27 de abr. de 2003

FLAMENGO x CURINTCHA, RIO x SÃO PAULO



Amanhã tem Flamengo x Curintcha. Por particularidades da história do futebol brasileiro, o clássico não desperta todas as atenções que justificaria. Noutras latitudes, o superclássico, aquele para o qual os torcedores se preparam psicologicamente um semestre inteiro, costuma ser o jogo entre os maiores clubes das duas principais cidades do país. Real Madrid x Barcelona é apenas o exemplo mais óbvio. Também é o caso de Benfica x Porto, Arsenal x Manchester United, Paris Saint Germain x Olympique de Marselha (o clube do coração de todos os meridionais).

No Brasil, pela descentralização em que se desenvolveu nosso futebol, as rivalidades são, antes, locais. Superclássico é Fla-Flu, é Grenal, é Curintcha x Parmera.

Mas, embora encarado como mais um jogo do calendário, Flamengo x Curintcha é mais que um clássico. É o confronto entre dois modos de vida, entre duas concepções distintas e não raro antagônicas da vida e do Brasil.

Por conta dessa descentralização, muito rubro-negro nutre simpatias pelo Curintcha, por ser o clube do povão de São Paulo, e pelos mesmos motivos muito curintchano gosta do Flamengo. Não assim o Tinhorão. Não tenho a mais mínima simpatia pelas cores (or lack thereof) do Curintcha. Não gosto de seus ídolos (Vladimires e Biros-Biros e Pequenos Polegares), não desgosto de seus inimigos e não acho a menor graça em sua torcida.

Certa vez, no início dos anos 90, vendo um jogo qualquer do Curintcha pela TV, ouço uma algaravia indecifrável vindo das arquibancadas. Apuro o ouvido e mal consigo discernir que se trata apenas de uma vogal, um O prolongado até a torcida perder o fôlego. A coisa mais sem graça que já ouvi num estádio. Tempos depois, no Maracanã, ouço a torcida do Flamengo, feliz com o time, cantar com toda a ginga, com a pura intuição musical do carioca a melodia de Runaround Sue (um twist do Chubby Checker). Uma coisa linda aquelas trinta, quarenta mil vozes cantando, não um, mas todos os Os do mesmíssimo refrão.

E essa pequena diferença, senhores, diz muito sobre as torcidas de Flamengo e Curintcha. Nos anos 80, quando Zico, Júnior e Leandro punham os adversários na roda, nós dávamos a trilha sonora com Bumbum Paticundum Prugurundum. Todo o mundo sabia a letra, todo o mundo cantava no ritmo, todo o mundo pulava no compasso. Quando conquistamos nosso último título nacional, em 1992, todo o mundo cantava o samba da Mocidade -- Sonhar não custa nada / E o meu sonho é tão real -- enquanto nosso sonho ia concretizando-se ali, na nossa frente, nos pés hábeis de Júnior, na raça do infatigável Nélio, nas cabeçadas mortais do Gaúcho.

Do outro lado, além de uma vogal prolongada até se perder a voz, o que é que canta a torcida do Curintcha quando o time joga bem e ela esquece, por um breve momento, que mora em São Paulo, que na volta tem engarrafamento debaixo de uma garoa de merda, que de noite tem as sobras do frango com macarronada? Ela jura que canta samba, senhores! Mas canta com a mesma intimidade com que canta o twist do Chubby Checker. “Me dê a mão / Me abraça”... Uma merda, um lixo! Fosse no Rio, com esse sambinha e esse desfile, a escola seria rebaixada do Grupo de Acesso.

Sei que estou cansando meus três leitores com essas divagações e, por isso, não quero alongar-me no que faz de Flamengo x Curintcha o duelo de duas concepções opostas da vida e do Brasil. Com essas considerações musicais, apenas esboço o que eu queria dizer.

Digo só mais uma coisa: ultimamente, essa torcida que não sabe torcer tem tido o topete de se comparar à nossa, alardeia aos quatro ventos que é a maior do Brasil. Não é verdade, e os números bem o demonstram. Mas é fato que, de uns dez anos para cá, começou a acontecer essa coisa inusitada: muita gente de fora de São Paulo passou a torcer para os times de lá. Até então, Curintcha e Parmera só tinham torcida em seu estado. O resto do Brasil dividia-se entre os times locais e os do Rio. Não sei bem o que dizer sobre isso. Digo, apenas, que é muito difícil eu me identificar com um país que se identifica com São Paulo.

Deve ser banzo. Estou há tempo demais longe do Rio. E, apesar de tudo o que está acontecendo por lá, apesar dos Garotinhos e do estado de calamidade que eles juram controlar um dia, apesar de tudo estou morrendo de saudade.

Preciso urgentemente ir ao Maracanã.

21 de abr. de 2003

CONSIDERAÇÕES SOBRE O GALO



Quando eu despertei para o futebol, um dos fatos que mais chamavam a minha atenção era a singular aptidão que tinha o Clube Atlético Mineiro para se foder de verde e amarelo -- ou de preto e branco, como queiram. Era a época do maior Flamengo de todos os tempos, e Leandro, Júnior, Nunes e Zico fizeram do detestável Galo das Alterosas eterno freguês ressentido do Flamengo.

Seria um exercício inútil enumerar aqui todas as ocasiões em que o Galo chegou para decidir e a massa atleticana -- como, em Beagá, e só em Beagá, se convencionou chamar a torcida do time -- saiu do estádio cabisbaixa e com as insossas bandeirinhas alvinegras enroladas. Nem este post tem por objetivo fazer um levantamento histórico dessa magnitude. Pretende, antes, aventurar-se no terreno batido da psicologia de botequim e esmiuçar as razões pelas quais são tão numerosos os fracassos atleticanos na hora de decidir.

Quem não conhece Beagá como eu conheço há de estar justificadamente surpreso com a pretensão diletante do Tinhorão de se meter em coisa tão complexa como a psicologia coletiva de uma torcida composta por gente das mais variadas condições, classes sociais, preferências sexuais etc. Mas o forasteiro que visita Beagá e trava contato com a torcida do Galo não demora a se convencer de que está diante de um fenômeno psicológico digno de ser estudado em maior profundidade: é a torcida mais ressentida do Brasil, a mais recalcada, a mais invejosa.

Mas não se trata só disso. Essa patologia coletiva engendrou uma outra, muito mais irritante para o forasteiro que queira debater racionalmente com essa gente: à força de tanto se foder, o atleticano acabou convencendo-se de que nada do que lhe aconteça de ruim é culpa de seus jogadores. O Galo é eternamente perseguido, eternamente injustiçado, eternamente sacaneado por uma instituição sinistra que eles denominam o Eixo.

