16 de set. de 2003

PELÉ, ZICO E O RESTO

Definitivo: Pelé dixit. "O Maradona não é unanimidade nem na Argentina. Primeiro tem que resolver a questão doméstica com Di Stéfano. Nesses anos todos, o jogador que mais se aproximou de mim foi o Zico."

Foi numa entrevista ao Esporte Espetacular de domingo passado. Claro que, além da comparação entre Pelé e Zico, a outra que se depreende das palavras do Rei -- Zico x Maradona -- é pertinente, envolve dois gênios absolutos e foi, de resto, a grande polêmica de fins dos anos 70, início dos 80.

Como o Pelé, sou mais o Zicão.

O problema está em comparar o Zico com estrelas menores (bem menores, e com a língua presa) do nosso futebol, como andou ensaiando a Placar há um par de anos. Mas o Rei falou, Pelé dixit: abaixo dele, é Zico e não tem pra ninguém.




11 de set. de 2003

FALTOU MÃE

“Zico é um caso raro no futebol. Como poucos conseguiu se colocar acima de rivalidade e bairrismo e se tornar quase unanimidade em todo o planeta. É mais fácil encontrar pessoas que questionem Pelé do que Zico.”

Assim começa a excelente entrevista de Wagner Vilaron com o Zicão, publicada pelo Estado de São Paulo hoje. Vale muito a pena ler, sobretudo por uma explicação que, acho eu, o Zico nunca tinha dado: o episódio do corte do anão marrento, em 1998.

Conta o Galinho que foi ele quem pediu à comissão técnica que tivesse paciência com o anão, que esperassem algumas semanas para ver se ele se recuperava. Quando ficou claro que o marrentinho não teria condições de jogar a Copa, toda a comissão técnica tirou o corpo fora, com medo de dar a notícia ao mais insuportável de quantos jogadores vestiram a camisa amarela (e aí incluo gente finíssima do quilate de Marcelinho Carioca, Serginho Chulapa e Paulo César Caju).

“O problema é falar com ele? Então pode deixar. Fui lá e falei.” Pronto: o anão despeitado inventou aquela história estapafúrdia de que o corte foi perseguição do Zico -- conversa mole, aliás, prontamente reproduzida por alguns jornalistas assalariados (no sentido que Chateaubriand emprestava ao termo) do Rio, marionetes bem remuneradas da assessoria de imprensa do anão.

Sobre o maior de todos, o mais querido de todos disse o seguinte: “Essa história de ficar comparando com Pelé acabou com a carreira de muita gente. As pessoas levam isso a sério e acabam cobrando o jogador como se ele fosse mesmo o Pelé. É absurdo sujeitar um garoto a esse tipo de cobrança, de comparação. O cara não vai segurar a onda mesmo”.

Verdade, Zicão. Mas, se alguém um dia chegou perto disso, foi você, meu Rei.

Enquanto isso, eis aí o Ronaldinho a pedir estatísticas sobre os gols de Pelé e a fabricar factóides prontamente reproduzidos e defendidos por bobos-alegres da Folha (sempre a Folha). Numa seleta roda de amigos, disse eu que faltava ao Ronaldinho alguém como aquele soldado que acompanhava os generais romanos que regressavam triunfantes à Cidade Eterna. Ao lado do general hierático, estátua de si mesmo, ia um soldadinho soprando-lhe ao ouvido: “memento moris” -- lembra-te de que és mortal.

O Pelé não é, rapaz. Você é.

Se até o Zicão pode reconhecer, para que essa palhaçada agora?

Acho que não faltou o soldadinho, não. Faltou foi o bom-senso materno. Faltou quem dissesse: “Meu filho, pra que essa besteira? O que você ganha com isso?” Faltou mãe.

Dona Sônia, cadê a senhora?

2 de set. de 2003

OS MEUS FLAMENGO x CURINTCHA



Acredito seriamente que um dia Flamengo x Curintcha será o superclássico brasileiro, aquele que os torcedores aguardam um ano inteiro -- suplantando, assim, clássicos regionais como Flamengo x Vasco e Curintcha x Parmera. De modo que a vitória rubro-negra de anteontem, por insípida que tenha sido, merece no mínimo um registro, pelo menos como ponto de partida para minhas reminiscências de outros Flamengo x Curintcha.

Quem me ouve vituperar contra o Curintcha há de pensar que clube tão escroto alguma vez foi responsável por algum trauma meu. Pelo contrário: estive em três Flamengo x Curintcha. Nos três batemos os gambá de goleada.

O último foi um 4 x 1, em 1998, se não me engano. De um lado, o desfalque de Romário -- para variar de fora, com dorzinha na panturrilha, na barriguinha ou no útero. De outro, o líder incontestável do Brasileiro, comandado pelo intragável mas competentíssimo Wanderley Luxemburgo. Foi o maior jogo da carreira do Iranildo. Saiu aclamado, aos brados de "Chuchu é Seleção". Desnecessário dizer que Iranildo nunca mais jogou aquilo tudo e hoje mostra seu futebol refinado no Brasiliense de Luís Estêvão.

Outro foi aquele dos 5 x 2, acho que em 1994. O Zagallo, então técnico da Seleção, foi ao Maraca para ver Sávio. Viu Magno. Se não me trai a memória, Magno meteu três gols e o Sávio deu um passeio de 90 minutos pela Avenida Gralak. Naquele ano, o Curintcha seria vice-campeão, suplantado pela classe superior do maior rival.

Mas o primeiro -- ah! o primeiro... Eu tinha sete anos, fui ao Maraca levado pela mão do meu pai. 1983, tempos de Zico, Júnior, Leandro e Raul. Estreava no comando do time o Carlos Alberto Torres. Do outro lado, aquela mulambada de sempre de Biros-Biros e Casagrandes. Transcorridos 90 minutos, o placar estampava 5 x 1. Mas houve outros três gols rubro-negros, injustamente anulados.

Neste ponto, ergo a fronte e digo para quem quiser ouvir: senhores, eu vi o Flamengo meter OITO no Curintcha.

***

Ontem à noite meu amigo André Dória me chamou para ver preciosidades que ele tinha descoberto em fitas de vídeo. Após assistir a dois episódios do Documento Especial -- uma porrada na cara do telespectador ainda hoje, passados 16 anos --, a surpresa: Brasil x Irlanda do Norte, 1986.

