13 de mai de 2005

IMPRESSÕES ARGENTINAS SOBRE FLAMENGO E CURINTCHA

Amigos, tenho recebido com especial satisfação as manifestações de contrariedade pelo longo silêncio que me impus sobre assuntos futebolísticos enquanto nulidades do quilate de Gerson Biscotto e Anderson Barros decidirem os destinos da maior paixão nacional. A distância de minha pátria, a Mui Leal e Heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, e do país ao qual ela dá sentido e razão de ser, o Brasil, torna mesmo desnecessários e redundantes os pitacos de quem não acompanha o balípodo nacional senão por flashes eventuais nas ESPNs da vida.

No entanto, o Tinhorão é sensível aos apelos dos amigos, que pediam um pitaco seu sobre um debate artificial suscitado por zé-ninguéns da crônica esportiva provinciana, nomeadamente os senhores Chico Lang e Flávio Prado.

Não tive a ocasião de ouvir os bramidos dos mundialmente festejados futebologistas, mas fontes que reputo confiáveis relatam-me que esses verdadeiros Joões Saldanhas do Arraial andaram botando em dúvida o status rubro-negro de clube mais querido do Brasil. Aparentemente, reivindicam esse posto para uma agremiação interiorana sem cores na camisa nem glórias na biografia, o Sport Club Curintcha Paulista.

Senti-me na obrigação de responder a semelhante desatino, ainda que seja em minha perspectiva de exilado.

Senhores, encontro-me na vizinha República Argentina, onde desfruto de minha casinha nos prados bonaerenses. Aqui permanecerei exilado enquanto os senhores Gerson Biscotto e Anderson Barros tiverem voz e voto na administração do Flamengo. É um protesto silencioso e, admito, não demasiado penoso: minha adega vai enchendo-se de bonardas e malbecs, que vou abrindo à medida que me chegam à mesa saborosos bifes de lomo; tenho comido bem e engordado, graças às empanadas e guisados que me prepara minha amante argentina (dispendiosa mas apetecível); e uma vez por semana vou a Buenos Aires comprar livros e freqüentar putas -- meus principais hobbies nos dias que correm, tendo em vista que o desporto praticamente só me reserva frustrações, de Kleber Leite para cá.

E foi justamente numa dessas visitas à Rainha do Prata que, num diálogo com um nativo, pude ver em sua justa dimensão as diferenças de estatura entre Flamengo e Curintcha.

Foi num dos sebos da Avenida Corrientes. Ao pagar os exemplares que adquirira, o proprietário percebeu que eu era brasileiro (virei a cabeça para olhar a bunda da universitária feia que folheava livros de antropologia, isso me denunciou). Perguntou-me por meu time de futebol. Disse-lho. Os olhos do velhinho brilharam:

-Flamengo... la hinchada más grande del mundo, ¿verdad?

Anuí com uma pontinha de orgulho. O velhinho confessou-se riverplatense e lembrou um baile que lhes demos em pleno Monumental, na Libertadores de 1982. Tempos de Zico, Leandro e Júnior, do nosso lado. O River também tinha um timaço, com os mundialistas Fillol, Gallego, Tarantini, Kempes e Alonso defendendo la banda roja. Ganhamos de 3 x 0, fora o olé.

Quando eu já tinha pagado os livros e fazia menção de ir embora, o velhinho abaixa a voz, olha para os lados, certifica-se de que ninguém está ouvindo e me pergunta:

-El Corinthians es un club bastante más chico, ¿verdad?

Disse-lhe a verdade: é, sim.

Os olhos do velhinho brilharam de novo, seu ar era de pura picardía criolla. Ele queria apenas confirmar a impressão de que quem levou o idolozinho dos bosteros, do Boca Juniors, foi um desses clubes de bairro que de repente sofrem um takeover empresarial e começam a esbanjar dinheiro para ver se aparecem no mapa. Uma espécie de Fulham com coqueiros no CT e baianas com abacaxi na cabeça nas arquibancadas.

Por eu ter reconfortado o velhinho, ele me deu de presente um livro do Fontanarrosa chamado Cuentos de fútbol. Saí dali mais feliz, sabendo que fizera uma boa ação: afaguei o amor-próprio do vendedor, confirmando que suas impressões sobre o futebol brasileiro eram corretas, e ajudei-o a continuar sacaneando os bosteros, corroborando que perderam o Tévez para um clube de bairro.

Conto esse episódio para concluir o seguinte: alguns clubes já nascem eternos, e desenvolvem essa vocação gestando gênios do quilate de Zizinho, Dida, Joel, Leandro, Andrade, Adílio e Zico, ou incorporando definitivamente às suas cores craques como Leônidas da Silva, Domingos da Guia ou Biguá.

É uma irmandade restrita, essa dos clubes eternos, e seus membros sabem reconhecer-se de vista. Minha camisa listrada em vermelho e preto é minha carteirinha de sócio dessa irmandade, reconhecida com mesuras e de imediato por outro membro, cuja carteira é uma camisa branca com uma franja diagonal em vermelho (é importante que se frise a cor: ninguém entra de sócio com uma faixa preta no lugar da vermelha).

A camisa sem cores nem glórias do Curintcha não lhe garante acesso a esse grupo seleto, por mais simpatizantes que a agremiação tenha em lugares como Carapicuíba, Pindamonhangaba ou Tucuruvi. Tampouco lhe garantem ingresso os idolozinhos que foi capaz de produzir ao longo de sua história incolor como sua camisa: Biro-Biros, Casagrandes, Wladimires, Basílios e Pequenos Polegares.

O velhinho riverplatense sabe disso, eu sei disso, todo o mundo sabe disso.

Só precisávamos transmitir a informação aos senhores Chico Lang e Flávio Prado.