Na cabeça ressentida dessa gente, os dirigentes de Rio e São Paulo (o Eixo em questão é o Eixo Rio-SP) sentam-se regularmente a uma mesa redonda n'algum lugar secreto e inconfessável e comprazem-se em inventar novas fórmulas para sacanear os clubes de fora do Eixo, mas mui especialmente o Galo. Chega a ser comovedor, de tão inocente, imaginar Eurico Miranda atirando-se aos braços de Hélio Ferraz e, juntos, irmanados, comprometerem-se a fazer todos os esforços possíveis para ajudar o maior inimigo se ele disputar o que quer que seja com o Atlético.

Seria apenas mais uma teoria conspiratória entre tantas se não redundasse em conseqüências bastante palpáveis: com o refinamento da teoria, os atleticanos têm sempre à mão uma desculpa infalível a justificar todos os seus fracassos: é tudo culpa do Eixo. O Atlético fez dez pontos a mais que o campeão São Paulo em 1977, e ainda assim teve de decidir nos pênaltis? Culpa do Eixo, que, ao elaborar o regulamento, previu que o Galo ia disparar na frente. O Reinaldo foi expulso por fazer especulações sobre a honestidade da mãe do Sr. José de Assis Aragão, em 1980? Culpa do Eixo. O Palhinha foi expulso na mesma ocasião porque pediu para ser expulso? Culpa do Eixo. O Reinaldo foi expulso no ano seguinte por calçar o Zico por trás? Culpa do Eixo.

E, enquanto o atleticano mergulha nessa auto-complacência que tudo explica como maquinações sinistras de uma entidade fictícia, o cruzeirense trata de trabalhar, aceitar seus próprios fracassos como decorrências de imperfeições suas e vai, ao longo do tempo, acumulando títulos e mais títulos de relevo, entre Copas do Brasil e Copas Libertadores.

Por que isso agora? Porque Cruzeiro e Atlético têm tudo para disparar na frente neste Brasileiro. A minha aposta é que chegou a vez de o Cruzeiro levantar a taça. Num campeonato tão longo, serão inúmeras as oportunidades para o atleticano convencer-se de que o estão sacaneando e mergulhar nesse fatalismo tão típico dele.

Difícil vai ser explicar por que cazzo o Eixo fez do também belo-horizontino Cruzeiro o campeão do Brasil de 2003.

16 de abr. de 2003

SIN PALABRAS

10 de abr. de 2003

O ANTI-RUBRO-NEGRO

Esta semana recomeçaram, pela centésima vez, os rumores de que Romário poderia estar de volta à Gávea.

Talvez seja honesto deixar claro, desde já, que minha percepção sobre este assunto está fortemente condicionada pelo relacionamento que, ao longo dos anos, o anãozinho manteve com nosso ídolo maior.

Quando o Flamengo era o Flamengo e jogar lá era um privilégio, não um favor que nos faziam, seria inconcebível um atleta que desejasse continuar vestindo o Manto sair dizendo desaforos ao Zicão. Chamá-lo “perdedor” porque não ganhou uma Copa do Mundo seria interpretado da única maneira admissível: como um desrespeito supremo ao Clube de Regatas do Flamengo, a sua história, a suas conquistas, a sua torcida. Ofender dessa maneira alguém que ganhou tudo pelo Flamengo, que escreveu o nome do Flamengo na taça de campeão do mundo, seria encarado como pouco caso intolerável à centenária história rubro-negra: os títulos do Flamengo, mesmo os mais importantes, mesmo os que custaram o sangue de seus jogadores, valem pouco ou nada na opinião do débil-mental que diz uma coisa dessas.

Que vá jogar com essa atitude no Fluminense ou no Vasco é problema do Fluminense ou do Vasco. Se quer jogar com essa atitude no maior clube do mundo, que vá para a puta que o pariu. Assim deveria reagir todo rubro-negro consciente e orgulhoso da história de seu clube. Claro, há os imbecis de pai e mãe que, entre Zico e Romário, estão com o anão. Há os calhordas que, diante do corte do nanico da Seleção de 1998, têm o topete de ir ao aeroporto -- com a camisa do Flamengo! -- fazer um teatrinho histérico e rasgar a foto do Zico.

Bem sei que o rapaz em questão levou uns tabefes merecidos numa briga de bar. Mas não foi o único a merecê-los. Existe uma geração perdida, que acompanha futebol de 1993 para cá, para quem o paradigma de craque e ídolo será eternamente o anãozinho vagabundo do Romário, com seu ego inflado e seu desprezo pelas cores que veste. Esses garotos, salvo os que se ilustraram e aprenderam o que é ser Flamengo, também mereciam levar uns safanões em casa. E o Romário, ídolo dessa gente que, ao idolatrá-lo, cospe no símbolo do clube, não devia poder passar nem na calçada de nossa sede.

Existem outras considerações, mais comezinhas, pelas quais não quero esse anão vagabundo na Gávea. Têm a ver com o ambiente de trabalho do clube, que se veria irremediavelmente perturbado com a volta do arruaceiro do Romário, num momento em que o de que o Nelsinho mais precisa é de tempo e tranqüilidade para botar a casa em ordem e montar um time.

Mas, francamente, diante de motivos que têm a ver com a nossa identidade de rubro-negros, nem deveria ser necessário esboçar esses outros argumentos.

7 de abr. de 2003

OLHA O BOZZANO AÍ...

Com o palpite do Gustavo, eu já tinha cantado a pedra aqui, então vangloriemo-nos.

O São Paulo x Cruzeiro de ontem provou que o tal Giuliano Bozzano é um incompetente de marca maior. Não me lembro de ter visto um juiz inventar três pênaltis num único jogo.

Some-se isso ao assalto à mão armada que praticou contra o Flamengo no ano passado e temos o veredito: incompetente e ladrão. Não devia apitar nem futebol de botão.

O TIME DO NELSINHO



As atribulações dos últimos -- quantos? onze? -- anos fizeram de todos nós uns rubro-negros esquisitos. Uns mais, outros menos. Mas quase todos céticos quando fatos concretos, palpáveis, parecem indicar que, com um trabalho sério, a longo prazo, e perseverando naquilo em que temos acertado, podemos recuperar o brilho d’outrora. Pelo menos eu fico cá a imaginar que, no primeiro revés, nossos mui sapientes dirigentes viram tudo de pernas para o ar e abandonam o caminho reto.

Exemplo do que estou dizendo: quantos técnicos de primeira linha tivemos de 1992 para cá? Dois: Luxemburgo e -- sei que o nome causará polêmica -- Autuori. (Que me perdoem Carlinhos, Zagallo e Evaristo, que muito estimo. Mas os dois últimos, digamos assim, há tempos não falam a mesma língua dos atletas que comandam. E os sucessos do primeiro explicam-se mais pela mística rubro-negra do que por seus postulados táticos.)

