30 de jun de 2004

REALISMO ANTIPÁTICO HORAS ANTES DA FINAL

Há quem diga que o ano de 2004 termina esta noite para o Flamengo. Vencendo o Santo André, terminamos a temporada campeões cariocas e com o tão sonhado bilhete de volta à Libertadores. Perdendo, resta-nos apenas brigar para não cair no Brasileiro.

Não estou de acordo, nem acredito que a conquista da Copa do Brasil possa automaticamente transformar em amistosos de luxo os trinta e tantos jogos que, noutro cenário, a uma derrota de distância, seriam uma briga inglória e suada para escapar da segundona.

O Flamengo precisa vencer, é certo. Nosso orgulho e nossa auto-estima dependem disso -- perder seria vexame -- e a conquista abre perspectivas interessantes para 2005. Mas a alegria por nossa segunda Copa do Brasil terá muito de alívio pelo dever cumprido e pela superação de um obstáculo que, a acreditar nos otimistas, impede que o Flamengo jogue o que pode no Brasileiro.

Domingo não é o começo do fim da temporada rubro-negra. O time precisa entrar em campo, contra o Paysandu, sem a menor banca de campeão do que quer que seja. Ainda tem muito a provar até o fim do ano.

Não peço muito: peço a campanha decorosa que me limito a pedir de uns anos para cá. Claro, uma campanha decorosa com um título carioca e um da Copa do Brasil será consideravelmente melhor que uma campanha decorosa com um oitavo lugar no Brasileiro, e só. Mas é um balanço a ser feito em dezembro, não em junho.

Eu sei que estas linhas são um tanto pé-no-chão demais para poucas horas antes de uma final de Copa do Brasil. Desculpem lá. Quando o Flamengo entrar em campo ao som de “Ó meu Mengão, eu gosto de você”, vou estar tão emocionado quanto cada um dos 80 mil presentes à festa. Só queria que, amanhã, quinta-feira, todos os nossos jogadores pensassem um pouquinho como eu penso hoje.

10 de jun de 2004

“BANDEIRA BRANCA, NÃO POSSO MAIS”

Já que aquela gente esquisita do Blog de Primeira resolveu pedir arrego -- “bandeira branca!”, suplica o sr. Mendes Junior --, quero dizer umas palavras finais sobre a polêmica que me ocupou as horas vagas e deu sentido à vida vazia de muito escrevinhador paranaense nos últimos dias. Com isso, encerro a discussão e demonstro um pouco de magnanimidade com quem, no final das contas, perdeu a briga e resolveu apelar para o argumento batido de que “você é chato” e que “o assunto can-sou!”

(1) De produtivo, fica assentada apenas uma conclusão: que a crise afeta quase todos os grandes clubes do país, e que é preciso uma solução política para salvar a maior paixão nacional. O bem do futebol brasileiro está no bem dos grandes clubes brasileiros, e é imperativo que o Estado brasileiro ajude a aliviar sua situação de sobre-endividamento (e.g., por meio do perdão ou da renegociação de dívidas tributárias e previdenciárias).

(2) Devolver aos grandes clubes o lugar que lhes é de direito acabaria com um futebol nivelado por baixo, única conjuntura em que os clubes do Paraná podem aspirar a grandes coisas. Não é justo, os paranaenses hão de espernear, mas a vida nem sempre é justa. Não é qualquer fabricante de mobilete que pode aspirar à proteção que o Estado dá à Embraer, assim como não é qualquer Atlético Paranaense que pode aspirar a receber o mesmo tratamento que o Flamengo.

(3) Entrando, agora, nas considerações pessoais: na cabeça privilegiada do sr. Mendes Junior, um blog dedicado ao futebol carioca há de ser necessariamente obscuro. Que dizer, então, do Blog de Primeira? Salvo engano, aquele é um blog sobre futebol carioca, tamanha a obsessão deles com o assunto. Se um blog sobre futebol carioca escrito por cariocas é forçosamente obscuro, como qualificar um blog sobre futebol carioca escrito por paranaenses?

É natural que o centro desperte um interesse desproporcional na periferia. Mas as Cartas da Inglaterra do Eça de Queiroz jamais darão uma visão tão clara da realidade inglesa como uma leitura criteriosa do Times.

(4) Alguém lá no Blog de Primeira sugeriu, acho até que de boa fé, convidar o Tinhorão a publicar seus textos por lá. Agradeço, mas sou forçado a declinar do convite. Já fui convidado a publicar em espaço muito mais conceituado que aquele -- o que muito me honrou --, mas não pude aceitar por uma questão de liberdade editorial: faço questão de manter o tom belicoso, confrontativo, quando falo de assuntos que me são particularmente caros. Essa liberdade não casa bem com um espaço coletivo, com regras de conduta e restrições de tom e de linguagem subentendidas.

