25 de mar de 2003

OUTRA VEZ O CALAZANS

Calazans, 25/03/2003: "Por falar em papel feio, tivemos também o do ex-presidente da Fifa João Havelange, que criticou João Saldanha e deu sua versão sobre a saída do técnico da seleção em 70, sem que Saldanha possa se defender e dar sua versão também."

No mínimo curiosa a ética do Sr. Calazans. O Sr. João Havelange é deselegante por fazer críticas a quem não pode mais se defender. Ele próprio pode criticar quem bem entender, nos termos que julgar convenientes, e jamais abrirá espaço para o ofendido manifestar-se. E não pede desculpas quando todas as evidências demonstram que está errado.

Ou será que eu perdi a coluna em que ele pede desculpas ao Felipão pelas críticas incivilizadas que fez ao técnico pentacampeão do mundo, ao técnico que provou, ao trazer o caneco, que seus métodos de trabalho frutificaram, a despeito das restrições imbecis do Sr. Calazans? Quem não se lembra da ironiazinha barata contra a "família Scolari"?

Isso para não falar da pretensão imbecil de dar por encerrado um capítulo da história pelo simples fato de um dos envolvidos estar morto. Onde estaria a historiografia se todos os personagens históricos seguissem a orientação cretina do Sr. Calazans e se abstivessem de escrever memórias e dar depoimentos porque morreram outros participantes do evento em questão?

Churchill jamais poderia ter escrito suas memórias da Segunda Guerra Mundial. Hitler não podia defender-se.

24 de mar de 2003

JUÍZES SEM APITO

Mais uma vez, os amigos hão de me perdoar se insisto no assunto penoso da arbitragem. É que, mais uma vez, as patuscadas da arbitragem (desta feita de responsabilidade do Sr. Samir Yarak) ofuscaram os acontecimentos puramente futebolísticos -- numa decisão! Ofuscaram até gol que começou com cruzamento de letra.

Pode ser dolorida, mas é instrutiva a comparação com a final paulista. Lá, como aqui, juiz também erra, ora, pois. No primeiro jogo da final, validou-se um gol do Curintcha em impedimento. A diferença está em que, lá, erros da arbitragem são encarados como decorrências naturais da humana condição dos homens de preto. No Rio, parte-se do pressuposto -- compreensível e provavelmente correto -- de que o homem de preto está de sacanagem. E, a cada gol mal anulado ou mal referendado, o que se vê é esse espetáculo deprimente de jogadores dando cabeçadas em juízes e falando com eles como não se deveria falar nem com filho adolescente.

O diabo é que as circunstâncias me impedem de censurar um Alex Oliveira que peita um bandeirinha ou um Athirson que passa noventa minutos com o dedo na cara do Sr. Carlos Jorge Moreira. Os jogadores, remunerados para ganhar com a bola nos pés, cansaram-se de ver seus esforços sistematicamente frustrados por juízes escolhidos a dedo pelo Sr. Eduardo Viana. Resultado: hoje já não é mais tão simples um juiz arranjar um resultado. Carlos Jorge Moreira conseguiu na final da Taça Guanabara, mas teve sua arbitragem inviabilizada pelos rubro-negros emputecidos na semifinal. Pode até ser escalado e entrar em campo, mas não apita mais jogo do Flamengo -- entendendo-se "apitar" por decidir e fazer respeitar suas decisões durante os noventa minutos.

Não sei se Samir Yarak entrou em campo com más intenções, ontem, se anulou de sacanagem o primeiro gol tricolor, mas o fato é que, a partir daquele lance, não teria mais autoridade para decidir a seu alvitre. Tanto foi questionado, tanto foi pressionado, tanto foi ofendido pelos tricolores, que passou a temer qualquer decisão que prejudicasse o Fluminense. Com esse estado de espítito, inverteu a mais bisonha das faltas, na defesa tricolor, e indispôs-se definitivamente com os vascaínos, a quem havia beneficiado no começo do jogo.

Não sei se é irremediável a cegueira que impede os cariocas de ver o que está acontecendo. Mesmo sem a torcida do Flamengo, o Maracanã estava lindo, ontem, com as duas torcidas cantando. Mas o resto do Brasil, senhores, está acompanhando com muito mais atenção um reles Curintcha x São Paulo. Corremos o risco palpável de ver as novas gerações viverem sob a influência dessa gente que pendura nas arquibancadas faixas de Tucuruvi ou que vem ao estádio em caravanas de Pindamonhangaba e Itaquaquecetuba. Dessa gente que pula ao ritmo de uma escola de samba que, no Rio, seria rebaixada do Grupo de Acesso.