Quanto duraram? Seis meses, se tanto. Um, demitido estupidamente após a derrota no Fla-Flu de 1995, num gesto bastante ilustrativo dos horizontes de curto prazo com que trabalhava o Sr. Kléber Leite. O outro teve a sua autoridade corroída pelo corpo mole de alguns atletas, comportamento criminoso que nos rendeu várias humilhações. Em ambos os casos, um certo anão pernicioso foi protagonista no jogo de bastidores que levou à queda do técnico.

Eis que, pela primeira vez desde 1997, voltamos a ter um técnico de primeira linha: inteligente, estudioso, atualizado e sabe impor sua autoridade.

Ressabiado, fico desesperado quando desconfio que nossos mui sapientes dirigentes podem inadvertidamente ter acertado uma. É o caso com o Nelsinho Batista. Ao vislumbrar pequenos progressos nessas duas semanas de trabalho, sou tomado pelo pessimismo e imagino que não vai durar. A compulsão por fazer merda é mais forte que nossos dirigentes, de Luiz Augusto Velloso para cá.

O Flamengo que venceu o Bahia hoje está longe de ser um Flamengo digno das tradições do Manto. Mas é um Flamengo já a uma distância considerável do bando que dava patadas na bola na derrota de 4 x 0 para o Fluminense.

No jogo de hoje, em mais de uma ocasião acertaram-se mais de três passes em seqüência. Continua-se errando demais, é verdade. Mas, se não é a Seleção Brasileira de 1982, também não é aquela esculhambação do Carioca, quando cada uma das escassas estrelinhas achava que ia resolver tudo sozinho, como Maradona no gol a los ingleses.

No jogo de hoje, eu vi jogadores buscando desmarcar-se, buscando o espaço vazio em vez de esperar desse nosso meio-campo o milagre de um passe do Zico a cada vinte minutos. Se não foi a Laranja Mecânica -- melhor, se não foi o Flamengo dos overlappings e pontos futuros do Coutinho --, também não foi aquele achincalhe do Carioca.

No jogo de hoje, eu vi o lateral esquerdo jogando de lateral esquerdo, o lateral direito jogando de lateral direito e a função de meia armador ser cumprida pelo meia armador. Se não é a aplicação tática da Alemanha de 1990, também não foi o Deus-nos-acuda do Estadual.

Ou seja, em vez de um bando, vi um time (ou o prenúncio de um time). Um time ruim, não nos iludamos. Um time com sérias deficiências na zaga e um time que se ressentirá muito da falta do Athirson ou do Felipe quando eventualmente não puderem jogar. Mas -- não peço muito mais que isso, por ora -- um time.

Um time capaz de, no máximo, fazer um papel decoroso no Brasileiro. Não peço muito mais que isso, por ora. Deixem o Nelsinho trabalhar. Um, dois anos, se for preciso. Mas não me venham com soluções bombásticas quando, depois das primeiras vitórias e do indefectível triunfalismo precipitado da nossa torcida, vierem as primeiras decepções e nos dermos conta de que esse, senhores, é um time ruim.

É que, com o perdão do lugar-comum, toda longa viagem começa com o primeiro passo. E o mal do Flamengo, de 1993 para cá, tem sido primeiros passos demais e longas viagens de menos.

4 de abr. de 2003

ARMANDINHO E GIULIANO

Antes de botar no ar este blog, quando minhas manifestações sobre futebol se restringiam aos botequins da vida e listas de discussão na internet, muita gente boa -- e outra não tão boa -- especulava sobre a idade do Tinhorão. A dúvida foi sanada com o post (ver abaixo) Eleven years tomorrow (que, aliás, só não se chamou Onze anos esta tarde, em vernáculo, por causa dessa minha maldita mania de exatidão).

Digo isso para contextualizar a seguinte afirmação: eu fico genuinamente surpreso quando ouço gente qualificada, insuspeita mesmo, dizer que o melhor árbitro que viu apitar foi Armando Marques. Não tenho idade para ter visto o Sr. Marques trilar o apito, distribuir cartões e fazer trejeitos (trejeitos de árbitro, não me entendam mal), mas volta e meia vejo o seu nome mencionado na historiografia futebolística nacional. Sempre por alguma trapalhada que ele aprontou.

Armando Marques foi o juiz que, na disputa de pênaltis que definiria o campeão paulista de 1973, errou uma conta que qualquer criança de dez anos saberia fazer. Por causa disso, Santos e Portuguesa tiveram de dividir o título. Dois anos antes, Armando Marques invalidou um gol legítimo de Leivinha, do Palmeiras, com o argumento inacreditável de que o atacante deu um soco na bola, e não uma cabeçada. Por causa disso, o São Paulo ficou com o troféu. Em 1974, entre outras mumunhas, anulou um gol escandalosamente legítimo do cruzeirense Zé Carlos, aos 45 do segundo tempo, e, com essa ajudinha, o Vasco conquistou seu primeiro Brasileiro roubado.

Como pode ter sido o melhor juiz do Brasil um sujeito com esse histórico -- aliás, prontuário -- é coisa que escapa à minha limitada imaginação.

As trapalhadas do Sr. Armando Marques não terminaram quando ele pendurou o apito. Dirigindo a Comissão de Arbitragem da CBF, é figurinha freqüente no noticiário esportivo, sempre que o foco deste é desviado do campo de jogo para essa choldra que se convencionou chamar "dirigentes".

A notícia que me chega pelo Gustavo deveria novamente botar o Sr. Armando Marques sob os holofotes, e novamente por uma trapalhada sua. Pois não é que a Comissão de Arbitragem resolveu escalar, para apitar o jogo mais importante da próxima rodada -- São Paulo x Cruzeiro, Oswaldo de Oliveira x Wanderley Luxemburgo --, ninguém mais, ninguém menos do que Giuliano Bozzano?

Giuliano Bozzano, aquele mesmo que roubou o Flamengo contra o Palmeiras, ano passado. Digo roubou e insisto no termo: roubou. Erros daquela magnitude, e em momentos tão determinantes, são algo mais que simples erros.

O Gustavo tem razão: o Sr. Giuliano Bozzano ainda vai dar muito o que falar neste Brasileiro.

2 de abr. de 2003

INTERVALO COMERCIAL

Escrevo mui rapidamente, entretido como estou com assuntos outros, fascinantes, de resto, que se acumulam sobre a minha mesa.

Meu colega Gustavo de Almeida -- uma alma arguta, o primeiro a reconhecer de público a isenção e a imparcialidade deste analista -- acaba de pôr no ar seu blog Nove Meses, com análises quase diárias sobre este campeonato do tamanho duma gravidez.

Muito mais à vontade para falar do que o Tinhorão -- que tomou um esporro da esposa ao fazer menção de ver Curintcha x Atlético após o término de Flamengo x Coritiba --, atentou para um fato que me escapou por completo: Giuliano Bozzano está apitando!