(5) Uma última palavra sobre “blogs desabitados”: após levar uma surra na discussão, o sr. Mendes Junior quis sair por cima acusando este blog de ser “obscuro e desabitado”, e este autor de nem atualizar o blog regularmente. Sobre a segunda acusação, simplesmente constato que eu tenho mais o que fazer do que ele. Sobre a primeira, mil vezes escrever para meus oito leitores, que têm domínio da língua portuguesa, a escrever para gente como o quadrúpede lá que me acusa de escrever com um dicionário do lado (e que parece ter uma tese de pós-doutorado sobre o feudalismo): se eu tivesse que fazer como os jornalistas da Folha de São Paulo e cortar todas as palavras “complicadas” e desconfiar das que tenham mais de três sílabas, eu simplesmente pararia de escrever.

7 de jun de 2004

NO PASARÁN
(OU “Da perplexidade que leva ao emputecimento”)


Antes de mais nada, queria recomendar a leitura do último post do meu compadre Valido Platero, também sobre as sandices publicadas pelo sr. Mendes Junior no Blog de Primeira. Destaco um trecho, que está longe de ser o meu favorito, só para deixá-los com água na boca:

“O sr. Leonardo pensa que o carioca mantém o Maracanã apenas por orgulho. Não o culpo. Quem vive em uma cidade cujo maior monumento é um relógio feito de flores não poderá nunca entender o que é conviver com um símbolo mundial [...].”

Em segundo lugar, penso que devo uma satisfação aos leitores que acham que eu peguei pesado com o cretino do sr. Mendes Junior porque diagnostiquei sua cretinice. Não conheço pessoalmente o palpiteiro da Gazeta do Povo e, se bati nele mais do que ele talvez merecesse, é porque julgo que seus escritos são típicos da crônica esportiva paranaense: bairristas e recalcados.

Reconheçamos desde já a verdade evidente e não voltemos mais a esse ponto: o futebol carioca vai muito, muito mal das pernas. Tão mal que está no mesmo nível ou talvez abaixo do futebol paranaense (reparem os leitores da terra dos pinhais que o futebol de seu Estado é paradigma de mediocridade, é como que um marco: daqui para baixo é tudo merda).

Diante dessa verdade insofismável, identifico dois tipos de reações patológicas na imprensa nacional: a dos cronistas cariocas, que, regra geral, não a reconhecem, e a dos paranaenses, que não têm nada a ver com isso mas transformaram a crise do futebol carioca num de seus assuntos prediletos, numa obsessão.

Quero frisar que, para mim, as duas reações são igualmente patológicas: o carioca que não quer enxergar a realidade e o paranaense que se compraz em escancará-la com exagero.

O primeiro caso é um problema doméstico nosso: no filho meu, bato eu, e eu canso de bater, aqui mesmo neste blog, nos cronistas cariocas indignos de ocupar o espaço que já foi de Nelson Rodrigues e João Saldanha.

O segundo caso é de agressão estrangeira, a que eu não deixarei de responder com intensidade desproporcional para botar em seu devido lugar os ruminantes da imprensa esportiva do Paraná.

Dir-se-ia que há uma inversão de papéis: as análises que deviam vir n'O Globo e no JB acabam sendo impressas no Correio do Povo ou sei lá que outro pasquim provinciano. É como se as notícias sobre as falcatruas que acabaram levando ao impeachment de um Governador de um Estado qualquer viessem, não nos jornais desse Estado, mas nos já referidos O Globo e JB.

Se essa obsessão com a crise do futebol carioca fosse coisa de jornalistas de São Paulo, eu até entenderia: não aceitaria, mas entenderia. Mas... o Paraná? Que cazzo nós fizemos ao Paraná para merecer tamanho ressentimento dessa gente? Nós não fazemos piada com paranaense (que nem para estereótipo essa gente serve), não fazemos turismo por aquelas plagas, não invadimos as belíssimas praias do litoral deles, não vivemos dos impostos que eles pagam (pecado de que eles acusam os nordestinos), não os tratamos mal quando vêm ao Rio, não sintonizamos a TV para torcer contra os times deles, não limpamos o pau na cortina quando comemos as filhas e esposas deles... Qual é exatamente o problema deles conosco?

Juro para vocês: para mim, é quase como se a imprensa tirolesa ou normanda resolvesse dedicar artigos diários e mesas redondas semanais à crise do futebol carioca. Meu emputecimento vem da minha perplexidade.