São Paulo terá seu Farah, terá seus erros, terá dirigentes que multem em R$ 50 mil um jogador por exercer o sacrossanto direito à liberdade de expressão, direito que assiste até a um Vampeta. Mas, por aquelas bandas, não se constroem resultados com a mesma sem-cerimônia que no Rio.

E, por compreensível que seja o jogador cansar-se e emputecer-se, o torcedor não gosta de barraco. Prefere assistir a um reles Curintcha x São Paulo, com as faixas de Tucuruvi e Pindamonhangaba, a um Fluminense x Vasco com todo o charme de um domingo à tarde num Maracanã lindíssimo.

Tivessem um mínimo de visão, os cariocas teriam acordado para fatos tão graves. Mas o que se vê é o vascaíno bater palmas para um sacripanta, um dos maiores responsáveis por esse estado de coisas, arrotando méritos próprios ao conquistar um campeonato cujo charme ajudou a destruir.

20 de mar de 2003

MAIS CARLOS JORGE MOREIRA

Desculpem-me os amigos se não falo do Fluminense x Vasco de ontem. Mas a imparcialidade deste blog é tamanha que eu não vou falar de uma simples final de campeonato, só porque ela vem atraindo os holofotes, e vou concentrar-me no fato muito mais transcendente de o Flamengo não estar disputando essa final.

Aliás, nem isso. Insisto em que foi merecidíssima a vitória tricolor. O fato é que eu ainda não me conformei com a escalação de Carlos Jorge Moreira no jogo contra o Vasco e -- os crápulas reincidem -- contra o Fluminense.

Sem querer fazer propaganda -- o que, aliás, deve ser contra as normas de uso deste blog --, o Google é uma ferramenta duccaraglio! Escrevi, lá, "Carlos Jorge Moreira", e eis que se me apresenta toda a vida pregressa do cidadão. Transcrevo, aqui, o que encontrei de mais interessante.

Em sua coluna n'O Dia
de 18 de março de 2003, Arnaldo César Coelho escreveu o seguinte sobre Carlos Jorge Moreira: "Mas nas poucas vezes que o vi apitar –- geralmente em São Januário -– sinto que esta tarefa não é das mais fáceis. Além de lhe faltar vocação, precisa ser orientado para se colocar melhor no gramado, já que fica muito embolado com os jogadores no meio do campo. E de tanto rodar feito um pião, acaba ficando tonto, deixando de marcar algumas faltas e invertendo outras, irritando a todos. [...] Quem sabe de tanto atuar, ele não acaba aprendendo?"

No dia 22/08/2001, o Jornal de Piracicaba, em matéria sobre o jogo XV 1 x 0 Londrina, publicou o seguinte: "Dois minutos depois o árbitro Carlos Jorge Moreira não marcou um pênalti claro quando André Pinto foi derrubado por Carlos Eduardo, dentro da grande área."

Em 19/11/2001, o Jornal do Commercio, do Recife, denunciou o seguinte: "No vestiário, o técnico alvirrubro, Paulo Cabrera, não escondia a frustração com a arbitragem do carioca Carlos Jorge Moreira e os seus assistentes paraenses Jorge Brasil Mourão e Edílson Ferraz. 'Jogamos contra a arbitragem e a Tuna. Não sou de reclamar, mas os erros na marcação de alguns impedimentos inexistentes nos prejudicaram', declarou."

19 de março de 2002, site do Terra: "Na partida entre as equipes pelo Caixão-2002, há pouco menos de um mês, o Americano venceu o América, por 2 a 0, em Édson Passos, num jogo marcado por contestações à arbitragem e agressões ao juiz Carlos Jorge Moreira." (Coisa curiosa: contestações à arbitragem num jogo vencido pelo Americano de Campos!)

Mais Terra Esportes (08/04/2002): "O Fluminense vencia a partida contra o Bangu até os 42 minutos do segundo tempo por 1 a 0, neste domingo, em Moça Bonita, mas acabou cedendo o empate e perdendo dois pontos importantes na Taça Rio." Pois bem: o Fluminense leva um gol do Bangu aos 42 do segundo tempo. O que faz o juiz? "O árbitro Carlos Jorge Moreira deu quase dez minutos de acréscimo, mas o Fluminense não teve forças para desempatar."