Giuliano Bozzano, aquele mesmo canalha que garfou o Flamengo no jogo contra o Palmeiras, no último Brasileiro. Que cuernos está fazendo trilando um apito depois daquele assalto à mão armada eu não sei. Talvez o Sr. Armando Marques possa explicar.

Um amigo catarinense jura que o Sr. Bozzano tem pai, e que o pai também aprontou muito nos campos da terra do pinhão. Pode ter pai, mas aparentemente não tem mãe.

25 de mar. de 2003

OUTRA VEZ O CALAZANS

Calazans, 25/03/2003: "Por falar em papel feio, tivemos também o do ex-presidente da Fifa João Havelange, que criticou João Saldanha e deu sua versão sobre a saída do técnico da seleção em 70, sem que Saldanha possa se defender e dar sua versão também."

No mínimo curiosa a ética do Sr. Calazans. O Sr. João Havelange é deselegante por fazer críticas a quem não pode mais se defender. Ele próprio pode criticar quem bem entender, nos termos que julgar convenientes, e jamais abrirá espaço para o ofendido manifestar-se. E não pede desculpas quando todas as evidências demonstram que está errado.

Ou será que eu perdi a coluna em que ele pede desculpas ao Felipão pelas críticas incivilizadas que fez ao técnico pentacampeão do mundo, ao técnico que provou, ao trazer o caneco, que seus métodos de trabalho frutificaram, a despeito das restrições imbecis do Sr. Calazans? Quem não se lembra da ironiazinha barata contra a "família Scolari"?

Isso para não falar da pretensão imbecil de dar por encerrado um capítulo da história pelo simples fato de um dos envolvidos estar morto. Onde estaria a historiografia se todos os personagens históricos seguissem a orientação cretina do Sr. Calazans e se abstivessem de escrever memórias e dar depoimentos porque morreram outros participantes do evento em questão?

Churchill jamais poderia ter escrito suas memórias da Segunda Guerra Mundial. Hitler não podia defender-se.

24 de mar. de 2003

JUÍZES SEM APITO

Mais uma vez, os amigos hão de me perdoar se insisto no assunto penoso da arbitragem. É que, mais uma vez, as patuscadas da arbitragem (desta feita de responsabilidade do Sr. Samir Yarak) ofuscaram os acontecimentos puramente futebolísticos -- numa decisão! Ofuscaram até gol que começou com cruzamento de letra.

Pode ser dolorida, mas é instrutiva a comparação com a final paulista. Lá, como aqui, juiz também erra, ora, pois. No primeiro jogo da final, validou-se um gol do Curintcha em impedimento. A diferença está em que, lá, erros da arbitragem são encarados como decorrências naturais da humana condição dos homens de preto. No Rio, parte-se do pressuposto -- compreensível e provavelmente correto -- de que o homem de preto está de sacanagem. E, a cada gol mal anulado ou mal referendado, o que se vê é esse espetáculo deprimente de jogadores dando cabeçadas em juízes e falando com eles como não se deveria falar nem com filho adolescente.

O diabo é que as circunstâncias me impedem de censurar um Alex Oliveira que peita um bandeirinha ou um Athirson que passa noventa minutos com o dedo na cara do Sr. Carlos Jorge Moreira. Os jogadores, remunerados para ganhar com a bola nos pés, cansaram-se de ver seus esforços sistematicamente frustrados por juízes escolhidos a dedo pelo Sr. Eduardo Viana. Resultado: hoje já não é mais tão simples um juiz arranjar um resultado. Carlos Jorge Moreira conseguiu na final da Taça Guanabara, mas teve sua arbitragem inviabilizada pelos rubro-negros emputecidos na semifinal. Pode até ser escalado e entrar em campo, mas não apita mais jogo do Flamengo -- entendendo-se "apitar" por decidir e fazer respeitar suas decisões durante os noventa minutos.

Não sei se Samir Yarak entrou em campo com más intenções, ontem, se anulou de sacanagem o primeiro gol tricolor, mas o fato é que, a partir daquele lance, não teria mais autoridade para decidir a seu alvitre. Tanto foi questionado, tanto foi pressionado, tanto foi ofendido pelos tricolores, que passou a temer qualquer decisão que prejudicasse o Fluminense. Com esse estado de espítito, inverteu a mais bisonha das faltas, na defesa tricolor, e indispôs-se definitivamente com os vascaínos, a quem havia beneficiado no começo do jogo.

Não sei se é irremediável a cegueira que impede os cariocas de ver o que está acontecendo. Mesmo sem a torcida do Flamengo, o Maracanã estava lindo, ontem, com as duas torcidas cantando. Mas o resto do Brasil, senhores, está acompanhando com muito mais atenção um reles Curintcha x São Paulo. Corremos o risco palpável de ver as novas gerações viverem sob a influência dessa gente que pendura nas arquibancadas faixas de Tucuruvi ou que vem ao estádio em caravanas de Pindamonhangaba e Itaquaquecetuba. Dessa gente que pula ao ritmo de uma escola de samba que, no Rio, seria rebaixada do Grupo de Acesso.

São Paulo terá seu Farah, terá seus erros, terá dirigentes que multem em R$ 50 mil um jogador por exercer o sacrossanto direito à liberdade de expressão, direito que assiste até a um Vampeta. Mas, por aquelas bandas, não se constroem resultados com a mesma sem-cerimônia que no Rio.

E, por compreensível que seja o jogador cansar-se e emputecer-se, o torcedor não gosta de barraco. Prefere assistir a um reles Curintcha x São Paulo, com as faixas de Tucuruvi e Pindamonhangaba, a um Fluminense x Vasco com todo o charme de um domingo à tarde num Maracanã lindíssimo.

Tivessem um mínimo de visão, os cariocas teriam acordado para fatos tão graves. Mas o que se vê é o vascaíno bater palmas para um sacripanta, um dos maiores responsáveis por esse estado de coisas, arrotando méritos próprios ao conquistar um campeonato cujo charme ajudou a destruir.

20 de mar. de 2003

MAIS CARLOS JORGE MOREIRA

Desculpem-me os amigos se não falo do Fluminense x Vasco de ontem. Mas a imparcialidade deste blog é tamanha que eu não vou falar de uma simples final de campeonato, só porque ela vem atraindo os holofotes, e vou concentrar-me no fato muito mais transcendente de o Flamengo não estar disputando essa final.

Aliás, nem isso. Insisto em que foi merecidíssima a vitória tricolor. O fato é que eu ainda não me conformei com a escalação de Carlos Jorge Moreira no jogo contra o Vasco e -- os crápulas reincidem -- contra o Fluminense.