Zicão com a bola pela direita. Nenhum irlandês consegue chegar a um metro do Galinho. Bola para Careca. Bola para Zico na entrada da área. Dois irlandeses acossam o Zicão. Foi como se a bola nunca tivesse chegado nele: com o calcanhar, a bola volta, num átimo, para Careca com o arco escancarado pela frente. Gol do Brasil.

Muita coisa passou pela minha cabeça na hora. Lembrei de como era mais genuína a alegria do povo com sua Seleção. Nossos jogadores eram nossos jogadores, o Zico era do Mengão, o Careca era do São Paulo, o Josimar era do Botafogo.

Mas a conclusão que ficou mesmo, vendo o toque de calcanhar do Zico, vendo o botafoguense Fernando Vanucci desmanchar-se em elogios os mais rasgados ao ídolo rubro-negro -- o que ficou mesmo foi o seguinte: senhores, nunca haverá outro igual.

***

Um dos meus sete leitores, Renato Freire, recentemente botou no ar mais um blog rubro-negro: Homem Gol. Não fosse eu um analfabeto em HTML, faria uma coluna de links e o incluiria lá, junto com o Nove Meses, a coluna do Juan Saavedra e demais amigos do Tinhorão. Como sou uma besta, fica pelo menos o registro, com o link no texto.

25 de ago. de 2003

CALAZANS WATCH

Fernando Calazans (foto): "O São Paulo -- esse São Paulo tão escasso de talento, tão escasso de criatividade no meio de campo -- só pode estar em terceiro num campeonato que, tecnicamente, não passa de mediano".

A passagem acima confirma a minha impressão de que o Sr. Calazans julga os times de fora do Rio tão-somente pelo que fazem contra os times do Rio. Sim, porque, ainda que este São Paulo não seja exatamente o São Paulo do Telê, dizer uma estultice dessas é coisa de quem ignora que, há alguns dias, este mesmo São Paulo tinha, a envergar suas cores, um tal Kaká (vendido) e um tal Ricardinho (machucado). E o Júlio Batista ("diga o que quiser, mas titular na Copa Ouro", lembra o amigo Juan Saavedra).

O Sr. Calazans faz julgamentos definitivos, inapeláveis pelo que viu em um único jogo. Tem, se tanto, uma vaga noção do que se passa no futebol de São Paulo e de Minas. Da Europa, vê os gols da rodada no domingo à noite e vem escrever no dia seguinte que "o Madrid anda jogando um futebol esfuziante".

Como se não bastasse a ignorância e o desconhecimento demonstrados ao longo dos anos, ainda é provinciano. De um provincianismo que ficaria bem nos jornais de São Paulo, não em páginas que já contaram com Nelson Rodrigues, Mario Filho, João Saldanha e Armando Nogueira...

4 de ago. de 2003

NOME AOS BOIS

Leonardo Gaciba. É esse o nome do juiz que apitou o Flamengo x Ponte Preta de ontem, deu inacreditáveis oito minutos de acréscimo a troco de porra nenhuma e permitiu à antipática equipe da máscula metrópole interiorana empatar o jogo a inacreditáveis 52 do segundo tempo.

Leonardo Gaciba é o mesmo cretino que, ano passado, deu um cartão amarelo para o jogador Jabá, do Coritiba, porque passou o pé em cima da bola em jogo contra o Santos. Esse luminar entendeu que, com o gesto, o jogador do Coxa estava menosprezando o adversário.

Não restam dúvidas, portanto, de que é um imbecil. Talvez, ontem, só quisesse aparecer, talvez só quisesse posar de juiz rigoroso na aplicação da lei -- o que está longe de ser verdade, de vez que não teve colhões para expulsar o ponte-pretano Alan, que, como último homem, impediu a progressão de Ânderson rumo ao gol.

Ainda não é o bastante para Leonardo Gaciba fazer companhia a Giuliano Bozzano na lista de ladrões que tanto nos têm prejudicado desde que passou a faltar pulso na Gávea. Mas convém ficar de olho nesse sujeito.

28 de jul. de 2003

CALAZANS WATCH

O Sr. Calazans gastou 19 das 156 linhas de sua coluna de hoje (cerca de 12%) descrevendo o gol do Marcelinho contra o Santos. Não terá ocorrido a ele que todo o mundo viu esse gol pela televisão? Ou acha que, narrado o gol na precisa e poética linguagem calazaniana, detalhes que até então nos escapavam por completo ficarão para sempre gravados em nossas memórias?

***

Outras 67 linhas (cerca de 42% da coluna) são utilizadas no desenvolvimento das seguintes idéias, cuja complexidade evidente bem justifica o dispêndio de quase metade do espaço disponível:

1) O México é muito ruim.

2) O Brasil perdeu do México.

3) O Brasil é um time ruim.

4) Se o Sr. Calazans diz que o Brasil é um time ruim, é porque seus padrões são elevados.

***

Sou só eu ou alguém mais também acha que esse espaço precioso do jornal seria menos desperdiçado com notícias sobre badminton, pólo aquático ou chicotinho-queimado?

21 de jul. de 2003

A LEANDRO E O TÚMULO DO SAMBA


Guarulhos, 4 de março de 2003

Diante da derrota rubro-negra de ontem, não estou com paciência para escrever sobre futebol. Meus leitores hão de me perdoar, portanto, se eu me desvio do tema precípuo deste blog para achincalhar um pouco a antipática Leandro de Itaquera e, por meio dela, o carnaval do Túmulo do Samba, São Paulo.

A foto acima foi tirada na terça-feira de carnaval de 2003. Terça-feira gorda, portanto. O local: Aeroporto Internacional de Guarulhos, onde um atraso de umas três horas no vôo que o levaria ao Rio de Janeiro garantiu ao Tinhorão a pior terça de Carnaval de sua vida. A cena: diante da mais absoluta falta do que fazer em plena terça-feira gorda, paulistanos aglomeram-se na janelinha do aeroporto para ver avião levantar vôo -- o mais emblemático programa de paulista, mais até do que o frango com macarronada vendo Silvio Santos.

A foto é mais eloqüente sobre o Carnaval paulistano do que eu jamais poderia ser.