Eu poderia, é claro, tratar as nulidades do quilate do sr. Mendes Junior com uma superioridade olímpica. Mas me recuso a fazê-lo. Assim como La Pasionaria, o Tinhorão gostaria de ser lembrado por uma idéia fixa: no pasarán. Quando comecei a escrever sobre futebol, jurei para mim mesmo não deixar passar sem resposta nenhuma imbecilidade grafada ou relinchada pelos cretinos do meio futebolístico brasileiro. Por mais insignificantes que sejam os autores, no pasarán.


6 de jun de 2004

AS LIÇÕES DO SR. MENDES JUNIOR





Um dos motivos pelos quais sou grato aos Rolling Stones é por terem popularizado o adágio it’s the singer, not the song. Eu o uso constantemente para explicar as causas de meu mal-estar quando ouço coisas sensatas pronunciadas por um cretino.

Digo isso a propósito das muito mal traçadas linhas do senhor Leonardo Mendes Junior no Blog de Primeira. Naquele escrito, o palpiteiro paranaense defende a demolição do Maracanã -- proposta com a qual evidentemente não concordo -- porque isso ajudaria o torcedor carioca a acordar para a realidade dolorosa da decadência de seu futebol -- constatação que subscrevo sem maiores dramas de consciência.

Dito isso, como responder ao escrevinhador de pasquim de província? Simplesmente jogar na cara dele uma lista de estrelas cariocas de outrora, de Leônidas da Silva a Romário, seria fugir do ponto principal: sim, o futebol carioca foi grande, e até o sr. Mendes Júnior concorda -- a contragosto -- com isso. Mas um Garrincha entortando joões em 1958 não apaga a triste realidade de um Douglas Silva dando patadas na bola em 2004.

Cotejar essa lista com uma que vá de Sicupira a Kléberson, passando por Rafael e Paulo Rink, seria covardia e deselegância. Colocaria o sr. Mendes Junior em seu devido lugar, mas seria deselegante.

Mas há um fato significativo por trás desse contraste entre Zico e Kléberson, um fato que devia ofuscar pela evidência aqueles que pensam o futebol brasileiro: quando o futebol carioca foi grande, o futebol brasileiro foi imenso. Tempos de Leônidas, de Barbosa, de Dida, de Garrincha, Gérson, Zico, Bebeto e Romário. Quando os paranaenses figuram na primeira linha do futebol nacional, é porque o esporte vai mal das pernas: tempos de Rafael e Lela eram também tempos de Márcio Nunes e Lulinha; tempos de Kléberson e Cocito eram tempos de Adãozinho e Magrão; tempos de Coritiba na Libertadores são tempos de Dimba artilheiro do Brasil.

Afinal de contas, quando foi, em um século de história, que os clubes paranaenses foram grandes merdas em nosso futebol? Foi durante a sangria de talentos de meados dos anos 80 -- quando Zico, Falcão, Sócrates, Dinamite, Júnior, Edinho, Careca e até gente do quilate do Casagrande estava ou jogando na Europa ou de malas prontas para ir para lá. Foi de 1999 para cá, quando a crescente debilidade da moeda nacional acabou com a farra dos grandes clubes que até então vinham repatriando talentos, postergando a saída de jovens craques e até importando estrelas de segundo escalão, como Petkovic e Asprilla -- a Brahma, a ISL, a Hicks & Muse, o Bank of America pagavam a conta.

Corolário óbvio: Atlético Paranaense e Coritiba -- assim como Bangu e São Caetano -- só podem aspirar a coisas grandes num futebol nivelado por baixo. Atlético Paranaense campeão do Brasil não é tanto o efeito do trabalho de um Petraglia, mas sobretudo o resultado de gestões imprevidentes como Kléber Leite, Edmundo dos Santos Silva, Eurico Miranda, Mustafá Contursi e Alberto Dualib.

Por que insisto em buscar causas do sucesso relativo dos paranaenses quando o assunto é a decadência inegável do futebol carioca? Porque o sr. Mendes Junior caga regras olhando de cima, como que dando lições aos imbecis que teimam em cantar refrões de tempos idos no Maracanã em vez de assistir a Pato Branco x Matsubara no pay-per-view. Acredita sinceramente que está em condições de nos ensinar a gerir nosso futebol porque não enxerga que o Atlético Paranaense e o Coritiba só podem parecer grandes num cenário de débâcle de quase todos os clubes verdadeiramente grandes.