Sem querer fazer propaganda -- o que, aliás, deve ser contra as normas de uso deste blog --, o Google é uma ferramenta duccaraglio! Escrevi, lá, "Carlos Jorge Moreira", e eis que se me apresenta toda a vida pregressa do cidadão. Transcrevo, aqui, o que encontrei de mais interessante.

Em sua coluna n'O Dia
de 18 de março de 2003, Arnaldo César Coelho escreveu o seguinte sobre Carlos Jorge Moreira: "Mas nas poucas vezes que o vi apitar –- geralmente em São Januário -– sinto que esta tarefa não é das mais fáceis. Além de lhe faltar vocação, precisa ser orientado para se colocar melhor no gramado, já que fica muito embolado com os jogadores no meio do campo. E de tanto rodar feito um pião, acaba ficando tonto, deixando de marcar algumas faltas e invertendo outras, irritando a todos. [...] Quem sabe de tanto atuar, ele não acaba aprendendo?"

No dia 22/08/2001, o Jornal de Piracicaba, em matéria sobre o jogo XV 1 x 0 Londrina, publicou o seguinte: "Dois minutos depois o árbitro Carlos Jorge Moreira não marcou um pênalti claro quando André Pinto foi derrubado por Carlos Eduardo, dentro da grande área."

Em 19/11/2001, o Jornal do Commercio, do Recife, denunciou o seguinte: "No vestiário, o técnico alvirrubro, Paulo Cabrera, não escondia a frustração com a arbitragem do carioca Carlos Jorge Moreira e os seus assistentes paraenses Jorge Brasil Mourão e Edílson Ferraz. 'Jogamos contra a arbitragem e a Tuna. Não sou de reclamar, mas os erros na marcação de alguns impedimentos inexistentes nos prejudicaram', declarou."

19 de março de 2002, site do Terra: "Na partida entre as equipes pelo Caixão-2002, há pouco menos de um mês, o Americano venceu o América, por 2 a 0, em Édson Passos, num jogo marcado por contestações à arbitragem e agressões ao juiz Carlos Jorge Moreira." (Coisa curiosa: contestações à arbitragem num jogo vencido pelo Americano de Campos!)

Mais Terra Esportes (08/04/2002): "O Fluminense vencia a partida contra o Bangu até os 42 minutos do segundo tempo por 1 a 0, neste domingo, em Moça Bonita, mas acabou cedendo o empate e perdendo dois pontos importantes na Taça Rio." Pois bem: o Fluminense leva um gol do Bangu aos 42 do segundo tempo. O que faz o juiz? "O árbitro Carlos Jorge Moreira deu quase dez minutos de acréscimo, mas o Fluminense não teve forças para desempatar."

Lance, 11/05/2000: "Em uma partida sofrível, o Botafogo jogou mal, mas o suficiente para derrotar o América por 1 a 0." Agora é o Botafogo contra um pequeno -- ou contra um mais pequeno --, e sofrendo para vencer. Lance: "O árbitro Carlos Jorge Moreira assinalou impedimento, equivocadamente, pois Váldson dava condição ao atacante."

Não, não é porque o América é mais pequeno: "No minuto seguinte, o Botafogo teve um gol anulado em um lance duvidoso."

Tribuna do Norte, sei lá quando: "Em uma boa exibição, o Fluminense derrotou o Vasco por 1 a 0 - gol de Roger - ontem á tarde, e deu mais emoção à disputa da Taça Rio." Boa exibição mesmo. Jogou contra o Vasco e contra o juiz: "Logo a 1 minuto, Roger puxou contra-ataque e rolou na esquerda para Agnaldo, que tentou o lançamento para Magno Alves. Mauro Galvão cortou com a mão e o árbitro Carlos Jorge Moreira não marcou o pênalti." (Coisa inusitada, Carlos Jorge Moreira roubando para o Vasco!) Tem mais: "Carlos Jorge ainda pecava na parte disciplinar, quando deveria ter expulsado Felipe ainda no primeiro tempo, por uma entrada violenta em Roger." Felipe jogava onde? No Vasco.

Ainda tinha mais, mas minha paciência acabou.

As notas transcritas provam que Carlos Jorge Moreira é péssimo juiz, não provam que é ladrão. Mas a Federação do Caixa d'Água sabia que ele era péssimo e o escalou para dois jogos de suma importância. E isso, meus negos, deve querer dizer alguma coisa.

19 de mar. de 2003

Tem dias em que falta ânimo para escrever. Tem sido assim desde sábado.

Há algo no mínimo curioso acontecendo quando um árbitro, sem ter influído diretamente no resultado do jogo, torna-se a estrela do espetáculo. Foi o que se viu no Fla-Flu. O Sr. Carlos Jorge Moreira protagonizou um dos espetáculos mais tristes de que se tem notícia na história do futebol carioca. Não influiu diretamente no resultado, não apitou nenhum pênalti inexistente, não validou nenhum gol ilegal e, assim mesmo, foi a grande atração da tarde.

É bom que se diga desde já: foi justíssima a vitória e a goleada do Fluminense. Não fez mais porque não quis. Os tricolores hão de se lembrar para sempre do show proporcionado por seus jogadores. Mas os demais torcedores hão de se lembrar de Carlos Jorge Moreira. De Carlos Jorge Moreira ouvindo, com o rabinho entre as pernas, os impropérios de Athirson ao longo dos noventa minutos. De Carlos Jorge Moreira tremendo de medo quando Alessandro, expulso, encarou-o e disse para o Brasil todo ouvir: "Você é um merda!"

Impossível imaginar tal espetáculo de pusilanimidade sem que Carlos Jorge Moreira tivesse alguma culpa no cartório. Como não beneficiou o Fluminense, como já foi encostado na parede e desrespeitado, sem tomar maiores providências, quando o jogo ainda estava 0 x 0, é de se imaginar que seus pecados sejam anteriores ao Fla-Flu. Com efeito, a covardia do Sr. Carlos Jorge Moreira, no sábado, é um atestado de culpa pela roubalheira da final da Taça Guanabara.

Não fosse assim, como poderia um homem que honra o que tem entre as pernas aceitar passivamente os urros de Athirson e as ofensas de Alessandro? Como poderia intimidar-se tanto a ponto de tentar flagrantemente apaziguar os jogadores do Flamengo, permitindo aos rubro-negros cobrar as faltas cometidas por eles próprios? Não foi o que se viu no final do jogo, quando Júlio César saiu driblando até a intermediária do Fluminense e, desarmado, jogou todo o seu peso contra um defensor tricolor?

A única resposta plausível para essas perguntas é que o Sr. Carlos Jorge Moreira tinha antigos pecados a expiar. Confrontado com um acusador tão veemente como Athirson, o larápio perdeu completamente a ascendência que torna praticável apitar.