Nos comentários ao post abaixo, um tal Professor Emerson Nunes, identificando-se como “jornalista responsável do GRC Escola de Samba Leandro de Itaquera” (whatever that means), expressa sua indignação pelo tratamento dispensado por este cronista “à nossa Vermelho e Branco (sic) da Zona Leste” e assevera, “em caráter explícito” (sic), que eu não entendo nada de carnaval e nem conheço a Leandro de Itaquera.

Pelo menos acertou em seu último palpite: não conheço e não faço questão nenhuma de conhecer. Em matéria de carnaval, sou da Estação Primeira e só respeito escola que desfile na Sapucaí. Essa conversa de desfile de escola de samba em São Paulo tem tão pouca credibilidade que os desfiles começam na sexta-feira -- antes, portanto, de começar o Carnaval. Um aquecimento razoável para o Carnaval de verdade, no más.

Mas voltemos à Leandro de Itaquera e ao Professor Emerson Nunes. O catedrático paulistano mente descaradamente ao afirmar que a Leandro de Itaquera “desde 1989 pertence ao Grupo Especial da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo”. Na verdade, foi rebaixada ao Grupo 1 (a segunda divisão do samba paulista) em 1995, e lá permaneceu por um ano. Não que eu dedique grande respeito às escolas que pertencem ao tal Grupo Especial de São Paulo: Mocidade Alegre, Unidos do Parque Peruche, Rosas de Ouro, Gaviões da Fiel, Leandro de Itaquera -- todas essas agremiações, para padrões cariocas, não passam de blocos grandinhos, ou de cordões gigantes. No Rio, seriam rebaixadas do Grupo de Acesso. O Boi da Ilha dá de goleada.

Mais sobre a Leandro de Itaquera: este ano, a escola prometeu levar à avenida um casal “simulando cenas de sexo explícito” (sic). Aparentemente não ocorreu ao Professor Emerson que ou é simulação ou é explícito. Os dois não pode ser.

Mas impagável mesmo foi o samba-enredo que eles tiveram o desplante de apresentar. O tema que tiraram da cartola foi “qualidade de vida: direito do povo” -- tema que eles conhecem só de ouvir dizer, já que moram numa cidade onde qualidade de vida é uma aspiração tão distante quanto a cura da AIDS é para o resto da humanidade. O sambinha tem versos inacreditáveis como os que se seguem, que, no Rio, garantiriam uma viagem sem volta para a terceira divisão do samba:



Viver é sempre uma arte
Hoje a humanidade está à procura de alegria
E a Vermelho e Branco vem mostrar
Que é preciso bem estar, mais qualidade de vida
[...]
Não quero mais pobreza
Nem tampouco a natureza
Sofrendo tanto mal
E aqueles que só pensam em lucrar
Um dia vão ter que mudar



Os versos -- como a foto acima -- falam por si sós. O Professor Emerson Nunes jura que eu não entendo de samba, mas ele, entendido auto-proclamado, acredita piamente que isso aí em cima é samba. Para o meu gosto, samba é Bumbum Paticundum Prugurundum, é Ziriguidum 2001; samba é o da Mocidade de 1991 (sonhar não custa nada / E o meu sonho é tão real), é o da União da Ilha de 1982 (Será que eu serei o dono desta festa / Um rei no meio de uma gente tão modesta) ou o de 1978 (a cigana leu o meu destino), é o da Estação Primeira de Mangueira de 1986 (Tem xinxim e acarajé / Tamborim e samba no pé).

Disparidade de critérios não costuma ser motivo suficiente para proclamar que o outro não entende nada de determinado assunto. Mas, no caso presente, a julgar pelos versinhos que ele jura serem a quintessência do samba, e a julgar pelos padrões por que eu costumo avaliar os méritos de uma escola (delineados acima), acho que eu é que estou em condições de asseverar, com o ar mais grave deste mundo, que o Professor Emerson Nunes não entende porra nenhuma de samba.


8 de jul. de 2003

ÉS O ALTAR DOS NOSSOS CORAÇÕES



Posso estar citando o Nelson Rodrigues com demasiada freqüência, mas o nosso maior cronista e dramaturgo descobriu uma daquelas verdades eternas quando se saiu com essa do Óbvio Ululante.

Com a licença do Nelson, então, volto a usar o Óbvio Ululante como gancho para o meu raciocínio.

Que o Rio de Janeiro, com todas as suas mazelas, é a única cidade brasileira que pode pretender sediar os Jogos Olímpicos sem cair no ridículo é de uma obviedade que chega a ofuscar. Sendo um pouco pedante, eu diria que o Rio é a nossa única world class city. A candidatura de São Paulo era um exotismo que ainda merece estudos sérios de psiquiatras e sociólogos, para não falar de especialistas em finanças públicas (sim, pois despender dinheiros públicos num projeto lunático desses justificaria uma investigação mui criteriosa do Tribunal de Contas de São Paulo, quem sabe até uma CPI).

Com todo o seu dinheiro e toda a sua pujança, São Paulo não é mais do que uma megalópole do terceiro mundo, como tantas outras que crescem como cogumelos ao sul do Trópico de Câncer. E pretender que São Paulo possa sediar os Jogos Olímpicos equivale a defender direito semelhante para Bombaim, Jacarta ou Karachi -- todas elas superpovoadas e com marcas de uma opulência relativa, arranha-céus de vidro e franquias da Louis Vuitton, mas todas elas iguaizinhas em seu terceiro-mundismo.

O Rio também é terceiro mundo, mais do que São Paulo. Mas, senhores, o Rio é o Rio! O Rio é o tráfico, as balas perdidas e as crianças no sinal, mas o Rio é também o Maracanã, Copacabana, Ipanema e Leblon. O Rio é Vinícius de Morais, Cartola, Pixinguinha, Chico Buarque e a Estação Primeira. O Rio é Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Lima Barreto, é até bastante Carlos Drummond. O Rio é o Fla-Flu, é o Cristo Redentor, é o poente do Leblon (o Rio é a única cidade do mundo onde se batem palmas para o pôr-do-sol). É o Paço Imperial, a Candelária, a Igreja do Carmo (onde se coroaram dois Imperadores) e o Palácio do Catete (onde um Presidente meteu um tiro no peito).