Que os clubes cariocas mereciam administrações melhorzinhas é uma conclusão inescapável para quem quer -- de verdade, e não da boca para fora -- vê-los fora do atoleiro em que se meteram. Reconhecer isso está longe de subscrever as teses que gente do quilate do sr. Petraglia quer empurrar-nos goela abaixo como receitas para o sucesso.

Claro, o pensamento do sr. Petraglia tem pelo menos coerência interna: ele prega um futebol sem pobres nas gerais porque sabe que matar a paixão é a receita para um time do Paraná disputar espaço com os grandes. O sr. Mendes Junior não enxerga as conseqüências últimas dessas teses modernosas: vem cagar regra porque acredita sinceramente que, se o Atlético se sagra campeão do Brasil, é porque o futebol do Paraná é uma fortaleza.






1 de jun de 2004

A CURIOSIDADE DE JUCA KFOURI

Há alguns dias, em artigo publicado no Lance que só agora me chegou às mãos -- Agora é torcer pelo Santos --, o senhor Juca Kfouri ousou perguntar o seguinte, em voz alta: "Afinal, o que Buenos Aires tem que São Paulo não tem?"

Acabo de mandar o seguinte e-mail ao senhor Kfouri:

Prezado Juca Kfouri:

Dia desses escandalizei-me ao ler um artigo seu intitulado "Agora é torcer pelo Santos". Lá pelas tantas, após falar de tudo e mais um pouco -- do Once Caldas ao Boca x River --, o senhor atirou nas caras perplexas dos leitores uma pergunta absolutamente inacreditável. Li e reli para ver se o senhor não
estava de sacanagem, mas era isso mesmo:

"Afinal, o que Buenos Aires tem que São Paulo não tem?"

O que Buenos Aires tem que São Paulo não tem? Vamos ver por onde eu começo a responder.

Tem História. Tem igrejas que ostentam, nas paredes, marcas de tiros dos combates contra os ingleses em 1808. Tem o cabildo que instituiu o primeiro governo autônomo da América Latina, em 25 de Maio de 1810. Tem a praça onde o povo se reuniu para comemorar o primeiro governo autônomo e onde impôs ao governo militar a libertação do Coronel Perón em 17 de outubro de 1945. Tem, ali do lado, uma catedral onde repousam os restos de um herói da Independência de todo o continente. A 9 de Julho de lá lembra a Independência de um território enorme, não a sedição separatista de uma província.

Tem cultura. Tem ruas e bairros que são descritas em "Sobre héroes y tumbas", e não em "Paulicéia Desvairada" (isso, caro Juca, faz uma diferença monumental). Foi cantada por Gardel, e não pelos Demônios da Garoa. Tem o Teatro Colón, e não uma sala de concertos dentro de uma estação de metrô. Tem El Ateneo, não a Cultura. Tem cineastas que fazem "Nueve Reinas", e não "Cronicamente Inviável". Tem Borges e Cortázar em vez de Mário e Oswald de Andrade, Piazzolla em vez da Leandro de Itaquera, Martha Argerich em vez dos Garotos Podres.

Também tem tudo o que o dinheiro pode comprar, só que eles compram incontestavelmente melhor. Quando tinham bala na agulha, trouxeram simplesmente a primeira filial da Aliança Francesa da história. Trouxeram a única filial da Harrod's de Londres (convenhamos que impressiona mais que o Mappin). Trouxeram o rugby e o pólo, não os bonezinhos da NBA e o hip-hop.

Tem culinária própria. Tem o mui portenho asado de tira, o portenhíssimo bife de chorizo, o portenhérrimo bife de lomo. Tem isso em vez da massa italiana do Bixiga (sic) e dos sushis japoneses da Liberdade. Mas se o assunto é cozinha internacional, desculpe lá, Juca: sou muito mais os
restaurantes branchés de "Palermo Hollywood" que a afetação dos teus Barakahs -- ou sei lá como se chama o estabelecimento de nome indo-persa-paquistanês que é tido e havido, aí no Arraial, como um dos melhores restaurantes do mundo.

Tem o Rio da Prata, não o Tietê. Na beira do rio, tem os parques e ciclovias da Costanera Sur, não o prédio da Microsoft na Berrini. Tem uma grande atriz, a senhora Mirtha Legrand, no lugar que, aí, é da Hebe Camargo. Tem o edifício Kavanagh em vez do Largo do Arouche. Tem a Calle Florida em vez da 25 de Março.

Para terminar, nas colunas esportivas, tem o Fontanarrosa em vez do Juca Kfouri.

Espero que isto sirva, não para satisfazer sua curiosidade, mas ao menos para indicar-lhe por onde começar a instruir-se para que, um dia, o senhor descubra por si próprio por que a sua pergunta é um verdadeiro despautério.