Depois do que o Sr. Carlos Jorge Moreira fez no Flamengo x Vasco, tornar a escalá-lo para apitar um jogo do Flamengo seria uma temeridade que só se poderiam permitir os muito burros ou os muito calhordas. E o Sr. Eduardo Vianna obviamente não é burro.

Não é por burrice dele que o futebol carioca foi relegado a esse papel secundário a que se vê restrito hoje. Não é por burrice dele que, este fim de semana, um reles Curintcha x São Paulo (qualquer clássico paulista é reles, sem cor e sem charme) foi um deleite muito maior para os olhos do que -- of all matches! -- um Fla-Flu.

Fosse burro, não estaria há dezessete anos mandando e desmandando no cada vez menos empolgante futebol carioca.

Burros são os que o elegem e reelegem, fazendo definhar a nossa paixão, matando o futebol mais charmoso do mundo. Só que, a partir de um certo ponto, insistir na burrice passa a ser também canalhice.

11 de mar. de 2003

Sei que corro o risco de soar como o Sr. Calazans -- ranheta e jurássico -- ao fazer estas reflexões, mas já avisei alhures que não tenho nada contra o saudosismo, de que sou adepto confesso. Corro, ainda, o risco de me assemelhar ainda mais ao redundante cronista d'O Globo ao compartilhar com vocês um desconforto que está longe de ser original, que é meu e mais de todo o mundo que viveu tempos de um futebol mais poético, mas, what the fuck...

Como é triste ver a torcidinha do Vasco endeusar o Marcelinho.

Que não se me acuse de estar com dor-de-cotovelo pelo fato de o Marcelinho estar defendendo as cores (or lack thereof) do time do subúrbio. É craque, eu não me importaria em absoluto em vê-lo jogar pelo Flamengo, mas, sinceramente, nem eu nem rubro-negro nenhum de minhas relações morria de vontade de vê-lo com o Manto outra vez.

É triste porque, ao longo desses quase dez anos em que o Marcelinho andou jogando naquele arraial de quinze milhões de habitantes, vascaíno nenhum esquecia que era um ex-rubro-negro, e um ex-rubro-negro particularmente nojento para o gosto deles e, admitamos, para o de quase todo o mundo que não torça pelo Curintcha.

Era, para eles, a quintessência do que a Gávea podia produzir de mais detestável -- junto com Paulo Nunes e Júnior Baiano.

E eis que o até então repelente, o repugnante, o asqueroso Marcelinho é o novo xodó da torcidinha vascaína.

Tenho para mim que, desde que o Maestro Júnior pendurou as chuteiras, não existe mais isso de jogador que tem a camisa de um clube, e de um único clube, como segunda pele. Não seria razoável exigir dos vascaínos que torcessem o nariz para o Marcelinho só porque se trata de ex-rubro-negro.

Mas, com minha ética provavelmente defasada, eu ainda acho que, num caso extremo como o do Marcelinho, o decoro manda não idolatrar. Não era ele, na cabeça ressentida dessa gente, a personificação de tudo o que o Flamengo tinha de mau? Seria como nós outros, hoje, passarmos a tratar o nojentinho Felipe como legítimo e digno sucessor do Zicão.

Bato palmas para o Felipe quando jogar bem, quero muito que se destaque e resolva as coisas para o Flamengo. Mas idolatrar o do topetinho seria demais para o meu estômago.

Talvez eu esteja ficando velho como o Sr. Calazans. Talvez eu devesse dedicar-me a comentar sinuca.

7 de mar. de 2003

Estive fora, de férias, por algumas semanas. Ainda com acesso intermitente à internet, vou tentar reunir num único post os acontecimentos das últimas duas ou três semanas que chegaram ao meu conhecimento a alguns milhares de quilômetros daqui e que ainda merecem comentários.

Uma fonte insuspeita -- um tricolor via DDI, para ser exato -- contou-me que o Flamengo foi escandalosamente garfado no sábado de Carnaval e que, por conta disso, o time do subúrbio sagrou-se campeão da Taça Guanabara. Fosse apenas um gol rubro-negro mal anulado -- e parece não haver dúvidas de que foi pessimamente anulado --, eu talvez creditasse o título vascaíno a um infeliz erro de arbitragem. Mas um outro lance, e uma outra trapalhada de Sua Excelência, o árbitro, deixou o meu amigo tricolor com a pulga atrás da orelha.

Lá pelas tantas, conta-se que o Jorginho deu um carrinho dentro da área rubro-negra, para afastar a bola. Vinha um vascaíno a meio quilômetro de distância e, vendo aquilo, o árbitro apitou jogo perigoso. Dentro da área do Flamengo. Dizem que o Wright, comentando o jogo, parecia genuinamente escandalizado com a decisão do juiz, cujo nome e cujos cornos aliás ignoro.

O curioso é, depois de acontecerem coisas assim, ver os vascaínos com aquele ar de dignidade ofendida sustentando a mesma conversa para boi dormir segundo a qual o time do subúrbio é sempre o injustiçado, sempre o perseguido, sempre o mais sacaneado -- talvez por ser o time do subúrbio, talvez por seu ilibado Presidente julgar-se inimigo figadal do Sr. Roberto Marinho, talvez porque sejamos um país mais racista que a África do Sul e nossas elites filohitleristas jamais perdoaram o Vasco por ter escalado uns pretos e mulatos em 1920, talvez porque círculos lacerdistas infiltrados até hoje em todos os centros decisórios do país jamais engoliram os comícios de Vargas em São Januário, na década de 40.

Eu, alheio a essas especulações sobre o verdadeiro motivo por que o Vasco da Gama é tão sacaneado, fico a relembrar as vezes em que foi, antes pelo contrário, muito beneficiado por decisões no mínimo duvidosas da arbitragem ou da cartolagem. Freqüentemente em cima do Flamengo. Como no sábado de Carnaval. Como nos 2 x 1 do Brasileiro de 2002. Como no gol anulado de Juan (ou terá sido do Beto?) na final do Carioca de 1999. Como no pênalti não marcado em cima do Romário na final da Taça Rio de 1999 (na ocasião, o então vascaíno Felipe quase pisou na cabeça do então rubro-negro Romário). Como no gol rubro-negro mal anulado na final da Taça Guanabara de 1998. Isso para não falar em casos que não envolveram o Flamengo, como a final do Brasileiro de 1974 (Jorginho Carvoeiro? Alguém lembra?), o mui controvertido empate com o Curintcha em 1989, que ajudou a levar o Vasco à final do Brasileiro daquele ano, a escalação de Edmundo na final do Brasileiro de 1997, a sacanagem a que submeteram o São Caetano em 2000, com a qual concordou um cartola são-caetanense, digamos assim, demasiado facilmente intimidável.