De onde São Paulo pode tirar méritos semelhantes para concorrer com o Rio é coisa que me intriga. A Praça da Sé, o Viaduto do Chá e o Grêmio Recreativo Escola de Samba Leandro de Itaquera? Tenham a santíssima paciência! Se o assunto é insegurança e o único mérito de São Paulo é uma normalidade fictícia, nesse quesito ela perde de goleada para absolutamente todas as demais concorrentes. Seria uma candidatura natimorta, como foi uma pré-candidatura abortiva.

Por essas e outras, e após ouvir as recentes declarações da Excelentíssima Senhora Prefeita de São Paulo, pondero e obtempero:

Tumdumdumdumdumdumdumdumtumtumtumtum

Ei, Martha, vai tomar no cu!

23 de jun. de 2003

NANICOS DA BOLA, NANICOS DA CRÔNICA

“O baixinho Igor não é nenhuma maravilha (nem pode ser com aquele tamanho), mas tem suado e honrado a camisa do Flamengo.”

O autor de semelhante atrocidade não podia ser outro senão o Sr. Fernando Calazans, que três ou quatro vezes por semana dá o ar de sua falta de graça n'O Globo, onde exerce os misteres de proclamar o óbvio e de dar palpites azedos e errados sobre o que não for de uma obviedade ofuscante.

Segundo me informa um amigo, Igor tem 1,66 m. A mesma altura de um jogador que, ainda juvenil, lá para 1975, entrou no intervalo de um jogo do Argentinos Juniors fazendo embaixadinhas e saiu aclamado pela torcida, aos gritos de “ponelo al pibe, la puta que te parió” -- põe o garoto pra jogar, caralho! O pibe depois ganhou uma Copa do Mundo sozinho e tornou-se um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos. Com 1,66 m.

Estivesse o Sr. Fernando Calazans no campinho de La Paternal naquela tarde de 1975, teria batido boca com os pouquíssimos torcedores a testemunhar aquele momento histórico. Teria argumentado, com o mesmo ar de grandes merdas que assume ao dar seus palpites azedos n’O Globo, que o pibe não podia ser nenhuma maravilha, com aquele tamanho.

Uns dois centímetros acima do pibe está outro anãozinho para quem o Sr. Calazans só tem elogios, até mesmo quando não os merece, e cuja ausência da Seleção de 2002 levou o bilioso palpiteiro d’O Globo a torcer contra o Brasil.

Dando nome aos bois, mencionaria, ainda, Almir Pernambuquinho, Biguá, Babá, Marcelinho Carioca, Roberto Carlos, Alain Giresse, Saviola e Pablo Aimar. Nenhum deles, na douta opinião do Sr. Calazans, tem estatura para ser grande coisa.

Existem alguns lugares-comuns sobre o futebol que encerram verdades profundas, inapeláveis. Um deles é o de que este é o mais democrático dos esportes, que permite a um anão como Maradona olhar de cima super-homens arianos e salubérrimos súditos do Império Britânico, ou a um sujeito feio e torto como Mané Garrincha driblar com a maior desfaçatez sólidos soviéticos de futebol científico, nórdicos prósperos e bem alimentados e ainda chamar todo o mundo de João.

A despeito de sua impressionante capacidade de botar no papel quase tudo quanto é lugar-comum sobre futebol, parece que este escapou por completo ao Sr. Calazans.

(Meus agradecimentos ao Juan Saavedra pela paciência com que escarafunchou seus arquivos e tirou da cartola as estaturas de Giresse, Saviola e Aimar.)

12 de jun. de 2003

VACAS SAGRADAS E BESTAS QUADRADAS

Não estou com o melhor humor do mundo para escrever. Do jogo, comento muito pouco. Quero apenas registrar meu emputecimento com o comportamento, de domingo para cá, de algumas vacas sagradas -- ou bestas quadradas -- da crônica esportiva carioca.

Após o empate com o Cruzeiro no domingo, muita gente boa -- e o Sr. Fernando Calazans -- só faltou pedir a cabeça do Nelsinho numa bandeja, com uma maçã na boca, pela postura defensiva do time no Maracanã. Para mim, a disposição do Flamengo em campo, no domingo, foi decorrência lógica de uma correta avaliação de nossas evidentes limitações técnicas e das superiores virtudes do adversário. Para o Sr. Calazans, foi “covardia”, “culpa exclusiva do técnico”, afinal, “o Flamengo é muito maior que aquilo”.

Minha avaliação é que, depois das goleadas no Paraná, o Nelsinho fraquejou. O técnico que esbanjava autoridade há uns dois meses sentiu a seringa chegar-lhe ao cu e resolveu dar ouvidos aos palpites azedos dessa gente. Resultado: atendendo a pedidos, armou um time lindo, leve e solto para a finalíssima e olha aí a trolha que levamos.

Passo ao largo dos outros críticos cuja ênfase contribuiu para que o Nelsinho escalasse o time que escalou, ontem. Como eu disse, tinha gente boa ali, gente que entende de futebol. Quero concentrar-me no Sr. Calazans. Acho, sinceramente, inexplicável como um cretino dessa categoria continua ocupando o espaço que ocupa num dos maiores jornais do país, arrotando obviedades e eximindo-se de sua obrigação de analisar os fatos com realismo.

Sua incapacidade crônica para assimilar as mudanças por que passou o futebol de umas décadas para cá leva-o a proclamar estupidezes solenes como aquela de que a Seleção do Felipão daria um vexame maior do que o de 1966 -- voltou penta. Ou de que o Flamengo, por ser o Flamengo, não pode tomar as devidas precauções defensivas para enfrentar um Cruzeiro evidentemente superior.

A realidade vem, indefectivelmente, tratando de demonstrar que o Sr. Calazans não entende porra nenhuma de futebol. Para o bem (como no caso do Felipão) e para o mal (como na derrota de ontem).

O que é lamentável, acima de tudo, é que os palpites azedos de uma besta quadrada como o Sr. Calazans possam ter influído na perda do título. Depois das coisas lunáticas que escreveu a respeito da Seleção do Felipão, ninguém mais devia dar ouvidos a esse cavalheiro.

