1 de jul de 2004

A NOVA ORDEM DE FURACÕES E SANTO ANDRÉS

Eu achava que escrevia para dez leitores fiéis. Hoje me dou conta de que, fora os que me lêem para ponderar o que escrevo, há um número dificilmente quantificável de energúmenos que me lêem para espumar de ódio quando estou certo e para morrer de rir quando meu time se fode.

Entendo que, para esse segundo grupo, o que aconteceu ontem seja engraçadíssimo, uma pândega. Não os culpo: eu mesmo contabilizo entre os dias mais felizes de minha vida o 1º de dezembro de 1998, quando o Vasco da Gama se fodeu de verde e amarelo em Tóquio.

Paciência. Não sei quantos entre esses leitores de má vontade terão condições intelectuais de, uma vez exercido o sacrossanto direito de sacanear quem perdeu e deu vexame, parar e pensar sobre se faz sentido o que eu escrevo.

Há tempos venho dizendo que o futebol brasileiro como um todo vive o seu pior momento. São Caetano, Atlético Paranaense, Figueirense, Criciúma, Ponte Preta, Brasiliense e agora Santo André só podem ocupar posições de destaque em âmbito nacional quando Flamengo, Curintcha, Vasco, Palmeiras, Atlético Mineiro, Inter e Grêmio estejam no fundo do poço.

Os torcedores dos clubes pequenos hão de argumentar que estão onde estão por méritos próprios, porque souberam investir e planejar a longo prazo. É uma meia verdade. Seria uma coincidência insólita se só clubes do quilate do Atlético Paranaense e da Ponte Preta tivessem dirigentes competentes. Minha tese é que, por experiência histórica, tinham, sim, os dirigentes mais preparados a administrar um futebol entre o medíocre e o mediano. Quando a crise se instalou e manter grandes times se tornou inviável, prosperou quem sempre se contentou em montar times para disputar a segundona.

Durante a transmissão do jogo de ontem, pela Globo, o Sérgio Noronha intuiu a justeza do que estou dizendo. O Casagrande, que entende tudo dentro das quatro linhas, acha que, fora delas, São Caetano e Santo André têm uma administração de Manchester United. Interpretações divergentes do porquê da “nova ordem” que todo o mundo viu que está aí, mas que os mais conseqüentes esperam que seja passageira.

Para a torcida arco-íris, o Flamengo perder em casa uma decisão para o Santo André deve ser algo assim como tocar o céu com as mãos. Mas, quando a zebra, mais que um episódio isolado, demonstra uma tendência que também afeta, em maior ou menor grau, o Curintcha, o Grêmio, o Palmeiras, o Atlético Mineiro e o Botafogo, os analistas inteligentes deviam soar o sinal de alarme.

O bem do futebol brasileiro está no bem dos grandes clubes brasileiros. Algo precisa ser feito para tirá-los do fundo do poço.