Diante disso, os poucos torcedores do Vasco com quem convivo vêm dizer-me que não houve falta sobre o Petkovic em 2001 (façam-me o favor, vejam o VT!). Ou desencavam a história do ladrilheiro. Serão realmente débeis-mentais de babar na gravata ou eu é que não enxergo que uma molecagem como a do ladrilheiro e um padrão tão consistente de arbitragens duvidosas são, no fundo, a mesmíssima coisa?

***

Na minha volta, disseram-me também que o Pet vai jogar na China e que, muito provavelmente, eu jamais o verei vestir aquele trapo imundo outra vez. Menos mal. Acho que, desde o affaire Bebeto, ninguém mais considera um traidor o sujeito que, um belo dia, resolve vestir a camisa do maior rival. Mas o Pet foi, depois do Zicão, o jogador que eu mais gostei de ver vestindo a Camisa 10 da Gávea. E era chato, muito chato vê-lo com aquela camisa asquerosa sem cor nem glória, com um cinto de segurança no peito em vez da estrela amarela de campeão do mundo.

***

Falar no Zico, o Galinho merecia uma homenagem muito maior do que a que posso prestar-lhe agora, quatro dias depois do seu cinqüentenário, e já meio sem clima.

O Zico foi o único jogador que me fez chorar duas vezes. Quando deixou o Flamengo em 1983 e quando deixou o Flamengo em 1990. O Zico me fez campeão do mundo, o Zico ajudou a fazer a cachorrada enfiar onde melhor lhe aprouve (à cachorrada) aquela faixinha ridídula que levava ao Maraca desde 1972, o Zico fez freguês ressentido do Flamengo o detestável Galo das Alterosas, o Zico botou aquela bola na cabeça do Rondinelli inaugurando uma era de predomínio absoluto do melhor time que já vi jogar, o Zico botou aquela bola no gol dos chilenos escrotos do Cobreloa, o Zico acabou com a vantagem do Santos do delinqüente do Serginho Chulapa em 40 segundos de jogo, o Zico botou aquela bola no gol do Santa Cruz e levou o Flamengo às finais e ao tetra em 1987.

Até hoje, quando Sua Majestade pisa na tribuna de honra do Maracanã, eu fico com os olhos verdadeiramente embaciados quando grito que “o Zico é o nosso Rei”. Ou quando escuto que “é falta na entrada da área / adivinha quem vai bater?”.

Quando o Zico fez aquele gol contra a Iugoslávia, em 1986, o Luciano do Valle disse que não havia palavras para descrever a obra-prima. Pois no cinqüentenário do Galinho, acho que todos nos sentimos um pouco assim, sem palavras para agradecer-lhe por tudo.

Mas todos nós tentamos: muito obrigado, Zicão.


14 de fev. de 2003

ELEVEN YEARS TOMORROW

Há exatos onze anos -- aliás, amanhã completará onze anos exatos --, o Flamengo batia o Palmeiras no Parque Antarctica por 2 x 1. Era um sábado à tarde, fazia um sol duccaraglio e as férias de verão terminavam dali a dois dias.

O Flamengo estreara no Campeonato Brasileiro meio aos trancos e barrancos, num empate muito pouco convincente com o Bahia (1 x 1). Se não me engano, fomos garfados na Fonte Nova, teve o palhaço do Paulo Maracajá em campo e tudo o mais. (Aliás, que foi feito do paspalho do Paulo Maracajá?). Depois ganhamos do Guarani por 3 x 1, no Brinco de Ouro, e empatamos com o Botafogo em 2 x 2.

Ouvi tudo pelo rádio, até então. O jogo com o Palmeiras, salvo engano meu, foi o primeiro do Mengão a ser televisionado.

E foi o jogo contra o Palmeiras, a vitória convincente em terreno suíno que renovou as minhas esperanças no Flamengo. O time campeão carioca -- o time de Gaúcho, Gottardo, Júnior Baiano, Uidemar, Gilmar, Zinho e Júnior -- começava a se reencontrar. Começava ali a marcha rumo ao pentacampeonato.

The rest is history. Com um campeonato espetacular de Júnior, o Flamengo sagrou-se pentacampeão, goleando o Botafogo na final e -- meu jogo inesquecível -- ganhando do Vasco na bola e no braço pelas semifinais.

O Tinhorão tinha dezesseis anos.

Devia ter uma lei que garantisse a todo garoto de dezesseis anos o direito de ver seu time campeão do Brasil. Pelo menos a todo garoto rubro-negro.




13 de fev. de 2003

MAIS CALAZANS



Em sua coluna de segunda-feira, 10 de fevereiro, o Sr. Calazans indagava-se, com essa ironia refinada cujo domínio até hoje só alcançaram ele e o inglês Oscar Wilde, quando seria a estréia de Lopes pelo Flamengo (Lopes jogara uma partida apagadíssima no domingo, contra o Fluminense). O próprio Sr. Calazans respondia à pergunta com uma suposição: "Quem sabe quer estrear junto com Fernando Baiano".

Fernando Baiano (foto) já vinha jogando pelo Flamengo há alguns jogos e, salvo engano, já tinha até feito gol.

Ontem Fernando Baiano jogou uma partida estupenda, contra o Bangu. Fez os dois gols do jogo, um após linda tabelinha com Fábio Baiano. Segundo O Globo -- o mesmíssimo O Globo onde o Sr. Calazans publica suas sandices --, foram "dois bonitos gols e jogadas de centroavante inteligente". Ah, sim, e deram-lhe a nota mais alta do time, um respeitabilíssimo 8,5.

É claro que todo o mundo está sujeito a ter a língua queimada, exatamente como o Sr. Calazans. O problema é que esse paradigma da responsabilidade jornalística nunca dá o braço a torcer, nunca reconhece o erro, nunca pede desculpas a quem possa ter ofendido injustamente com seus palpites azedos. Opiniões dele acerca do Felipão vêm à mente.

Em todo o caso, fica o registro: Oswaldo Tinhorão está esperando que o Sr. Calazans reconheça que errou.


11 de fev. de 2003

Fernando Calazans (foto) é o mais redundante cronista esportivo brasileiro. Nada do que diga ou escreve tem importância, nenhum de seus palpites azedos tem transcendência superior à de qualquer pitaco emitido em qualquer discussão de botequim.

Geralmente, em sua coluna n'O Globo, não faz mais que lamuriar-se pelo tempo que passou, pelos good old times que não voltam mais. Nada contra a nostalgia, de que, aliás, sou adepto confesso. O que me irrita no Sr. Calazans é sua incapacidade de assimilar as mudanças por que passou o futebol nas últimas décadas e sua tendência a julgar o presente por critérios de quarenta anos atrás.