22 de mai. de 2003

ÀS FAVAS O FAIR PLAY

Dizem as regras do fair play que, além de saber perder com elegância, é preciso saber ganhar com graça. Às vezes acho a segunda parte mais difícil de cumprir do que a primeira, sobretudo quando o adversário nos surpreende com um injustificável clima de guerra como o que se viu ontem na Ilha do Retiro.

Peço desculpas, então, se não sigo à risca as regras do fair play e me permito tripudiar um pouco mais do Sport Recife, desenvolvendo três pensamentos que me vieram à cabeça.

1) Li neste blog que algum doido furioso fez um levantamento qualquer e concluiu que o Sport é "um dos cinco clubes mais bem administrados da América Latina".

Na minha terra, ser rebaixado para a segunda divisão é sinal de péssima administração. Parece que em Pernambuco, não. A não ser que se trate de uma estratégia a médio prazo para tornar a conquistar a segundona e, mais uma vez, posar injustificadamente de campeão do Brasil.

É que, lá em Pernambuco, título da segundona justifica estrelinha na camisa.

2) Falar em estrelinha, o Sr. Fred Domingos andou insinuando por aí que o Flamengo tem quatro estrelinhas brancas na camisa porque admitia que o título de 1987 foi do Sport, ou porque sei lá que forças superiores o impediriam de bordar a quinta.

Duas considerações: primeiro, seria lícito esperar do Sr. Domingos um pouco mais de conhecimento do Manto Sagrado, já que o Sport tem o péssimo hábito de imitar o uniforme do Flamengo. As quatro estrelinhas na camisa do Flamengo dizem respeito aos quatro tricampeonatos cariocas conquistados pelo clube, cada um deles, aliás, incomensuravelmente mais valioso que um Módulo Amarelo.

Segundo, ninguém impede ninguém de bordar na camisa quantas estrelas quiser. Não fosse assim, alguma entidade superior já tinha proibido o Vasco de jogar com a camisa pontilhada de dezoito estrelas que não valem porra nenhuma. Parece que lá até título de purrinha justifica uma estrelinha (o que não é muito mais grave do que bordar uma por causa do Módulo Amarelo).

3) Por fim, insisto em que foi incompreensível o clima de guerra com que a torcida do Sport recebeu o Flamengo ontem. Dir-se-ia que o espúrio título de 1987 é a única coisa a sustentar a auto-estima periclitante dessa gente.


21 de mai. de 2003

NO MUNDO DA FICÇÃO

Ontem, conversando com meu amigo Gustavo de Almeida, chegamos, ambos, à conclusão de que estamos perdendo tempo demais escrevendo sobre polêmicas inexistentes, sobre questões que só existem nas cabeças desajustadas de uma meia dúzia de casos clínicos. Nos últimos dias, tive de gastar o meu latim pelo menos duas vezes no exercício fastidioso de demonstrar o óbvio: que a torcida do Flamengo é a maior do Brasil e que o Zico não foi “jogador de Maracanã”.

Seria inconcebível, numa sociedade saudável, que senhores atarefados como nós outros tivessem de gastar trinta, quarenta minutos de seu dia emitindo opiniões sobre o óbvio. É como se eu tivesse de parar tudo o que estou fazendo para redigir um artigo demonstrando cabalmente que, acima de zero grau, o gelo derrete, ou que os corpos de maior massa atraem os de menor massa.

Mas um país onde qualquer Alec Duarte pode emitir seus palpites azedos em jornais de grande circulação, onde um sujeitinho ignóbil como Jorge Kajuru fala e as pessoas ouvem, onde se respeitam as opiniões de um pulha do quilate de Milton Neves -- um país assim não pode ser um país sério.

Hoje, eis-me aqui parando tudo o que tinha para fazer para escrever sobre o óbvio de novo. Tudo por conta de outra nulidade, outro zé-ninguém que se fez ouvir e que teve seu arrazoado incongruente publicado pela imprensa de todo o país. Trata-se, desta vez, de um cavalheiro que atende pelo nome de Fred Domingos e que, além da desdita de ser Fred Domingos, ainda padece do infortúnio de ser diretor de futebol do Sport Recife.

Mais uma vez a pretensão absurda do Sport Recife de ser reconhecido como o campeão brasileiro de 1987. Já não há muito o que dizer sobre o assunto. Campeão do Brasil é o time que se sentiu campeão do Brasil ao término de 90 minutos, é o time cuja torcida comemorou sinceramente o título após o apito final. É o time cuja glória foi testemunhada pela torcida brasileira, comemorada pela torcida própria e amaldiçoada pelas torcidas adversárias, diga a CBF o que disser.

Em 1987, esse time foi o Flamengo. Foi -- para usar a fórmula lapidar de Juca Kfouri -- “o melhor de um campeonato entre os melhores”, foi campeão diante de cem mil pessoas, teve sua glória testemunhada por um Franz Beckenbauer (que não sairia de seu hotel debaixo daquele aguaceiro todo para testemunhar um fato intranscendente) e por milhões de telespectadores Brasil afora.

O Sport, por seu turno, jogou um jogo que ninguém viu contra o Guarani, que a Globo não transmitiu, que não provocou um único bocejo do torcedor brasileiro, que nem sabia que àquela altura ainda tinha campeonato em andamento no Brasil (na cabeça do torcedor, a temporada terminou em 13 de dezembro, data da conquista do Flamengo). E, como se tudo isso não fosse demérito suficiente, ainda resolveu dividir o título com essa potência do futebol pátrio que é o Guarani de Campinas.

Mesmo diante de fatos tão límpidos, tão inequívocos, é óbvio que sempre haverá os espíritos-de-porco que se agarrarão a qualquer desculpa esfarrapada para contestar a glória do Flamengo. Não os culpo, eu faria a mesma coisa. E a desculpa esfarrapada que os assiste é o fato de a CBF do impoluto Nabi Abi Chedid ter declarado o Sport campeão do Brasil.

Deixando de lado o fato de essa decisão ter-se pautado por critérios meramente políticos -- a CBF estava desesperada para cortar as asinhas dos grandes clubes do Brasil, que subitamente descobriram que não precisavam dela para nada --, centrando-me tão-somente no mérito da decisão, eis o que posso argumentar em defesa do óbvio: o campeão do Brasil é quem o povo reconhece como tal, e não quem tem seu nome escrito num livrinho empoeirado num arquivo na Rua da Alfândega.

