor tem 1,66 m. A mesma altura de um jogador que, ainda juvenil, lá para 1975, entrou no intervalo de um jogo do Argentinos Juniors fazendo embaixadinhas e saiu aclamado pela torcida, aos gritos de “ponelo al pibe, la puta que te parió” -- põe o garoto pra jogar, caralho! O pibe depois ganhou uma Copa do Mundo sozinho e tornou-se um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. Com 1,66 m.

Estivesse o Sr. Fernando Calazans no campinho de La Paternal naquela tarde de 1975, teria batido boca com os pouquíssimos torcedores a testemunhar aquele momento histórico. Teria argumentado, com o mesmo ar de grandes merdas que assume ao dar seus palpites azedos n’O Globo, que o pibe não podia ser nenhuma maravilha, com aquele tamanho.

Uns dois centímetros acima do pibe está outro anãozinho para quem o Sr. Calazans só tem elogios, até mesmo quando não os merece, e cuja ausência da Seleção de 2002 levou o bilioso palpiteiro d’O Globo a torcer contra o Brasil.

Dando nome aos bois, mencionaria, ainda, Almir Pernambuquinho, Biguá, Babá, Marcelinho Carioca, Roberto Carlos, Alain Giresse, Saviola e Pablo Aimar. Nenhum deles, na douta opinião do Sr. Calazans, tem estatura para ser grande coisa.

Existem alguns lugares-comuns sobre o futebol que encerram verdades profundas, inapeláveis. Um deles é o de que este é o mais democrático dos esportes, que permite a um anão como Maradona olhar de cima super-homens arianos e salubérrimos súditos do Império Britânico, ou a um sujeito feio e torto como Mané Garrincha driblar com a maior desfaçatez sólidos soviéticos de futebol científico, nórdicos prósperos e bem alimentados e ainda chamar todo o mundo de João.

A despeito de sua impressionante capacidade de botar no papel quase tudo quanto é lugar-comum sobre futebol, parece que este escapou por completo ao Sr. Calazans.

(Meus agradecimentos ao Juan Saavedra pela paciência com que escarafunchou seus arquivos e tirou da cartola as estaturas de Giresse, Saviola e Aimar.)

12 de jun. de 2003

VACAS SAGRADAS E BESTAS QUADRADAS

Não estou com o melhor humor do mundo para escrever. Do jogo, comento muito pouco. Quero apenas registrar meu emputecimento com o comportamento, de domingo para cá, de algumas vacas sagradas -- ou bestas quadradas -- da crônica esportiva carioca.

Após o empate com o Cruzeiro no domingo, muita gente boa -- e o Sr. Fernando Calazans -- só faltou pedir a cabeça do Nelsinho numa bandeja, com uma maçã na boca, pela postura defensiva do time no Maracanã. Para mim, a disposição do Flamengo em campo, no domingo, foi decorrência lógica de uma correta avaliação de nossas evidentes limitações técnicas e das superiores virtudes do adversário. Para o Sr. Calazans, foi “covardia”, “culpa exclusiva do técnico”, afinal, “o Flamengo é muito maior que aquilo”.

Minha avaliação é que, depois das goleadas no Paraná, o Nelsinho fraquejou. O técnico que esbanjava autoridade há uns dois meses sentiu a seringa chegar-lhe ao cu e resolveu dar ouvidos aos palpites azedos dessa gente. Resultado: atendendo a pedidos, armou um time lindo, leve e solto para a finalíssima e olha aí a trolha que levamos.

Passo ao largo dos outros críticos cuja ênfase contribuiu para que o Nelsinho escalasse o time que escalou, ontem. Como eu disse, tinha gente boa ali, gente que entende de futebol. Quero concentrar-me no Sr. Calazans. Acho, sinceramente, inexplicável como um cretino dessa categoria continua ocupando o espaço que ocupa num dos maiores jornais do país, arrotando obviedades e eximindo-se de sua obrigação de analisar os fatos com realismo.

Sua incapacidade crônica para assimilar as mudanças por que passou o futebol de umas décadas para cá leva-o a proclamar estupidezes solenes como aquela de que a Seleção do Felipão daria um vexame maior do que o de 1966 -- voltou penta. Ou de que o Flamengo, por ser o Flamengo, não pode tomar as devidas precauções defensivas para enfrentar um Cruzeiro evidentemente superior.

A realidade vem, indefectivelmente, tratando de demonstrar que o Sr. Calazans não entende porra nenhuma de futebol. Para o bem (como no caso do Felipão) e para o mal (como na derrota de ontem).

O que é lamentável, acima de tudo, é que os palpites azedos de uma besta quadrada como o Sr. Calazans possam ter influído na perda do título. Depois das coisas lunáticas que escreveu a respeito da Seleção do Felipão, ninguém mais devia dar ouvidos a esse cavalheiro.

22 de mai. de 2003

ÀS FAVAS O FAIR PLAY

Dizem as regras do fair play que, além de saber perder com elegância, é preciso saber ganhar com graça. Às vezes acho a segunda parte mais difícil de cumprir do que a primeira, sobretudo quando o adversário nos surpreende com um injustificável clima de guerra como o que se viu ontem na Ilha do Retiro.

Peço desculpas, então, se não sigo à risca as regras do fair play e me permito tripudiar um pouco mais do Sport Recife, desenvolvendo três pensamentos que me vieram à cabeça.

1) Li neste blog que algum doido furioso fez um levantamento qualquer e concluiu que o Sport é "um dos cinco clubes mais bem administrados da América Latina".

Na minha terra, ser rebaixado para a segunda divisão é sinal de péssima administração. Parece que em Pernambuco, não. A não ser que se trate de uma estratégia a médio prazo para tornar a conquistar a segundona e, mais uma vez, posar injustificadamente de campeão do Brasil.

É que, lá em Pernambuco, título da segundona justifica estrelinha na camisa.

2) Falar em estrelinha, o Sr. Fred Domingos andou insinuando por aí que o Flamengo tem quatro estrelinhas brancas na camisa porque admitia que o título de 1987 foi do Sport, ou porque sei lá que forças superiores o impediriam de bordar a quinta.

Duas considerações: primeiro, seria lícito esperar do Sr. Domingos um pouco mais de conhecimento do Manto Sagrado, já que o Sport tem o péssimo hábito de imitar o uniforme do Flamengo. As quatro estrelinhas na camisa do Flamengo dizem respeito aos quatro tricampeonatos cariocas conquistados pelo clube, cada um deles, aliás, incomensuravelmente mais valioso que um Módulo Amarelo.

Segundo, ninguém impede ninguém de bordar na camisa quantas estrelas quiser. Não fosse assim, alguma entidade superior já tinha proibido o Vasco de jogar com a camisa pontilhada de dezoito estrelas que não valem porra nenhuma. Parece que lá até título de purrinha justifica uma estrelinha (o que não é muito mais grave do que bordar uma por causa do Módulo Amarelo).

3) Por fim, insisto em que foi incompreensível o clima de guerra com que a torcida do Sport recebeu o Flamengo ontem. Dir-se-ia que o espúrio título de 1987 é a única coisa a sustentar a auto-estima periclitante dessa gente.