O Sr. Calazans gasta parágrafos e parágrafos enaltecendo o lindo, o lírico futebol brasileiro de tempos idos e censurando a violência que campeia pelos estádios hoje. Opiniões que qualquer palpiteiro de botequim pode emitir. Fácil, muito fácil elogiar superlativamente o que todo o mundo admira e desancar o que todo o mundo odeia. Quem, fora Carlos Bilardo, há de ser contra o jogo bonito?

Nas poucas vezes que se meteu a dar pitaco em assuntos sobre os quais não paira maciça unanimidade, o Sr. Calazans geralmente falou besteira. O melhor exemplo foi a Seleção do Felipão. Ao longo de vários meses, o Sr. Calazans tratou de achincalhar o técnico para todo o Brasil, de debochar de seus conhecimentos futebolísticos e de seus métodos de trabalho. Não foram poucas as vezes que previu, para a Seleção do Felipão, um vexame maior do que o de 1966.

Quando o Felipão voltou com o penta, o Sr. Calazans não teve essa humildade elementar que teria qualquer crítico minimamente responsável: pedir desculpas pelas asneiras que escreveu e pela maneira desrespeitosa com que tratou o treinador.

Desde essa época, venho nutrindo o gosto de pinçar todas as sandices que o Sr. Calazans escreve e, em momentos de especial emputecimento, mandar a ele meus comentários sobre suas atrocidades. Mandei-lhe vários e-mails depois do penta, exigindo dele uma atitude digna (um pedido de desculpas ao Felipão, cazzo). Para que não se me acuse de oportunista, mandei-lhe também uns dois ou três e-mails antes da Copa, reclamando da maneira irresponsável e deselegante com que ele vinha tratando o técnico da Seleção.

Dito isso, confesso que pinçar sandices e atrocidades nos escritos do Sr. Calazans é tarefa inglória na maior parte do tempo. Isso porque, como já expliquei, o Sr. Calazans limita-se a transcrever num dos maiores jornais do país opiniões que são compartilhadas por todo o mundo. Vai muito pouco além do vox populi.

Quando, no entanto, seu tom me causa particular emputecimento, mas suas idéias são tão banais que não merecem uma refutação, não me dou por vencido e critico-o pela forma. É o que faço hoje.

Por que cuernos, para o Sr. Calazans, sempre que um jogador sofre um drible desmoralizante, ele fica "estatelado" no chão? Em toda coluna do Sr. Calazans tem alguém estatelado no chão. Por que não mudar a imagem? Que tal "escarrapachado", "estirado" ou -- fugindo desse campo semântico, mas guardando a idéia da falta de recursos do defensor estatelado -- atônito, perplexo?

Na coluna de hoje, foi o rubro-negro Jorginho que ficou estatelado no chão. Mas escroto mesmo foi o adjetivo que esse cavalheiro encontrou para descrever o futebol, digamos assim, assaz convincente do Real Madrid. Para o Sr. Calazans, o Madrid joga um futebol "esfuziante". Esfuziante!

Para o Aurélio, "esfuziante" é "sibilante", "muito alegre", "muito vivaz", "radiante". Nessa progressão, quase daria para acrescentar "poderoso", "vitaminado", "energético".

Ui!

8 de fev. de 2003

Há trinta anos, morreu assassinado num bar em Copacabana um dos maiores jogadores que o futebol brasileiro já produziu -- para o gosto do Tinhorão, evidentemente. Trata-se de Almir Pernambuquinho (foto), craque do Flamengo, Santos, Curintcha e outros clubes menos votados.

Em entrevista à revista Placar, Almir definiu-se como "um marginal do futebol". Jogou dopado contra o Milan; meteu a cara no pé do zagueiro Maldini, cavando um pênalti escandaloso e dando ao Santos o seu segundo Mundial; fez um gol improbabilíssimo contra o Bangu, em 1966, metendo a cara na lama e tornando-se capa do francês L'Équipe, que o intitulou "le Pelé blanc"; desceu a porrada em todo o time do Bangu quando o Flamengo foi garfado na decisão do Carioca de 1966.

Mais que um jogador, Almir foi cabra macho a honrar a camisa que vestia, sobretudo a do Flamengo. Sua indignação pela sacanagem a que submeteram o clube, em 1966, lembra o inconformismo do Beto com as embaixadinhas do pederasta Pedrinho. De lá para cá, Beto não só devolveu as embaixadinhas, em 2000, como encarou, sozinho, todo o time e torcida do Vasco, em 2001.

Mas o assunto aqui é o Pernambuquinho, a quem presto minha homenagem. E recomendo a leitura da matéria especial que o Futbrasil dedicou a ele.

7 de fev. de 2003

Ok, eu confesso. O mais isento e desapaixonado analista do futebol brasileiro anda torcendo descaradamente por um time. E pior: por um time que não é o seu.

Mas é irresistível. Não dá para ficar indiferente ao futebol desse Santos de Robinho e Diego. Esses moleques abalaram a minha legendária imparcialidade já ao fazer o que fizeram com o pobre São Paulo -- aquele da melhor campanha, melhor ataque etc. -- nas quartas-de-final do Brasileiro passado. Depois veio a surra no Grêmio. Futebol à parte, delicioso mesmo foi ver o singular ataque de pelanca em que se desfez o viadíssimo arqueiro gremista Danrlette. Ali, naquele exato momento, ganharam a eterna simpatia de Oswaldo Tinhorão. Até perdoei a surra que deram no Flamengo, na primeira fase.

Depois a final contra os gambá. Quando muita gente boa andou dizendo que a garotada santista iria amarelar diante dos corintianos, muito mais experientes e malandros, eis que Robinho fez o que fez com o Curintcha. Não só não amarelou como, na ausência do Diego -- o outro cracaço do time -- e do artilheiro Alberto, inventou três gols ex nihilo, do nada. E dois deles justamente quando o Curintcha tinha virado o jogo e parecia que os santistas, agora sim, sentiriam a superior malandragem adversária.

Anteontem os garotos deram um show na Colômbia, pela Libertadores. Mais que a desfaçatez com que o Santos goleou o adversário fora de casa, mais do que o olé e os malabarismos do Robinho, o que me impressionou mesmo foi a reação da torcida colombiana. Parecia, sem exagero, coisa de um outro Santos, de outros tempos, que também costumava ser ovacionado pelas torcidas adversárias América do Sul a fora. Parecia coisa de um Santos que, os mais velhos hão de se lembrar, tinha a segunda maior torcida do Rio, atrás apenas da do Flamengo. Quando jogava no Maracanã, enchia o estádio de admiradores.

E assim é que o Tinhorão vem cometendo essa indignidade de torcer por um time que não é o seu, hábito que não cultivava desde o Napoli de Maradona e Careca, lá se vão uns bons quinze anos.

Se outros cariocas seguirem o exemplo, logo, logo o Vasco será relegado à condição de terceira maior torcida do Rio.