Uma decisão que ignore isso é como a ordem daquele rei do Pequeno Príncipe que determinava ao sol que nascesse a oeste ou que as estrelas deixassem de brilhar. Não é nem inválida, não é nem nula de pleno direito -- é uma decisão inexistente.

Inexistente como as polêmicas que me têm ocupado de uns tempos para cá.

15 de mai. de 2003

TIREN PAPELITOS, MUCHACHOS



Y muchísimas gracias, che.


MAIS ALEC DUARTE

Problemas técnicos com The Blog -- que me fazem, cada vez mais, achar graça no artigo definido no nome deste serviço -- impediram-me de manter meus três leitores informados de minha correspondência com o Sr. Alec Duarte (ver post abaixo). Enfim, atualizo só para fins de registro.

Logo depois de receber, por e-mail, o meu post "As sandices dum tal Alec Duarte", o palpiteiro da Folha me mandou a seguinte respostinha sebosa:

Caro, obrigado pela mensagem e pela participação.

Eu apenas gostaria de reiterar que a homenagem em seu blog é injusta, posto que em nenhum momento emiti juízo de valor sobre o assunto. Apenas registrei que o próprio Zico, em sua autobiografia, tratava a questão de forma contraditória.

Não houve palpite nem tão pouco opinião.

Um forte abraço
ALEC DUARTE


(Sic, sic, sic.)

Mandei-lhe resposta mostrando-lhe que, muitas vezes, a simples escolha de um tema implica tomada de posição do autor -- sobretudo a escolha de um tema morto e enterrado como esse --, ainda que a opinião do autor não venha expressa em gráficos coloridos para o leitor da Folha entender.

Dei-lhe, ainda, uma oportunidade de fazer conhecer sua opinião sobre esse tema, ao perguntar-lhe, na lata: afinal de contas, o senhor acha ou não que o Zico foi "jogador de Maracanã"?

Até agora não obtive resposta.

7 de mai. de 2003

AS SANDICES DUM TAL ALEC DUARTE

Que a Folha de São Paulo é um jornal para débil mental é coisa que ninguém em sã consciência questiona. Desde que me entendo por gente, o pasquim paulistano sempre se pautou pela regra do mínimo denominador comum: para ser o “maior jornal do país”, é preciso atingir o maior número de leitores; para atingir o maior número de leitores, tudo o que se escrevinha na Folha deve ser acessível à inteligência mediana -- na nossa como em qualquer sociedade, um mero eufemismo para ignorância mediana.

Essa política da Folha traduz-se, no conteúdo do pasquim, numa infinidade de idiossincrasias bastante irritantes para quem estiver um pouquinho acima do mínimo denominador comum. É a determinação cretina de que não conste da primeira página um único período composto; são os gráficos imbecis que pretendem reduzir todos os aspectos de realidades complexas a factóides facilmente absorvíveis pela massa ignara; são as abundantes referências a cifras e estatísticas que, na cabeça simplória do leitor da Folha, sacramentam qualquer estultice decretada pela antipática equipe do Sr. Otávio Frias Filho. (O leitor da Folha sente temor reverencial por qualquer coisa expressa em algarismos arábicos e ignora a advertência de Delfim Netto: “estatísticas são como o biquíni: o que mostram é interessante, mas o que escondem é fundamental”.)

Que um jornal tão porcamente redigido e editado ainda abra espaço a alguns dos mais opiniáticos, self-righteous (o português não me basta para descrever essa choldra) e viadinhos colunistas da imprensa brasileira é fato que só vem tornar mais grave o estado de coisas descrito acima.

Não é de se estranhar, portanto, que, com o escrete que a Folha abriga e remunera, o jornal acolha de braços abertos um Alec Duarte. Para mim, um ilustre desconhecido até hoje, quando me chegou às mãos um texto perpetrado por esse cavalheiro (“Afinal, Zico era ou não era?”). Nesta singela maravilha da arte do palpite azedo, o Sr. Duarte esmera-se naquilo que Nelson Rodrigues chamou de “opinião de torcedor do Bonsucesso” -- opiniões que ninguém provido de um mínimo de sentido comum levaria em consideração, e que uma sociedade sadia jamais permitiria serem impressas no “maior jornal do país”.

To cut a long story short... o Sr. Duarte pretende ressuscitar a polêmica -- outrora tão alimentada pela paroquial imprensa paulistana, e enterrada lá se vão uns vinte anos -- sobre se Zico era ou não “jogador de Maracanã”. E, para fundamentar a opinião cretina que ele deixa patente com a simples escolha de tema tão anacrônico para sua coluna, o Sr. Duarte saiu-se com a seguinte -- e, no caso da Folha, indefectível -- estatística. Zico marcou 49,85% dos seus gols no Maracanã (com casas decimais e tudo!). Ergo, é jogador de Maracanã.

Deixando de lado a constatação óbvia de que, se 49,85% dos gols foram marcados no Maior do Mundo, 50,15% (a maioria absoluta) não o foram (ora, pois!), fico cá imaginando que, se alguém se dispusesse a fazer semelhante levantamento estéril sobre os gols de, digamos, Garrincha, chegaria a conclusão muito parecida sobre o Mané: que era jogador de Maracanã. Faça-se o mesmo com qualquer jogador de um clube só (ou predominantemente de um clube) e, por uma fatalidade matemática, chega-se a conclusões semelhantes: Eusébio é jogador do Estádio da Luz, George Best é jogador de Old Trafford, Obdulio Varela foi jogador de Centenario, Arsenio Érico e Bochini são jogadores de Doble Visera, Labruna é jogador de Monumental e assim por diante. Por quanto tempo é preciso prosseguir para que o Sr. Duarte se convença da sandice que publicou?

Eu disse, alhures, que, para mim, a liberdade de opinião é um direito sacrossanto. Não me escandaliza que o Sr. Duarte tenha as opiniões que tem. O que me escandaliza, sim, é que o “maior jornal do país” tenha a desfaçatez de publicar esse arrazoado incongruente como se de bom jornalismo se tratasse.