Lance, 11/05/2000: "Em uma partida sofrível, o Botafogo jogou mal, mas o suficiente para derrotar o América por 1 a 0." Agora é o Botafogo contra um pequeno -- ou contra um mais pequeno --, e sofrendo para vencer. Lance: "O árbitro Carlos Jorge Moreira assinalou impedimento, equivocadamente, pois Váldson dava condição ao atacante."

Não, não é porque o América é mais pequeno: "No minuto seguinte, o Botafogo teve um gol anulado em um lance duvidoso."

Tribuna do Norte, sei lá quando: "Em uma boa exibição, o Fluminense derrotou o Vasco por 1 a 0 - gol de Roger - ontem á tarde, e deu mais emoção à disputa da Taça Rio." Boa exibição mesmo. Jogou contra o Vasco e contra o juiz: "Logo a 1 minuto, Roger puxou contra-ataque e rolou na esquerda para Agnaldo, que tentou o lançamento para Magno Alves. Mauro Galvão cortou com a mão e o árbitro Carlos Jorge Moreira não marcou o pênalti." (Coisa inusitada, Carlos Jorge Moreira roubando para o Vasco!) Tem mais: "Carlos Jorge ainda pecava na parte disciplinar, quando deveria ter expulsado Felipe ainda no primeiro tempo, por uma entrada violenta em Roger." Felipe jogava onde? No Vasco.

Ainda tinha mais, mas minha paciência acabou.

As notas transcritas provam que Carlos Jorge Moreira é péssimo juiz, não provam que é ladrão. Mas a Federação do Caixa d'Água sabia que ele era péssimo e o escalou para dois jogos de suma importância. E isso, meus negos, deve querer dizer alguma coisa.

19 de mar de 2003

Tem dias em que falta ânimo para escrever. Tem sido assim desde sábado.

Há algo no mínimo curioso acontecendo quando um árbitro, sem ter influído diretamente no resultado do jogo, torna-se a estrela do espetáculo. Foi o que se viu no Fla-Flu. O Sr. Carlos Jorge Moreira protagonizou um dos espetáculos mais tristes de que se tem notícia na história do futebol carioca. Não influiu diretamente no resultado, não apitou nenhum pênalti inexistente, não validou nenhum gol ilegal e, assim mesmo, foi a grande atração da tarde.

É bom que se diga desde já: foi justíssima a vitória e a goleada do Fluminense. Não fez mais porque não quis. Os tricolores hão de se lembrar para sempre do show proporcionado por seus jogadores. Mas os demais torcedores hão de se lembrar de Carlos Jorge Moreira. De Carlos Jorge Moreira ouvindo, com o rabinho entre as pernas, os impropérios de Athirson ao longo dos noventa minutos. De Carlos Jorge Moreira tremendo de medo quando Alessandro, expulso, encarou-o e disse para o Brasil todo ouvir: "Você é um merda!"

Impossível imaginar tal espetáculo de pusilanimidade sem que Carlos Jorge Moreira tivesse alguma culpa no cartório. Como não beneficiou o Fluminense, como já foi encostado na parede e desrespeitado, sem tomar maiores providências, quando o jogo ainda estava 0 x 0, é de se imaginar que seus pecados sejam anteriores ao Fla-Flu. Com efeito, a covardia do Sr. Carlos Jorge Moreira, no sábado, é um atestado de culpa pela roubalheira da final da Taça Guanabara.

Não fosse assim, como poderia um homem que honra o que tem entre as pernas aceitar passivamente os urros de Athirson e as ofensas de Alessandro? Como poderia intimidar-se tanto a ponto de tentar flagrantemente apaziguar os jogadores do Flamengo, permitindo aos rubro-negros cobrar as faltas cometidas por eles próprios? Não foi o que se viu no final do jogo, quando Júlio César saiu driblando até a intermediária do Fluminense e, desarmado, jogou todo o seu peso contra um defensor tricolor?

A única resposta plausível para essas perguntas é que o Sr. Carlos Jorge Moreira tinha antigos pecados a expiar. Confrontado com um acusador tão veemente como Athirson, o larápio perdeu completamente a ascendência que torna praticável apitar.

Depois do que o Sr. Carlos Jorge Moreira fez no Flamengo x Vasco, tornar a escalá-lo para apitar um jogo do Flamengo seria uma temeridade que só se poderiam permitir os muito burros ou os muito calhordas. E o Sr. Eduardo Vianna obviamente não é burro.

Não é por burrice dele que o futebol carioca foi relegado a esse papel secundário a que se vê restrito hoje. Não é por burrice dele que, este fim de semana, um reles Curintcha x São Paulo (qualquer clássico paulista é reles, sem cor e sem charme) foi um deleite muito maior para os olhos do que -- of all matches! -- um Fla-Flu.

