19 de dez de 2013

NUM JOGO COMERCIAL, UM PRAZER SEM PREÇO


 
Cavalheiros, sejamos francos: havia um quê de desonesto em u Galu disputar um Mundial. Não insinuo, longe de mim, que essa gente ressentida tenha chegado lá com a ajuda de rábulas e tapetões, que são antes o receituário de clubes talvez menos provincianos, mas mais homossexuais. Não aponto à execração pública o apito amigo, que sempre povoou os pesadelos e a mitologia de quem historicamente se compraz em debitar todos os seus fracassos, não a imperfeições suas, mas a maquinações sinistras do Eixo. Não me aventuro a falar de nada disso, porque nada disso houve na epopéia du Galu incolor das Alterosas, do Horto à Casa do Caralho.

A desonestidade, aqui, não é du Galu, senhores, e não têm culpa no cartório nem o Kalil, com seu DNA de perdedor, nem o Cuca, nem o Ronaldinho. Falo antes de uma desonestidade estrutural do negócio do futebol, que permite a um clube como u Galu, sem títulos de expressão nenhuns em seu palmarès, disputar e ganhar uma Libertadores, e com isso participar de um Mundial de Clubes.

Cavalheiros, eu sou do tempo em que um time, para cogitar de ganhar a Libertadores, precisava antes doutrinar, tornar-se absolutamente hegemônico em seu quintal. Haverá exceções a essa regra, claro: vem à mente o caso do grande time do Cruzeiro de 74-77, que, nas finais domésticas que disputou, não pôde dobrar o Vasco ou o Internacional (no primeiro caso, porque foi inequivocamente sacaneado). Será o caso, também, do simpático Argentinos Juniors de 85, o Bicho de Borghi, Batista e Olguín, que até foi campeão argentino no ano anterior, mas num campeonatinho disputado contra o Ferro Carril Oeste, com o país e todos os clubes grandes na pindaíba, depois da guerra das Malvinas. São esses os únicos casos que me ocorrem, quando a Libertadores era a Libertadores.

Passou o tempo, e os interesses comerciais aos poucos foram assenhoreando-se do futebol e da Libertadores. E exigiram, primeiro, a presença dos clubes mexicanos — irrelevantes mas lucrativos para a Televisa —, cada um com onze Pacos de Mierda a maltratar a pelota. (E aqui abro parênteses para denunciar que qualquer time brasileiro que seja eliminado por mexicanos é necessariamente um elenco contaminado por filhos da puta. Mormente aqueles em posições de comando, como o treinador e o capitão. Sobretudo o treinador que aparecer bêbado no dia do jogo, ou o capitão que decidir não jogar para protestar pela inadequação dos prêmios pela conquista de campeonatinhos estaduais. Exemplifico com uma situação meramente hipotética, claro.) Depois, por conluio da Rede Globo, da referida Televisa e da fenecida TyC, decidiu-se escancarar as portas, ou as janelas, para o ingresso de mais e mais times de grande torcida do Brasil, da Argentina e do México, o que exigiu classificar o terceiro, o quarto, o quinto de cada liga nacional.

É nesse contexto, senhores, que de repente começam a dar-se situações insólitas como um São Caetano disputar, e graças a Deus perder, uma final em 2002; um Once Caldas, absolutamente desconhecido do público futeboleiro, conquistar a Copa por pênaltis em cima do Boca Juniors; um Internacional, sem conquistas domésticas relevantes desde o ano da Graça de 1979, um belo dia amanhecer campeão da Libertadores, para espanto e estarrecimento dos desavisados; uma LDU, que, sendo sigla, deveria disputar o campeonato das Alagoas, apresentar-se ao mundo sodomizando o Fluminense, também ele classificado depois de ganhar uma Copinha do Brasil diminuída pela ausência de quatro ou cinco dos melhores times do país.

É forçoso reconhecer, senhores, que vai uma distância de anos-luz, em mérito e em mística, entre uma LDU, Once Caldas ou Galu e o Santos do Pelé, Coutinho e Pepe; o Peñarol de Pedro Virgilio Rocha, Spencer e Mazurckiewicz; o Independiente de Bochini, Bertoni e Trossero; o Flamengo de Zico, Leandro e Júnior; o São Paulo de Raí, Müller e Cafu.

Lo que decís es tan cierto que no sirve para nada, poderá concluir o leitor, citando Mafalda e mudando de assunto. Pode ser. Denunciar o aviltamento, por interesses materiais, de um esporte que um dia foi grande não nos leva a lugar nenhum, diante do poder que continuarão a exercer o Santander, a Bridgestone, a Televisa ou a Rede Globo (que a cada dia nos impinge o futebol nos horários mais extravagantes, para que os anunciantes de carros e geladeiras mantenham nossas mulheres entretidas o quanto puderem, indagando-se sobre quem anda a arrebentar os entrefolhos do Félix ou da Valdirene).

Tudo isso é verdade, e de fato não serve para nada. Mas não deixa de ser engraçado pra caralho quando o beneficiário de toda essa papagaiada, um clube desprezado pelos rivais por nunca ter ganhado porra nenhuma, passa o ano inteiro iludindo sua torcida com uma grandeza fugaz — e de repente se choca contra a realidade brutal ao ser atropelado por um time que, como ele, só entrou no enredo por causa de interesses comerciais.

Diante de tudo isso, diante de um futebol que se tornou um produto descartável e fez da Copa Libertadores uma gloríola com prazo de validade exíguo (seis meses, se tanto), há algo a ser resgatado nessa triste comédia? Talvez haja: a renovação do prazer ancestral de ver o pavoroso Galu das Alterosas se foder de preto e branco com a estrelinha cravada no olho-do-cu. Isso, senhores, não tem preço.