27 de abr. de 2003

FLAMENGO x CURINTCHA, RIO x SÃO PAULO



Amanhã tem Flamengo x Curintcha. Por particularidades da história do futebol brasileiro, o clássico não desperta todas as atenções que justificaria. Noutras latitudes, o superclássico, aquele para o qual os torcedores se preparam psicologicamente um semestre inteiro, costuma ser o jogo entre os maiores clubes das duas principais cidades do país. Real Madrid x Barcelona é apenas o exemplo mais óbvio. Também é o caso de Benfica x Porto, Arsenal x Manchester United, Paris Saint Germain x Olympique de Marselha (o clube do coração de todos os meridionais).

No Brasil, pela descentralização em que se desenvolveu nosso futebol, as rivalidades são, antes, locais. Superclássico é Fla-Flu, é Grenal, é Curintcha x Parmera.

Mas, embora encarado como mais um jogo do calendário, Flamengo x Curintcha é mais que um clássico. É o confronto entre dois modos de vida, entre duas concepções distintas e não raro antagônicas da vida e do Brasil.

Por conta dessa descentralização, muito rubro-negro nutre simpatias pelo Curintcha, por ser o clube do povão de São Paulo, e pelos mesmos motivos muito curintchano gosta do Flamengo. Não assim o Tinhorão. Não tenho a mais mínima simpatia pelas cores (or lack thereof) do Curintcha. Não gosto de seus ídolos (Vladimires e Biros-Biros e Pequenos Polegares), não desgosto de seus inimigos e não acho a menor graça em sua torcida.

Certa vez, no início dos anos 90, vendo um jogo qualquer do Curintcha pela TV, ouço uma algaravia indecifrável vindo das arquibancadas. Apuro o ouvido e mal consigo discernir que se trata apenas de uma vogal, um O prolongado até a torcida perder o fôlego. A coisa mais sem graça que já ouvi num estádio. Tempos depois, no Maracanã, ouço a torcida do Flamengo, feliz com o time, cantar com toda a ginga, com a pura intuição musical do carioca a melodia de Runaround Sue (um twist do Chubby Checker). Uma coisa linda aquelas trinta, quarenta mil vozes cantando, não um, mas todos os Os do mesmíssimo refrão.

E essa pequena diferença, senhores, diz muito sobre as torcidas de Flamengo e Curintcha. Nos anos 80, quando Zico, Júnior e Leandro punham os adversários na roda, nós dávamos a trilha sonora com Bumbum Paticundum Prugurundum. Todo o mundo sabia a letra, todo o mundo cantava no ritmo, todo o mundo pulava no compasso. Quando conquistamos nosso último título nacional, em 1992, todo o mundo cantava o samba da Mocidade -- Sonhar não custa nada / E o meu sonho é tão real -- enquanto nosso sonho ia concretizando-se ali, na nossa frente, nos pés hábeis de Júnior, na raça do infatigável Nélio, nas cabeçadas mortais do Gaúcho.

Do outro lado, além de uma vogal prolongada até se perder a voz, o que é que canta a torcida do Curintcha quando o time joga bem e ela esquece, por um breve momento, que mora em São Paulo, que na volta tem engarrafamento debaixo de uma garoa de merda, que de noite tem as sobras do frango com macarronada? Ela jura que canta samba, senhores! Mas canta com a mesma intimidade com que canta o twist do Chubby Checker. “Me dê a mão / Me abraça”... Uma merda, um lixo! Fosse no Rio, com esse sambinha e esse desfile, a escola seria rebaixada do Grupo de Acesso.

Sei que estou cansando meus três leitores com essas divagações e, por isso, não quero alongar-me no que faz de Flamengo x Curintcha o duelo de duas concepções opostas da vida e do Brasil. Com essas considerações musicais, apenas esboço o que eu queria dizer.

Digo só mais uma coisa: ultimamente, essa torcida que não sabe torcer tem tido o topete de se comparar à nossa, alardeia aos quatro ventos que é a maior do Brasil. Não é verdade, e os números bem o demonstram. Mas é fato que, de uns dez anos para cá, começou a acontecer essa coisa inusitada: muita gente de fora de São Paulo passou a torcer para os times de lá. Até então, Curintcha e Parmera só tinham torcida em seu estado. O resto do Brasil dividia-se entre os times locais e os do Rio. Não sei bem o que dizer sobre isso. Digo, apenas, que é muito difícil eu me identificar com um país que se identifica com São Paulo.

Deve ser banzo. Estou há tempo demais longe do Rio. E, apesar de tudo o que está acontecendo por lá, apesar dos Garotinhos e do estado de calamidade que eles juram controlar um dia, apesar de tudo estou morrendo de saudade.

Preciso urgentemente ir ao Maracanã.

21 de abr. de 2003

CONSIDERAÇÕES SOBRE O GALO



Quando eu despertei para o futebol, um dos fatos que mais chamavam a minha atenção era a singular aptidão que tinha o Clube Atlético Mineiro para se foder de verde e amarelo -- ou de preto e branco, como queiram. Era a época do maior Flamengo de todos os tempos, e Leandro, Júnior, Nunes e Zico fizeram do detestável Galo das Alterosas eterno freguês ressentido do Flamengo.

Seria um exercício inútil enumerar aqui todas as ocasiões em que o Galo chegou para decidir e a massa atleticana -- como, em Beagá, e só em Beagá, se convencionou chamar a torcida do time -- saiu do estádio cabisbaixa e com as insossas bandeirinhas alvinegras enroladas. Nem este post tem por objetivo fazer um levantamento histórico dessa magnitude. Pretende, antes, aventurar-se no terreno batido da psicologia de botequim e esmiuçar as razões pelas quais são tão numerosos os fracassos atleticanos na hora de decidir.

Quem não conhece Beagá como eu conheço há de estar justificadamente surpreso com a pretensão diletante do Tinhorão de se meter em coisa tão complexa como a psicologia coletiva de uma torcida composta por gente das mais variadas condições, classes sociais, preferências sexuais etc. Mas o forasteiro que visita Beagá e trava contato com a torcida do Galo não demora a se convencer de que está diante de um fenômeno psicológico digno de ser estudado em maior profundidade: é a torcida mais ressentida do Brasil, a mais recalcada, a mais invejosa.