Fosse burro, não estaria há dezessete anos mandando e desmandando no cada vez menos empolgante futebol carioca.

Burros são os que o elegem e reelegem, fazendo definhar a nossa paixão, matando o futebol mais charmoso do mundo. Só que, a partir de um certo ponto, insistir na burrice passa a ser também canalhice.

11 de mar de 2003

Sei que corro o risco de soar como o Sr. Calazans -- ranheta e jurássico -- ao fazer estas reflexões, mas já avisei alhures que não tenho nada contra o saudosismo, de que sou adepto confesso. Corro, ainda, o risco de me assemelhar ainda mais ao redundante cronista d'O Globo ao compartilhar com vocês um desconforto que está longe de ser original, que é meu e mais de todo o mundo que viveu tempos de um futebol mais poético, mas, what the fuck...

Como é triste ver a torcidinha do Vasco endeusar o Marcelinho.

Que não se me acuse de estar com dor-de-cotovelo pelo fato de o Marcelinho estar defendendo as cores (or lack thereof) do time do subúrbio. É craque, eu não me importaria em absoluto em vê-lo jogar pelo Flamengo, mas, sinceramente, nem eu nem rubro-negro nenhum de minhas relações morria de vontade de vê-lo com o Manto outra vez.

É triste porque, ao longo desses quase dez anos em que o Marcelinho andou jogando naquele arraial de quinze milhões de habitantes, vascaíno nenhum esquecia que era um ex-rubro-negro, e um ex-rubro-negro particularmente nojento para o gosto deles e, admitamos, para o de quase todo o mundo que não torça pelo Curintcha.

Era, para eles, a quintessência do que a Gávea podia produzir de mais detestável -- junto com Paulo Nunes e Júnior Baiano.

E eis que o até então repelente, o repugnante, o asqueroso Marcelinho é o novo xodó da torcidinha vascaína.

Tenho para mim que, desde que o Maestro Júnior pendurou as chuteiras, não existe mais isso de jogador que tem a camisa de um clube, e de um único clube, como segunda pele. Não seria razoável exigir dos vascaínos que torcessem o nariz para o Marcelinho só porque se trata de ex-rubro-negro.

Mas, com minha ética provavelmente defasada, eu ainda acho que, num caso extremo como o do Marcelinho, o decoro manda não idolatrar. Não era ele, na cabeça ressentida dessa gente, a personificação de tudo o que o Flamengo tinha de mau? Seria como nós outros, hoje, passarmos a tratar o nojentinho Felipe como legítimo e digno sucessor do Zicão.

Bato palmas para o Felipe quando jogar bem, quero muito que se destaque e resolva as coisas para o Flamengo. Mas idolatrar o do topetinho seria demais para o meu estômago.

Talvez eu esteja ficando velho como o Sr. Calazans. Talvez eu devesse dedicar-me a comentar sinuca.

7 de mar de 2003

Estive fora, de férias, por algumas semanas. Ainda com acesso intermitente à internet, vou tentar reunir num único post os acontecimentos das últimas duas ou três semanas que chegaram ao meu conhecimento a alguns milhares de quilômetros daqui e que ainda merecem comentários.

Uma fonte insuspeita -- um tricolor via DDI, para ser exato -- contou-me que o Flamengo foi escandalosamente garfado no sábado de Carnaval e que, por conta disso, o time do subúrbio sagrou-se campeão da Taça Guanabara. Fosse apenas um gol rubro-negro mal anulado -- e parece não haver dúvidas de que foi pessimamente anulado --, eu talvez creditasse o título vascaíno a um infeliz erro de arbitragem. Mas um outro lance, e uma outra trapalhada de Sua Excelência, o árbitro, deixou o meu amigo tricolor com a pulga atrás da orelha.

Lá pelas tantas, conta-se que o Jorginho deu um carrinho dentro da área rubro-negra, para afastar a bola. Vinha um vascaíno a meio quilômetro de distância e, vendo aquilo, o árbitro apitou jogo perigoso. Dentro da área do Flamengo. Dizem que o Wright, comentando o jogo, parecia genuinamente escandalizado com a decisão do juiz, cujo nome e cujos cornos aliás ignoro.