Mas não se trata só disso. Essa patologia coletiva engendrou uma outra, muito mais irritante para o forasteiro que queira debater racionalmente com essa gente: à força de tanto se foder, o atleticano acabou convencendo-se de que nada do que lhe aconteça de ruim é culpa de seus jogadores. O Galo é eternamente perseguido, eternamente injustiçado, eternamente sacaneado por uma instituição sinistra que eles denominam o Eixo.

Na cabeça ressentida dessa gente, os dirigentes de Rio e São Paulo (o Eixo em questão é o Eixo Rio-SP) sentam-se regularmente a uma mesa redonda n'algum lugar secreto e inconfessável e comprazem-se em inventar novas fórmulas para sacanear os clubes de fora do Eixo, mas mui especialmente o Galo. Chega a ser comovedor, de tão inocente, imaginar Eurico Miranda atirando-se aos braços de Hélio Ferraz e, juntos, irmanados, comprometerem-se a fazer todos os esforços possíveis para ajudar o maior inimigo se ele disputar o que quer que seja com o Atlético.

Seria apenas mais uma teoria conspiratória entre tantas se não redundasse em conseqüências bastante palpáveis: com o refinamento da teoria, os atleticanos têm sempre à mão uma desculpa infalível a justificar todos os seus fracassos: é tudo culpa do Eixo. O Atlético fez dez pontos a mais que o campeão São Paulo em 1977, e ainda assim teve de decidir nos pênaltis? Culpa do Eixo, que, ao elaborar o regulamento, previu que o Galo ia disparar na frente. O Reinaldo foi expulso por fazer especulações sobre a honestidade da mãe do Sr. José de Assis Aragão, em 1980? Culpa do Eixo. O Palhinha foi expulso na mesma ocasião porque pediu para ser expulso? Culpa do Eixo. O Reinaldo foi expulso no ano seguinte por calçar o Zico por trás? Culpa do Eixo.

E, enquanto o atleticano mergulha nessa auto-complacência que tudo explica como maquinações sinistras de uma entidade fictícia, o cruzeirense trata de trabalhar, aceitar seus próprios fracassos como decorrências de imperfeições suas e vai, ao longo do tempo, acumulando títulos e mais títulos de relevo, entre Copas do Brasil e Copas Libertadores.

Por que isso agora? Porque Cruzeiro e Atlético têm tudo para disparar na frente neste Brasileiro. A minha aposta é que chegou a vez de o Cruzeiro levantar a taça. Num campeonato tão longo, serão inúmeras as oportunidades para o atleticano convencer-se de que o estão sacaneando e mergulhar nesse fatalismo tão típico dele.

Difícil vai ser explicar por que cazzo o Eixo fez do também belo-horizontino Cruzeiro o campeão do Brasil de 2003.

16 de abr. de 2003

SIN PALABRAS

10 de abr. de 2003

O ANTI-RUBRO-NEGRO

Esta semana recomeçaram, pela centésima vez, os rumores de que Romário poderia estar de volta à Gávea.

Talvez seja honesto deixar claro, desde já, que minha percepção sobre este assunto está fortemente condicionada pelo relacionamento que, ao longo dos anos, o anãozinho manteve com nosso ídolo maior.

Quando o Flamengo era o Flamengo e jogar lá era um privilégio, não um favor que nos faziam, seria inconcebível um atleta que desejasse continuar vestindo o Manto sair dizendo desaforos ao Zicão. Chamá-lo “perdedor” porque não ganhou uma Copa do Mundo seria interpretado da única maneira admissível: como um desrespeito supremo ao Clube de Regatas do Flamengo, a sua história, a suas conquistas, a sua torcida. Ofender dessa maneira alguém que ganhou tudo pelo Flamengo, que escreveu o nome do Flamengo na taça de campeão do mundo, seria encarado como pouco caso intolerável à centenária história rubro-negra: os títulos do Flamengo, mesmo os mais importantes, mesmo os que custaram o sangue de seus jogadores, valem pouco ou nada na opinião do débil-mental que diz uma coisa dessas.

Que vá jogar com essa atitude no Fluminense ou no Vasco é problema do Fluminense ou do Vasco. Se quer jogar com essa atitude no maior clube do mundo, que vá para a puta que o pariu. Assim deveria reagir todo rubro-negro consciente e orgulhoso da história de seu clube. Claro, há os imbecis de pai e mãe que, entre Zico e Romário, estão com o anão. Há os calhordas que, diante do corte do nanico da Seleção de 1998, têm o topete de ir ao aeroporto -- com a camisa do Flamengo! -- fazer um teatrinho histérico e rasgar a foto do Zico.

Bem sei que o rapaz em questão levou uns tabefes merecidos numa briga de bar. Mas não foi o único a merecê-los. Existe uma geração perdida, que acompanha futebol de 1993 para cá, para quem o paradigma de craque e ídolo será eternamente o anãozinho vagabundo do Romário, com seu ego inflado e seu desprezo pelas cores que veste. Esses garotos, salvo os que se ilustraram e aprenderam o que é ser Flamengo, também mereciam levar uns safanões em casa. E o Romário, ídolo dessa gente que, ao idolatrá-lo, cospe no símbolo do clube, não devia poder passar nem na calçada de nossa sede.

Existem outras considerações, mais comezinhas, pelas quais não quero esse anão vagabundo na Gávea. Têm a ver com o ambiente de trabalho do clube, que se veria irremediavelmente perturbado com a volta do arruaceiro do Romário, num momento em que o de que o Nelsinho mais precisa é de tempo e tranqüilidade para botar a casa em ordem e montar um time.

Mas, francamente, diante de motivos que têm a ver com a nossa identidade de rubro-negros, nem deveria ser necessário esboçar esses outros argumentos.

7 de abr. de 2003

OLHA O BOZZANO AÍ...

Com o palpite do Gustavo, eu já tinha cantado a pedra aqui, então vangloriemo-nos.

O São Paulo x Cruzeiro de ontem provou que o tal Giuliano Bozzano é um incompetente de marca maior. Não me lembro de ter visto um juiz inventar três pênaltis num único jogo.

Some-se isso ao assalto à mão armada que praticou contra o Flamengo no ano passado e temos o veredito: incompetente e ladrão. Não devia apitar nem futebol de botão.