O curioso é, depois de acontecerem coisas assim, ver os vascaínos com aquele ar de dignidade ofendida sustentando a mesma conversa para boi dormir segundo a qual o time do subúrbio é sempre o injustiçado, sempre o perseguido, sempre o mais sacaneado -- talvez por ser o time do subúrbio, talvez por seu ilibado Presidente julgar-se inimigo figadal do Sr. Roberto Marinho, talvez porque sejamos um país mais racista que a África do Sul e nossas elites filohitleristas jamais perdoaram o Vasco por ter escalado uns pretos e mulatos em 1920, talvez porque círculos lacerdistas infiltrados até hoje em todos os centros decisórios do país jamais engoliram os comícios de Vargas em São Januário, na década de 40.

Eu, alheio a essas especulações sobre o verdadeiro motivo por que o Vasco da Gama é tão sacaneado, fico a relembrar as vezes em que foi, antes pelo contrário, muito beneficiado por decisões no mínimo duvidosas da arbitragem ou da cartolagem. Freqüentemente em cima do Flamengo. Como no sábado de Carnaval. Como nos 2 x 1 do Brasileiro de 2002. Como no gol anulado de Juan (ou terá sido do Beto?) na final do Carioca de 1999. Como no pênalti não marcado em cima do Romário na final da Taça Rio de 1999 (na ocasião, o então vascaíno Felipe quase pisou na cabeça do então rubro-negro Romário). Como no gol rubro-negro mal anulado na final da Taça Guanabara de 1998. Isso para não falar em casos que não envolveram o Flamengo, como a final do Brasileiro de 1974 (Jorginho Carvoeiro? Alguém lembra?), o mui controvertido empate com o Curintcha em 1989, que ajudou a levar o Vasco à final do Brasileiro daquele ano, a escalação de Edmundo na final do Brasileiro de 1997, a sacanagem a que submeteram o São Caetano em 2000, com a qual concordou um cartola são-caetanense, digamos assim, demasiado facilmente intimidável.

Diante disso, os poucos torcedores do Vasco com quem convivo vêm dizer-me que não houve falta sobre o Petkovic em 2001 (façam-me o favor, vejam o VT!). Ou desencavam a história do ladrilheiro. Serão realmente débeis-mentais de babar na gravata ou eu é que não enxergo que uma molecagem como a do ladrilheiro e um padrão tão consistente de arbitragens duvidosas são, no fundo, a mesmíssima coisa?

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Na minha volta, disseram-me também que o Pet vai jogar na China e que, muito provavelmente, eu jamais o verei vestir aquele trapo imundo outra vez. Menos mal. Acho que, desde o affaire Bebeto, ninguém mais considera um traidor o sujeito que, um belo dia, resolve vestir a camisa do maior rival. Mas o Pet foi, depois do Zicão, o jogador que eu mais gostei de ver vestindo a Camisa 10 da Gávea. E era chato, muito chato vê-lo com aquela camisa asquerosa sem cor nem glória, com um cinto de segurança no peito em vez da estrela amarela de campeão do mundo.

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Falar no Zico, o Galinho merecia uma homenagem muito maior do que a que posso prestar-lhe agora, quatro dias depois do seu cinqüentenário, e já meio sem clima.

O Zico foi o único jogador que me fez chorar duas vezes. Quando deixou o Flamengo em 1983 e quando deixou o Flamengo em 1990. O Zico me fez campeão do mundo, o Zico ajudou a fazer a cachorrada enfiar onde melhor lhe aprouve (à cachorrada) aquela faixinha ridídula que levava ao Maraca desde 1972, o Zico fez freguês ressentido do Flamengo o detestável Galo das Alterosas, o Zico botou aquela bola na cabeça do Rondinelli inaugurando uma era de predomínio absoluto do melhor time que já vi jogar, o Zico botou aquela bola no gol dos chilenos escrotos do Cobreloa, o Zico acabou com a vantagem do Santos do delinqüente do Serginho Chulapa em 40 segundos de jogo, o Zico botou aquela bola no gol do Santa Cruz e levou o Flamengo às finais e ao tetra em 1987.

Até hoje, quando Sua Majestade pisa na tribuna de honra do Maracanã, eu fico com os olhos verdadeiramente embaciados quando grito que “o Zico é o nosso Rei”. Ou quando escuto que “é falta na entrada da área / adivinha quem vai bater?”.

Quando o Zico fez aquele gol contra a Iugoslávia, em 1986, o Luciano do Valle disse que não havia palavras para descrever a obra-prima. Pois no cinqüentenário do Galinho, acho que todos nos sentimos um pouco assim, sem palavras para agradecer-lhe por tudo.

Mas todos nós tentamos: muito obrigado, Zicão.